2014, Cosac Naify, Ficção, Resenha

A vida privada das árvores

A vida privada das árvores, de Alejandro Zambra

“Por enquanto Verónica é alguém que não chega, que ainda não voltou de sua aula de desenho. Verónica é alguém que falta, levemente no cômodo azul – o cômodo azul é o quarto de Daniela, e o cômodo branco é o quarto de Verónica e Julián. Há também um quarto verde, que eles chamam, brincando, de quarto de hóspedes, porque não seria fácil dormir naquela desordem de livros, pastas e pincéis. (…)
Nas últimas horas de um dia normal costumam manter uma rotina impecável: Julián e Verónica saem do quarto azul quando Daniela adormece, e depois, no quarto de hóspedes, Verónica desenha e Julián lê. De tempos em temos, ela o interrompe, e essas interferências mútuas constituem diálogos, conversas banais ou, eventualmente, importantes, decisivas. Mais tarde se mudam para o quarto branco, onde veem tevê ou fazem amor, ou começam a discutir – nada sério (…). Depois vêm cinco ou seis horas de sono. E aí começa o dia seguinte.
Mas esta não é uma noite normal, pelo menos ainda não. Ainda não é completamente certo que haverá um dia seguinte, pois Verónica não regressou da aula de desenho. Quando ela voltar, o romance acaba. Mas enquanto não volta o livro continua. O livro segue em frente até ela voltar ou até Julián ter certeza de que ela não voltará mais. Por enquanto está faltando Verónica no quarto azul, onde Julián distrai a menina com uma história sobre a vida privada das árvores.” (p. 12-13)

Esta é a história de Julián, um homem que acabou de completar trinta anos e é casado com Verónica, mãe da pequena Daniela, de 8 anos. Julián é professor de literatura em universidades da cidade de Santiago (no Chile), e escritor alguns momentos. Tem algum tipo de mania por árvores, pois todas as noites conta para sua enteada Daniela histórias de conversas entre árvores, as quais a menina adora e a fazem dormir.

A narrativa passa-se num meio-termo entre a casa dessa família e a cabeça de Julián, e está delimitada temporalmente pela chegada ou não de Verónica de sua aula de desenho – como explica o narrador, o romance acaba quando ela voltar, ou quando Julián perceber que ela nunca mais voltará.

O narrador da história, onisciente, merece um elogio à parte. Sutil, entrelaça a contação de histórias com os pensamentos do protagonista e suas próprias considerações acerca do romance (numa espécie de metalinguagem).

Nesse tempo, Julián faz coisas banais, como assistir a uma partida de futebol, e também acompanhamos diversos flashbacks por meio dos quais conhecemos mais o caminho dele até o momento presente. Entre esses flashbacks, os mais importantes são os que ele mostra seu relacionamento anterior, com uma estudante de Filosofia chamada Karla (uma mulher louca, que segundo ele “quase virou sua inimiga”), e a maneira como se aproximou de Verónica. Também acontecem uns flash-fowards, ou seja, algumas especulações sobre o futuro.

Karla é uma personagem interessante, apesar de quase não aparecer: ex-namorada de Julián, moraram juntos (embora ela mais se ausentasse do que estivesse presente, e ele não ligasse para isso) e ela terminou por ficar com muitos livros dele (o que lhe rendeu o apelido secreto de “ladra de livros”). O término do namoro dos dois é peculiar, para dizer o mínimo: certa vez, após outra longa ausência de Karla (meses!), Julián volta para casa e encontra, pintados em uma parede com tinta vermelha (a impressão que ele teve foi de que era sangue), os dizeres: “dá o fora da minha casa seu filho da puta”. E ele dá o fora.

Depois desse episódio assustador, ele acaba por encontrar o apartamento que antigamente havia sido a moradia de Verónica e sua filha Daniela, e o aluga. Através de encomendas infinitas de bolos tres leches os quais Verónica confeitava e vendia, eles acabam se aproximando.

De escrita direta, não pude evitar de comparar esse personagem com o Rob de Alta fidelidade, pois li os dois livros praticamente seguidos. Ambos os personagens estão na casa dos trinta anos e com problemas familiares e dilemas amorosos, um passado não dos mais satisfatórios em relacionamentos, e a diferença entre eles é abismal. Rob é imaturo demais, e talvez isso é que tenha me incomodado. Um dos elementos que os diferencia é justamente a maneira de encarar (e sei que isso não é uma escolha, mas sim algo intrínseco à personalidade de cada um): Julián não se importa com seu passado, embora tente; já Rob, tenta não se importar, mas é prisioneiro de seu passado.

