2014, Companhia das Letras, Poesia, Resenha

Ligue os pontos: poemas de amor e big bang

Ligue os pontos: poemas de amor e big bang, de Gregório Duvivier

“se eu fosse um faraó do egito antigo
não me faria falta o carnaval do rio
o ipod o iphone o iogurte grego
o mate de galão ou o miojo
de galinha caipira eu viveria feliz
por meses entre múmias e deuses
com cara de cachorro – ou quase:
a única invenção cuja inexistência
me obrigaria a tomar o cianureto
mais em voga das maravilhas do mundo
moderno a única coisa que me faria falta
é você (e talvez quem sabe o ar
condicionado, mas sobretudo você).” (p. 61)

Já comentei aqui que não sou uma super leitora de poesia, a prosa tende a me agradar mais (claro que tem coisas de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa e seus heterônimos, etc., que são inegavelmente maravilhosas).

Gregório Duvivier, autor do Ligue os pontos, é mais conhecido por ser humorista e ator do canal do youtube Porta dos Fundos. Atualmente, é também colunista (brilhante!) do jornal Folha de São Paulo, com textos lúcidos, críticos, bem humorados e inteligentes (um dos textos que costumo recomendar dele é o Xingamento). Uma coisa que não sabia sobre ele é que é formado em Letras. Faz sentido.

Este livro inclusive foi finalista do Prêmio Jabuti (o mais conhecido prêmio literário do país) neste ano de 2014, na categoria poesia, juntamente com veteranos como Adélia Prado (Miserere), e Armando Freitas Filho, (Dever).

OBS.: Só a título de curiosidade, os livros Fim, de Fernanda Torres, e Nu, de botas, de Antonio Prata, também foram finalistas do prêmio (o que ficou melhor colocado em sua categoria, “contos e crônicas”, foi Nu, de botas, com o terceiro lugar). Ambos têm resenhas no blog, é só clicar!

Não me lembro se já tinha lido algum poema dele e foi isso que me abriu interesse para a obra inteira, mas acabei adquirindo o livro. Sem arrependimentos!!!!

Gregório é um cara da minha geração (nasceu em 1986), e portanto consegue traduzir muito do que penso e sinto (creio que quem for do final dos anos 80 e início dos 90 também terá essa impressão – quem não for, entenderá também, mas com um afastamentozinho um pouco maior). Preciso colocar como exemplo o poema “geração bug do milênio”:

“mil novecentos e noventa e oito
anos depois de cristo o cinco meia
nove custava só sessenta e cinco
centavos e às seis passava doug

no canal dois e beakman no jantar
eram seis nuggets pra cada um
de sobremesa horas no icequê
e cento e dez mil resultados para

‘mulheres gostosas’ no altavista
depois sempre sonhar com labirintos
o fluminense os beatles as mulheres

do altavista cair do quinto andar
e acordar com medo que o mundo acabe
antes de eu conseguir beijar alguém” (p. 39)

Ele consegue misturar nossos sentimentos da maneira mais sutil possível: nostalgia, bom humor, melancolia, ansiedade.

Como vocês puderam perceber, a pontuação é bem diferente, como em muitas obras poéticas acontece. Nessa circunstância, foi muito útil eu ter aprendido em algum lugar que, num poema, não pausamos no fim de cada verso, a não ser que a pontuação o peça.

O livro está dividido em dois grandes “temas”: “Cartografia afetiva”, sobre diversos bairros do Rio de Janeiro e suas peculiaridades (e aqueles detalhes em que só poetas prestam atenção) e “Aprender a gostar muito” (poemas de amor). Adorei as duas partes, apesar de não ser a pessoa mais apaixonada pelo Rio de Janeiro no mundo e achar que os poemas de amor tendem a ser bregas. Gregório traduz tudo isso de um jeito não-brega (ou foi brega e eu é que não percebi porque estou apaixonada?) e sensível, de um jeito prático, pegando conversas cotidianas, miudezas de amor, e transformando tudo isso em palavras, a coisa mais linda.

Recomendo para qualquer um, é um livro curtíssimo (dá pra ler em menos de meia hora), levíssimo e belíssimo. Um dos melhores livros que li este ano.

+ info:
Ligue os pontos: poemas de amor e big bang / Gregório Duvivier.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
85 páginas.

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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5 comentários sobre “Ligue os pontos: poemas de amor e big bang

  1. Gosto de poesia. Fui descobrindo ao logo da vida….
    Apesar de ser dos anos 60, vivenciei o final dos 80 e começo de 90 através dos filhos. Percebo, nem que seja como expectadora, as experiências e angustias do autor. Parece ser muito interessante e tranquila a leitura. Vou conferir.
    Mylene

    • Nossa, que opinião curiosa! 🙂 Bem específica!
      Eu me surpreendi positivamente com os poemas dele, e olha que sou meio enjoada pra poemas. Mas confesso que não criei grandes expectativas antes de lê-los.
      Obrigada pelo comentário, beijos!

  2. Também não sou a maior leitora de poesias do mundo, na verdade não gosto tanto, apesar de apreciar e respeitar muito o gênero (isso faz sentido? haha). Mas esse me pareceu mais interessante do que o Put some farofa. Fiquei mesmo é curiosa pra ler algo dele como colunista, pretendo procurar depois!

    • Julieeee! Faz todo sentido isso que vc disse! Hahahaha! Eu também respeito e acho o gênero poesia maravilhoso, mas sou uma pessoa mais da prosa… 🙂 Me toca mais, em geral!
      Realmente, gostei mais do “Ligue os pontos” do que do “Put some farofa”, mas as crônicas do Gregório na Folha são ❤ ❤ ❤ !!!! Quando puder, dê uma olhadinha sim! No site deve ter algum sumário com todas elas.
      Beijooo, obrigada pelo comentário!
      Nati

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