2014, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

O gene egoísta

O gene egoísta, de Richard Dawkins

“O argumento deste livro é que nós, e todos os outros animais, somos máquinas criadas pelos nossos genes. […] nossos genes sobreviveram – em alguns casos, por milhões de anos – num mundo altamente competitivo. Isso nos permite esperar deles algumas qualidades. Sustentarei a ideia de que uma qualidade predominante que se pode esperar de um gene bem-sucedido é o egoísmo implacável. Em geral o egoísmo do gene originará um comportamento individual egoísta. No entanto, tal como veremos, existem circunstâncias especiais em que um gene pode atingir mais efetivamente seus próprios objetivos egoístas cultivando uma forma limitada de altruísmo, que se manifesta no nível do comportamento individual. ‘Especiais’ e ‘limitada’ são palavras importantes na última frase. Por mais que desejemos acreditar no contrário, o amor universal e o bem-estar da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não fazem sentido do ponto de vista evolutivo.” (p. 39)

 Richard Dawkins nasceu em Nairóbi, Quênia, em 1941. É biólogo – mais precisamente, zoólogo – e especializou-se em comportamento animal (etologia). É pesquisador na Universidade de Oxford e um dos ateus mais notórios da atualidade. Defensor da teoria da evolução (inicialmente divulgada por Charles Darwin), Dawkins é grande crítico das teorias criacionistas e do design inteligente, é autor de Deus, um delírio, livro que li há alguns anos e do qual gostei bastante.

Não sei o que aconteceu comigo que me deu uma vontade louca de ler esse livro. Não sou nem bióloga, mas Evolução é uma parte da Biologia que me atrai muito. Evolução também é a nossa história e dos seres viventes do planeta. 🙂

O gene egoísta foi escrito na década de 1970 (publicado em 1976) e é o primeiro livro do autor. Trata da evolução sob um novo prisma: enquanto geralmente olhamos para o tema sob a perspectiva da espécie, Dawkins propõe que observemos a tendência que os genes têm de se perpetuarem, independentemente da sucessão da espécie como um todo. Daí o adjetivo “egoísta” colocado no título da obra. É muito interessante a ideia de que somos máquinas que servem ao armazenamento, transporte e conservação de genes: coloca tudo em perspectiva. Um pouco como a ideia de que somos manifestações arranjadas de maneira única do próprio universo, das estrelas e tudo o mais.

A edição que li contém páginas iniciais introdutórias (prefácios a diversas edições, apresentação, etc.) e está dividido em 13 capítulos. No final, temos as notas (referências), bibliografia atualizada e índice remissivo.

O autor explicita que tinha em mente três tipos de público quando escreveu o livro: o leigo, já que é uma obra que visa a divulgação científica; os especialistas, os quais ele alerta que podem não ficar inteiramente satisfeitos com a obra (já que simplifica alguns conceitos, procura utilizar metáforas ao invés de algumas fórmulas matemáticas a fim de atingir um público mais amplo que apenas o acadêmico); e os estudantes (de Biologia), uma espécie de meio termo entre os leigos e os especialistas. No caso, eu me encaixo na denominação de “leigo”, embora seja um assunto que muito me interesse!

Falarei sobre as partes de que mais gostei (provavelmente a resenha vai ficar looonga!), mas é ÓBVIO que não esgotarei a obra, e muito menos explicarei de maneira tão clara ou correta. São apenas impressões.