Para Julián, a angústia cresce em relação ao futuro, à demora de Verónica para voltar para casa. Ele fica inquieto e imaginando os mais diversos cenários possíveis: Verónica parou no meio da rua para trocar um pneu furado, Verónica o está traindo com o professor de desenho.

O final não é dos mais surpreendentes, já que sabemos desde o começo do livro que o romance só tem dois finais possíveis: Verónica volta para casa ou Verónica não volta para casa. Até acho que o final poderia ter sido melhor desenvolvido, me decepcionou um pouco nesse sentido.

Este livro me fez sentir uma coisa que nenhum outro fez: é um livro efêmero, suas palavras são passageiras (que difícil explicar!). Enquanto eu lia, compreendia a história e tudo o mais, mas um minuto depois que largava o livro, já era  uma história que tinha passado, e pouco ficou na minha cabeça sobre os detalhes do que tinha acabado de ler. Muito interessante e inesperado! E tem tudo a ver com o fluxo de pensamentos de Julián durante as horas em que Verónica não chega. Quando estamos nesse “estado de espírito” de ansiedade, também temos pensamentos efêmeros o tempo todo, e essa característica da narrativa fez muito sentido.

Recomendo para um público adulto e que aprecie textos mais lentos e reflexivos – está longe de ser um livro de ação.

Não posso deixar de comentar a bela edição feita pela editora Cosac Naify (não estão me pagando nada para falar isso, ok? Quem sabe um dia…): capa simples e gráfica, verso da capa e da contracapa com uma estampa colorida e cuidadosa, grandes margens, paginas amareladas e texto impecável.

 

 + info:
A vida privada das árvores / Alejandro Zambra; tradução Josely Vianna Baptista.
– São Paulo: Cosac Naify, 2013.
93 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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2014, Ficção, Record, Resenha

Vidas secas

Vidas secas, de Graciliano Ramos

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
– Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
– Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.
Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a sinha Vitória, pôs o filho no cangonte, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou-se de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.
” (p. 9-11)

Estas são as primeiras linhas de Vidas secas. Graciliano Ramos (1892-1953) foi um escritor e jornalista alagoano, que iniciou sua produção literária durante a chamada Era Vargas (1930-1945). Como de 1937 a 1945 vivemos uma ditadura no país, o Estado Novo, partidos políticos haviam sido proibidos, e Graciliano Ramos foi preso em 1936 sob a acusação de ser comunista. Assim que os partidos políticos são liberados novamente, Graciliano filia-se ao PCB (Partido Comunista do Brasil) sob o comando de Luis Carlos Prestes (1945). Essa posição política influenciará em algumas de suas obras, notadamente São Bernardo.

Na década de 1930, entramos  na segunda fase do Modernismo brasileiro. É aí que aparece o romance regionalista, notadamente o nordestino, que tem como principais características ser uma “literatura social, pois discute as realidades socioculturais de determinadas localidades, sem perder o caráter ficcional universal. Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é um dos romances inaugurais desse moderno estilo brasileiro regionalista” (fonte).

Vidas secas foi escrito entre 1937 e 1938. Vira e mexe aparece na lista de alguns vestibulares – o que é ótimo, pois é um livro perfeitamente compreensível para alunos de Ensino Médio, tanto em termos de vocabulário quanto de temática. Não caiu em nenhuma prova no meu ano de vestibular (2005), mas no da minha irmã sim (2007), e este foi um dos poucos livros dessa época de que ela realmente gostou e se lembra até hoje.

Só tomei vergonha na cara para lê-lo agora – e amei.

O livro conta a história de uma família pobre e sertaneja da região nordeste do país. A família é composta por Fabiano (pai), sinha Vitória (mãe), menino mais velho, menino mais novo e a cachorra Baleia. Também havia um papagaio que não falava (pois a própria família não falava com frequência, então ele não tinha a quem copiar, apenas alguns latidos de Baleia), mas em uma das andanças da família em fuga da seca (precisamente, na andança descrita no início do post), o papagaio serve de alimento para que eles não morram de fome.

“Retirantes”, de Candido Portinari. 1944.

Meus comentários serão baseados no pouco que lembro de ter ouvido nas aulas de Literatura do Ensino Médio (já faz um tempinho, então as lembranças são incompletas), vou comparar o que me recordo de ter aprendido e minhas próprias impressões de leitura hoje. Lembrando que não sou especialista. Portanto, se tiver que confiar em alguém para fazer prova de Literatura ou algo do tipo, confie no professor ou em algum autor mais qualificado que eu!

Diz-se muito que é a história de uma família nordestina retirante – e é -, mas vai além disso. Existe uma narrativa, que conta percalços sofridos por Fabiano, pensamentos de sinha Vitória e seus meninos. E, é claro, a cachorra Baleia. Li esperando que o enredo fosse apenas uma viagem duríssima de uma família pobre em busca de uma vida melhor. A viagem não aparece o tempo todo. Aliás, a história (que é curta), se passa entre a fazenda onde Fabiano trabalha e mora com a família, o vilarejo mais próximo (capela, prisão, mercearia, etc.) e a caatinga em si, diferentemente do que eu imaginava apenas pelas descrições nas aulas de Literatura (pensava que seriam páginas e páginas de retirantes andando pelo sertão interminável).

A respeito do cenário, apesar de mudar o local (fazenda / vilarejo / viagem), o ambiente geral é o mesmo: o autor realiza uma descrição bastante vívida do sertão nordestino  e suas cores. É possível sentir o calor sufocante, o silêncio ensurdecedor, a agonia da sede, da fome e do cansaço. Por isso, é comum ouvirmos dizer que, nesta narrativa, o cenário é também um personagem.

     

O livro é narrado em terceira pessoa, mas não como estamos acostumados. O narrador não vai exatamente descrevendo tudo “por fora”, mas sim especialmente os pensamentos dos personagens. De certa maneira, isso nos permite visualizar o cenário, as relações e as ações a partir da perspectiva interna de cada um deles. Aprendemos o mecanismo de pensamento de Fabiano, de sinha Vitória, do menino mais velho, do menino mais moço e de Baleia (falarei sobre cada um deles separadamente).

Fabiano é, para mim, o protagonista. No posfácio que havia na edição que li, Hermenegildo Bastos, um estudioso da obra de Graciliano Ramos (e obviamente muito mais qualificado que eu), coloca a cadelinha Baleia como a personagem-chave do romance. Até pode ser que sim, usando uma interpretação sociológica-filosófica-ideológica (ou seja, Baleia como um símbolo). Mas quem mais aparece, quem mais conhecemos através de suas reflexões e ações, é Fabiano, um sertanejo (vaqueiro) que tem a barba ruiva e conduz sua família na luta pela sobrevivência. É um homem “chucro”: muito trabalhador, porém não teve educação formal alguma. Esse é um dos seus pesares e também um de seus alívios. Sua relação com a educação é ambígua pois, por um lado, ele acredita que a educação é algo “bonito”, pois ensina as pessoas a usarem as palavras (principalmente as mais difíceis); por outro, entende que as pessoas mais educadas são também as mais perturbadas e cheias de dúvidas.
Ele é extremamente explorado em seu trabalho pelo patrão; todo dia de recebimento do pagamento, Fabiano é enganado pelo fazendeiro e recebe pouquíssimo dinheiro (sob a alegação de que ele tem uma dívida que está sendo cobrada com juros, etc. O velho mecanismo de escravidão por dívidas no meio rural). Como ele não sabe fazer contas, fica por isso mesmo. Ou melhor, Fabiano aceita o pagamento e o discurso do patrão, porém fica extremamente indignado. Sabemos disso por intermédio de seus pensamentos, que fervilham de fúria pelas injustiças sofridas. É possível sentir isso, embora o vaqueiro não saiba expressar tal sentimento em palavras. Ele não sabe usá-las da maneira correta; comunica-se com a mulher e filhos através de monossílabos, grunhidos e conversas sem sentido. Apesar disso, há momentos pontuais de carinho e cuidado para com os familiares.
Não sei se já existe algum trabalho acadêmico sobre a relação que o sertanejo Fabiano estabelece com as palavras, mas deveria haver.
Fabiano é um trabalhador explorado, ignorante e sabe de tudo isso (existe nele a consciência de certo/errado e justiça/injustiça). Só não tem “voz” para expressá-lo. Não sabe usar as palavras como ferramentas para expressar sua indignação. E não vê possibilidade de mudança de vida, então acaba por se conformar. Só resolve tentar alguma modificação em situação extrema (seca).