O primeiro capítulo, “Por que as pessoas existem”, trata de esclarecer alguns pontos inicias. Por exemplo, define-se o que é egoísmo e o que é altruísmo para o autor, de maneira que ele possa usar esses conceitos para provar sua tese, qual seja, que a seleção natural se dá não no nível dos indivíduos ou das espécies, mas no nível dos genes. Isso implica dizer, a princípio, que, diferentemente do que aprendemos na escola, a reprodução dos indivíduos não tem por objetivo a preservação da espécie, mas sim a preservação dos genes! Isso obviamente gera discussões sobre “determinismo biológico”, o que Dawkins nega veementemente – abrigamos nossos genes e podemos apresentar certas tendências de comportamento, mas não somos controlados por eles. Desenvolvemos a capacidade de aprender, tomar consciência de pensamentos e comportamentos – e, portanto, de modificá-los. É mencionada a (antiga e tão atual) questão da “natureza versus cultura”: qual é predominante na espécie humana? Porém, tal discussão não é aprofundada. O autor inclusive refuta a ideia de que ele defenda ações egoístas na espécie humana: ele os constata por essa teoria, o que não significa que devamos sucumbir a tais comportamentos, mas sim que devemos fazer um certo esforço para aprender / ensinar comportamentos altruístas que, de certa maneira, vão contra nossa natureza.

O segundo capítulo chama-se “Os replicadores” e dedica-se a tentar explicar uma teoria sobre a origem da vida. Segundo Dawkins, outra maneira de referir-se à “sobrevivência do mais apto” seria, num nível molecular, a “sobrevivência do mais estável”. Não só sobrevivência, mas replicação. Ele destaca três aspectos principais que devem ter favorecido alguns tipos de moléculas replicadoras em detrimento de outras: a maior longevidade, a maior velocidade de replicação (“fecundidade”), e a capacidade de reproduzir-se com menos “erros”. Além de tudo isso, o fator “competição” (involuntário num nível químico, nada consciente!) surgiu como algo crucial em dado momento, e as moléculas que de alguma forma conseguiram se proteger, criando barreiras ou invólucros para si, se destacaram e sobreviveram. Provavelmente, foi assim que surgiram as primeiras células; por esse raciocínio, nós seríamos um invólucro altamente complexo, resultado de bilhões de anos de tentativas!

Em “Espirais imortais”, o terceiro capítulo, o autor delimita alguns dos principais termos a fim de ratificar a sua tese: o que é um gene, um pool de genes, o que é alelo (!), crossing-over, etc. Ficou um capítulo mais técnico (logo, mais árido), mas conta com analogias bem bacanas e esclarecedoras. Aqui também alguns aparentes paradoxos são prontamente corrigidos, sendo o principal que os genes são egoístas, mas ao mesmo tempo, cooperativos (trabalham juntos para criar suas respectivas máquinas de sobrevivência – nós!). É muito interessante que coloca-se o gene como uma unidade de sobrevivência longuíssima (através de suas réplicas), da escala de idades geológicas, enquanto nós somos quase “descartáveis” se comparados a eles! (Por favor, não levem essa afirmação a mal; isso não significa que os seres humanos são descartáveis, que vamos sair por aí matando-nos uns aos outros. Obviamente, nós devemos pensar sempre em termos humanos – de espécie ou de indivíduo, que seja – e refletir o que é melhor para nós como sociedade.) Dawkins vai ainda mais fundo em suas contestações genéticas: por que nós não vivemos eternamente (ou seja, por que envelhecemos e morremos)?; por que realizamos crossing-over (por que fazemos sexo)?

O quarto capítulo chama-se “A máquina gênica” e fala principalmente sobre os animais. Afinal, se somos simplesmente invólucros de proteção para os genes, por que desenvolvemos a capacidade para fazer tanta coisa? Aqui, são analisados nossos neurônios e cérebro, nossos sentidos, músculos, etc. Interessantíssimo! E mais uma questão incômoda é colocada: somos controlados por nossos genes 100% do tempo? O autor apresenta uma analogia interessante: a de um programa de computador que consegue inclusive vencer grandes enxadristas humanos. Como isso é possível? O computador tem alguém “por trás” o controlando o tempo todo? Na realidade, o programa não está sendo dominado, mas sim guiado. Ele resulta de regras e diretrizes dadas por um programador (através de linguagem matemática e informática), e não de alguém manipulando-o constantemente. De acordo com essa analogia, o programa de computador somos nós e o programador, os genes. Ou seja, nascemos “programados” para ter certas ações e reações diante de determinadas situações (“instinto”), mas isso não significa que somos marionetes manipulados por cordinhas nas mãos dos genes. Desenvolvemos inclusive maneiras de burlar tal programação: os métodos contraceptivos são um exemplo disso.