Sinha Vitória (*no livro, a grafia é essa mesma, “sinha”, e não “sinhá”, por isso mantive-a.) se parece com Fabiano em alguns aspectos: também não sabe manejar as palavras, não teve estudo e cuida da família. Porém, ela é a personagem mais sonhadora. Sua maior frustração é não ter uma cama de couro para dormir – ela e o marido dormem em uma cama de varas, muito dura e desconfortável. Sinha Vitória tem pensamentos mais abstratos em relação a Fabiano: ela usa comparações implícitas sem perceber (quando diz a Fabiano que as aves migratórias vão matar o gado, o homem se espanta, pois considera a frase sem sentido. Depois de muito refletir, percebe a linha de pensamento da esposa, de que as aves acabariam por matar o gado de sede, após beber toda a água disponível. Ele fica assombrado com a inteligência da mulher), sabe fazer contas utilizando sementes (é aí que Fabiano percebe a diferença de contabilidade entre a esposa e o patrão), e é mais sonhadora e esperançosa.

Os filhos, os “meninos”, não têm nome. Vou especular agora, mas isso pode ser reflexo de uma época e lugar em que a mortalidade infantil era muito alta: as famílias não costumavam nomear bebês e crianças, já que elas poderiam morrer a qualquer momento (é, de certa maneira, um jeito de não se apegar a alguém). Os nomes apenas seriam dados a partir de uma idade em que o risco de morte iminente já passou. É interessante pensar que os adultos têm nome, e até a cachorra de estimação o tem, mas as crianças, não. De qualquer maneira, tanto o menino mais velho quanto o mais novo têm imaginação e curiosidade bastante ativas. O mais velho quer saber de qualquer jeito o que significa a palavra “inferno”, a qual considera muito bonita, e pergunta aos pais seu significado. Eles ficam extremamente irritados (já que os questionamentos das crianças evidenciam sua própria ignorância), e o garoto, frustrado por saber que o significado de “inferno” é desagradável. Já o mais novo, cria cenas heroicas do pai em sua cabeça: um vaqueiro valente; enxerga desenhos nas nuvens, etc.

Baleia é não só a cadela de estimação da família, ela é realmente um membro participante dela. Salva-os da fome, cuida e faz companhia aos meninos na maior parte do tempo. Não é à toa que a maioria dos leitores se apega muito a ela.
Em geral, é muito ressaltado nas análises com que tive contato o caráter humano de Baleia. Diz-se que Baleia é a mais humana das personagens de Vidas secas. Desta maneira, os personagens humanos são aproximados a bichos, e a personagem animal é aproximada aos humanos. É extremamente interessante falar isso, e concordo até certo ponto. Realmente, Graciliano Ramos tem a preocupação de mostrar a família “animalizada” pelo ambiente e a cachorra é descrita com sentimentos humanos. Mas em minha leitura, o que encontrei foram personagens humanos muito humanos (afinal, a dureza, a ira, a ignorância, a frustração, também são características humanas). Entendo a aproximação dos humanos com animais no sentido de que lutam para sobreviver, não têm acesso ao mínimo de cultura, lazer, conforto, são subjugados pelo meio ambiente implacável. Mas isso não faz deles menos humanos, internamente. Os conflitos de Fabiano, Vitória e seus filhos são assustadoramente humanos. Digamos que eles são humanos com a parte “bicho” pronunciada pelas condições de vida que enfrentam, e Baleia é um animal com parte “humana” que se manifesta em suas ações e pensamentos (sim, através do narrador conhecemos também um pouco do sentimento e das aspirações da cachorrinha).

O vocabulário da obra é bem fácil de entender (diferente de muitos livros brasileiros considerados “clássicos”, que têm palavras de uso corrente de outra época), apesar das especificidades do sertão (nomes de plantas e animais da caatinga e expressões regionais).

Enfim, é uma história muito bonita, e também traz uma dose de tristeza, pois toca numa realidade difícil de encarar: pobreza, descaso, exploração, injustiça. Mostra uma época, mas mostra principalmente um lugar. Acredito que a modificação da forma de vida em partes do sertão nordestino não foi grande de 1938 para cá, infelizmente. Adoro histórias ambientadas nesse cenário (Guimarães Rosa é um dos meus autores preferidos), e isso me fez gostar ainda mais do livro. Mas acredito que o que mais me atingiu em Vidas secas foi a humanidade demasiada dos personagens – por mais que se fale de sua animalidade.

Recomendo a qualquer pessoa da adolescência (Ensino Médio) em diante.

 + info:
Vidas secas / Graciliano Ramos; posfácio de Hermenegildo Bastos.
– Rio de Janeiro: Record, 2014.
138 páginas.

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2014, Companhia das Letras, Poesia, Resenha

Ligue os pontos: poemas de amor e big bang

Ligue os pontos: poemas de amor e big bang, de Gregório Duvivier

“se eu fosse um faraó do egito antigo
não me faria falta o carnaval do rio
o ipod o iphone o iogurte grego
o mate de galão ou o miojo
de galinha caipira eu viveria feliz
por meses entre múmias e deuses
com cara de cachorro – ou quase:
a única invenção cuja inexistência
me obrigaria a tomar o cianureto
mais em voga das maravilhas do mundo
moderno a única coisa que me faria falta
é você (e talvez quem sabe o ar
condicionado, mas sobretudo você).” (p. 61)

Já comentei aqui que não sou uma super leitora de poesia, a prosa tende a me agradar mais (claro que tem coisas de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa e seus heterônimos, etc., que são inegavelmente maravilhosas).

Gregório Duvivier, autor do Ligue os pontos, é mais conhecido por ser humorista e ator do canal do youtube Porta dos Fundos. Atualmente, é também colunista (brilhante!) do jornal Folha de São Paulo, com textos lúcidos, críticos, bem humorados e inteligentes (um dos textos que costumo recomendar dele é o Xingamento). Uma coisa que não sabia sobre ele é que é formado em Letras. Faz sentido.

Este livro inclusive foi finalista do Prêmio Jabuti (o mais conhecido prêmio literário do país) neste ano de 2014, na categoria poesia, juntamente com veteranos como Adélia Prado (Miserere), e Armando Freitas Filho, (Dever).

OBS.: Só a título de curiosidade, os livros Fim, de Fernanda Torres, e Nu, de botas, de Antonio Prata, também foram finalistas do prêmio (o que ficou melhor colocado em sua categoria, “contos e crônicas”, foi Nu, de botas, com o terceiro lugar). Ambos têm resenhas no blog, é só clicar!

Não me lembro se já tinha lido algum poema dele e foi isso que me abriu interesse para a obra inteira, mas acabei adquirindo o livro. Sem arrependimentos!!!!

Gregório é um cara da minha geração (nasceu em 1986), e portanto consegue traduzir muito do que penso e sinto (creio que quem for do final dos anos 80 e início dos 90 também terá essa impressão – quem não for, entenderá também, mas com um afastamentozinho um pouco maior). Preciso colocar como exemplo o poema “geração bug do milênio”:

“mil novecentos e noventa e oito
anos depois de cristo o cinco meia
nove custava só sessenta e cinco
centavos e às seis passava doug

no canal dois e beakman no jantar
eram seis nuggets pra cada um
de sobremesa horas no icequê
e cento e dez mil resultados para

‘mulheres gostosas’ no altavista
depois sempre sonhar com labirintos
o fluminense os beatles as mulheres

do altavista cair do quinto andar
e acordar com medo que o mundo acabe
antes de eu conseguir beijar alguém” (p. 39)

Ele consegue misturar nossos sentimentos da maneira mais sutil possível: nostalgia, bom humor, melancolia, ansiedade.

Como vocês puderam perceber, a pontuação é bem diferente, como em muitas obras poéticas acontece. Nessa circunstância, foi muito útil eu ter aprendido em algum lugar que, num poema, não pausamos no fim de cada verso, a não ser que a pontuação o peça.

O livro está dividido em dois grandes “temas”: “Cartografia afetiva”, sobre diversos bairros do Rio de Janeiro e suas peculiaridades (e aqueles detalhes em que só poetas prestam atenção) e “Aprender a gostar muito” (poemas de amor). Adorei as duas partes, apesar de não ser a pessoa mais apaixonada pelo Rio de Janeiro no mundo e achar que os poemas de amor tendem a ser bregas. Gregório traduz tudo isso de um jeito não-brega (ou foi brega e eu é que não percebi porque estou apaixonada?) e sensível, de um jeito prático, pegando conversas cotidianas, miudezas de amor, e transformando tudo isso em palavras, a coisa mais linda.