No quinto capítulo, “Agressão: a estabilidade e a máquina egoísta”, somos apresentados à teoria dos jogos da matemática, mas aplicada a momentos de enfrentamento intra e interespécies. Padrões de comportamento e estratégias evolutivamente estáveis (EEEs) são a tônica desse momento do livro, em que é necessária uma atenção maior para compreender os conceitos e processos.

Os capítulos seis e sete partem para relações familiares (pais/filhos, irmãos/irmãs). “O parentesco dos genes” fala sobre a relação de proximidade e proteção que estabelece entre parentes (especialmente pais e irmãos bilaterais), aparentemente contrariando a teoria do “gene egoísta”. A explicação para isso seria porque a tendência é que esses parentes próximos partilhem grande parte dos genes (e, portanto, o gene egoísta queira proteger a si mesmo em um outro corpo). Já “Planejamento familiar” investiga se cada indivíduo exerce certo controle de natalidade e porquê isso acontece, do ponto de vista genético.

Ainda permeiam os temas família e conflitos os três capítulos seguintes. Em “O conflito de gerações”, o autor tenta responder se existe alguma razão genética para que uma mãe favoreça uma das crias em detrimento das outras. “A guerra dos sexos” pensa nas questões de corte (“namoro” ou “noivado”), e analisa os interesses contraditórios ou cooperativos de parceiros sexuais. O que cada um tem a ganhar ou perder procriando? E criando seus filhos? (Sim, procriação e criação de filhos demandam um grau de energia e recursos muito grande para os pais – uma mais do que outra -, e fêmeas e machos tendem a investir quantidades diferentes na ninhada.

“Uma mão lava a outra?” analisa a tendência animal de viver em grupo (bandos de pássaros, enxames de insetos, cardumes de peixes, etc.), que é aparentemente um ponto falho da teoria do gene egoísta. Segundo Dawkins, apenas aparentemente. Para isso, utiliza exemplos como aves que emitem gritos de alarme para avisar seus companheiros sobre algum predador, bem como gazelas que pulam muito alto para alertar seu rebanho de algum perigo. E também entra no tema de insetos sociais (abelhas, formigas, cupins), que é infinitamente interessante e ele citará mais em capítulos seguintes.

O décimo primeiro capítulo chama-se “Memes: os novos replicadores”. Sim, esse cara é o criador da palavra “meme” que usamos hoje para essas coisas:

“Memes” são replicadores culturais. Ou seja, são ideias que tendem a ficar na memória e se espalhar, seja por sua “longevidade” (por exemplo, uma sinfonia de Beethoven), seja por sua “fecundidade” (capacidade de se replicar, se espalhar, como esses memes de redes sociais – veja abaixo um meme do youtube, o Harlem Shake), seja pela fidelidade de suas cópias.

Ainda sobre o capítulo dos memes, coisas muito bonitas são ditas – transcreverei um trecho que me chamaram a atenção especialmente:

“Quando morremos, há duas coisas que podemos deixar para trás: os genes e os memes. Fomos construídos como máquinas genéticas, criadas para transmitir nossos genes. Porém, esse nosso aspecto será esquecido em três gerações. O filho do leitor ou mesmo seu neto poderão ter certa semelhança com ele, talvez nos traços fisionômicos, no talento musical ou na cor do cabelo. Mas, a cada geração que passa, a contribuição dos seus genes é reduzida pela metade. Não leva muito tempo até que ela atinja proporções significantes. Nossos genes podem ser imortais, entretanto a coleção de genes que constitui uma pessoa qualquer está condenada a desaparecer. […] Não devemos buscar a imortalidade na reprodução.
No entanto, se contribuirmos para o patrimônio cultural do mundo, ou seja, se tivermos uma boa ideia, compusermos uma canção, inventarmos uma vela de ignição, escrevermos um poema, pode ser que a nossa contribuição sobreviva, intacta, muito depois que os nossos genes já tiverem se dissolvido no
pool comum de genes. Pode ser que Sócrates tenha um ou dois genes vivos no mundo de hoje, mas, como observou G. C. Williams, que interesse isso tem? Em contrapartida, os complexos de memes de Sócrates, Leonardo da Vinci, Copérnico e Marconi continuam em pleno vigor.” (p. 340-341)