Recomendo para qualquer um, é um livro curtíssimo (dá pra ler em menos de meia hora), levíssimo e belíssimo. Um dos melhores livros que li este ano.

+ info:
Ligue os pontos: poemas de amor e big bang / Gregório Duvivier.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
85 páginas.

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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Ficção, LeYa, Política, Quadrinhos, Resenha

Rei Emir Saad

Rei Emir Saad: o monstro de Zazarov, de Andre Dahmer

Tive a mais agradável surpresa do mundo quando, voltando para casa, passei na caixa de correio para pegar alguma conta que estivesse por ali e encontrei um envelope pardo endereçado a mim. Meu amigo Maurício gentilmente me enviou essa joia que são os quadrinhos de Dahmer. Amei a surpresa, Maurício! Muito obrigada!!!

André Dahmer é conhecido por suas tirinhas dos Malvados, sobre política e cotidiano. Mas o desenhista brasileiro tem um humor extremamente ácido. Lembro-me de que quando me deparava com as tirinhas dos Malvados na Folha de S. Paulo há alguns anos, não gostava muito – ou melhor, não entendia nada.

Aos poucos, fui compreendendo o sarcasmo transbordante do autor, e me divertindo com ele cada vez mais.

O personagem Emir Saad é um ditador sanguinário. Simples assim. Não tem vergonha alguma de cometer atrocidades, genocídios, torturas (como bem mostra a capa do livro!), nem remorso ou peso na consciência. Ele é tão cru que chega a ser absurdo, e isso é hilário (tem uma tirinha em que ele quer legalizar a “cheiração” de calcinhas!!! Hahahaha! – veja abaixo).

O livro conta a história de Emir, desde criança (já com tendências ditatoriais e assassinas), até a velhice, apesar de não seguir propriamente uma cronologia (lembrando que é uma coletânea de tirinhas).

O cuidado editorial com o livro é excelente, material de boa qualidade, fora a estética: colorida, com variação de cores das páginas, diferentes diagramações de tirinhas, verso da capa todo amarelo, orelha do livro cheia de caveirinhas (prolongando a capa)… tirando o conteúdo altamente provocativo (se você for sensível demais) e umas duas tirinhas repetidas, é um livro lindíssimo.

emir_capa e orelha

emir_coração

 André Dahmer aparece naquele documentário curto que eu sempre recomendo aqui no blog (e sempre que tiver a ver, vou recomendar!), O riso dos outros, sobre os limites do humor (a partir de que ponto o humor torna-se ofensa, discriminação, discurso de ódio?). Aparecem também Antonio Prata, Jean Wyllys, Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Fábio Rabin, Fernando Caruso, Laerte Coutinho, entre outros. Você não vai se arrepender de assistir (contém palavrões e conteúdo sexual, ok?).

E é justamente por Emir ser a personificação da atrocidade e da crueldade, enxergamos absurdos muitas vezes reais que ocorrem por aí como se não fossem nada. Emir tem ZERO apreciação pela vida humana (do outro), entra em guerras (muitas delas são guerras pela paz, deixe-se bem claro) apenas para se divertir ou para movimentar a economia, manipula as pessoas com seus discursos e com a mídia, e por aí vai. Nada tão longe da realidade, e é justamente o elemento que assusta. Poderia ser uma simples ficção, mas não é. É a realidade pintada com cores mais fortes, berrantes. A reflexão sobre nossas realidades é inevitável; a arte serve (também) para isso.

É meio incômoda a sensação de ter lido uma tirinha aparentemente absurda dessas em um dia, e no dia seguinte, ler notícias à altura do Bom Emir Saad (é assim que ele é chamado por seus súditos): ditador que quer permanecer no poder mesmo após 27 anos de governo em Burkina Faso; extrema-direita que vai à av. Paulista pedir impeachment e intervenção militar após a reeleição de Dilma Rousseff, retomando tempos ditatoriais (esse vídeo é assustador.).

SUPER recomendado (e dá pra ler em qualquer lugar, a qualquer hora, já que são tirinhas separadas e o livro não é muito grande)!!!

 + info:
Rei Emir Saad: o monstro de Zazarov / André Dahmer.
– São Paulo: LeYa / Barba Negra, 2011.
96 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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