No penúltimo capítulo, “Os bons rapazes terminam em primeiro”, o autor analisa a afirmação corrente de que “os bons rapazes terminam em último”, como se os trapaceiros se dessem bem com mais frequência que os honestos. Para refutar tal afirmação, ele se utiliza mais uma vez da Teoria dos Jogos, mais precisamente do “Dilema do Prisioneiro” (é muito cheio de detalhes para explicar aqui, mas perfeitamente compreensível quando colocado de maneira clara), e chega à conclusão de que estratégias mais “rentáveis” tendem a ser as mais “bondosas” e cooperativas – embora essas estratégias não sejam as mais rentáveis em qualquer circunstância.

E, finalmente, em “O longo alcance do gene”, ele defende a ideia que será explorada bem mais a fundo em seu outro livro, The extended fenotype (“O fenótipo estendido”). Tal ideia consiste na noção de que os genes se traduzem em fenótipos (ou seja, na aparência de um indivíduo), mas não só. O fenótipo pode ser estendido para outros indivíduos (através de comportamentos “pré-programados” pelos genes) e inclusive para objetos e cenários distantes do indivíduo. Ou seja, nas palavras do próprio autor:

“os replicadores [genes] sobrevivem, não apenas em virtude das suas propriedades intrínsecas, mas também de suas consequências sobre o mundo, as quais podem ser bastante indiretas. Tudo o que é necessário é que tais consequências, por mais tortuosas e indiretas que sejam, terminem por se refletir no replicador e afetem o seu sucesso na geração de cópias de si mesmo.” (p.439-440)

Os argumentos de Dawkins são extremamente bem construídos – quando você pensa que encontrou uma brecha, ele já a reconhece e refuta ou esclarece. A contra-argumentação também é muito bem-feita. As notas de rodapé (no livro, são notas de fim) são interessantes e esclarecedoras; em geral, servem para elucidar pontos polêmicos ou mal interpretados do texto. Inclusive, através dessas notas, podemos tomar contato com algumas discussões do mundo acadêmico sobre determinado assunto – e entendê-las, mesmo que superficialmente. O autor consegue ser didático em seus exemplos, usando metáforas ou comparações que tornam a teoria muito mais palpável para o público leigo.

Apesar de pesado em alguns pontos (às vezes linguagem mais técnica, às vezes assunto muito específico), Dawkins equilibra esses momentos com maestria através de exemplos cristalinos e nos brinda com algumas pérolas filosóficas de vez em quando. Gostei muitíssimo do livro, e recomendo-o a quem se interessar pelo assunto. É um daqueles que nos “abre a cabeça” a respeito de concepções muito arraigadas em nossas mentes, o que é sempre bom. Obras de divulgação científica como essa e Bilhões e bilhões (Carl Sagan) valem a pena serem lidas.

 

 + info:
O gene egoísta / Richard Dawkins; tradução de Rejane Rubino.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
540páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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7 comentários sobre “O gene egoísta

  1. Gosto muito de genética e adoro ler a respeito.. Para um ateu convicto ela é um argumento infalível. Mas para mim ainda existe muito mais entre o “céu” e a terra que a nossa vã genética possa explicar…Vou ler com certeza!!
    Mylene Ribeiro.

  2. Alcione Inácio sotele disse:

    Parece com o que acredito. Gostaria de entender tudo de maneira inequívoca. Mas eu chego lá. Gostei e recomendo. Vou ler de novo. Obrigado.

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