2014, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Alta fidelidade

Alta fidelidade, de Nick Hornby

 “Algumas das minhas canções favoritas: ‘Only Love Can Break Your Heart’ , do Neil Young; ‘Last Night I Dreamed That Somebody Loved Me’, dos Smiths; ‘Call Me’, da Aretha Franklin; ‘I Don´t Want To Talk About It’, qualquer versão. E tem também ‘Love Hurts’ e ‘When Love Breaks Down’ e ‘How Can You Mend A Broken Heart’ e ‘The Speed Of The Sound Of Loneliness’ e ‘She´s Gone’ e ‘I Just Don´t Know What To Do With Myself’ e… Algumas dessas músicas eu ouvi, em média, uma vez por semana (trezentas vezes no primeiro mês e, depois, de vez em quando), e isso desde os meus dezesseis ou dezenove ou vinte e um anos. Como é que uma coisa dessas não deixaria marcas? Como é que isso não acabaria transformando o cara naquele tipo de pessoa suscetível a se quebrar em pedacinhos quando o primeiro amor não dá certo? O que vem antes, a música ou o sofrimento? Eu ouvia música porque sofria? Ou sofria porque ouvia música? Será que aqueles discos todos é que me deixavam melancólico?
As pessoas se preocupam que as crianças brinquem com armas e que os adolescentes joguem video games agressivos; assusta que possam ser dominados por um tipo de cultura da violência. Mas ninguém se incomoda que esses jovens ouçam milhares – literalmente milhares – de canções sobre corações partidos e rejeição e dor e sofrimento e perda. As pessoas mais infelizes que conheço, em termos românticos, são as que mais curtem música pop; e não sei se foi a música pop que causou o sofrimento, mas o certo é que essas pessoas já escutam canções tristes há mais tempo do que vivem suas vidas infelizes.” (p. 30)

 

O protagonista da história de Alta fidelidade, Rob, inicia a narrativa fazendo uma lista dos cinco mais impactantes rompimentos de namoro de sua vida. Faz isso pois acaba de passar por mais um rompimento, desta vez com Laura. O casal já morava junto, mas ela decide ir embora sem que Rob entenda direito o porquê, e também sem ligar muito para isso (no início).

Rob é dono de uma loja de discos (vinis, CDs, fitas, etc. – a história se passa no início dos anos 90, com direito a videocassetes, calças legging fluorescentes, secretárias eletrônicas e correspondência por carta) em Londres, e a mania de fazer listas das coisas, como dos top 5 rompimentos mais impactantes, vem de um funcionário dele, Barry. Barry é um brutamontes, gosta de provocar as pessoas – o que inclui seu chefe Rob e seu colega de trabalho Dick. Já Dick, por sua vez, é tímido e paciente. Nunca revida as grosserias de Barry. Os três conhecem bastante música inglesa, cada um com um gosto um pouco diferente do outro.

Voltando ao tal do rompimento do namoro com Laura, o protagonista-narrador conta um pouco de suas sensações ao longo das semanas que se passam desde que Laura foi embora. A lista de top five términos de namoro foi feita no calor do momento, logo que a namorada sai de casa e Rob não inclui Laura, reiterando o tempo todo que ela não foi tão importante assim na vida dele quanto as outras, que deixaram marcas profundas.

No início, ele se sente bem, livre, estando solteiro novamente. Aos poucos, vai percebendo que é um cara extremamente mediano em tudo (exceto no gosto por música e filmes, este é acima da média): não é rico nem pobre, não é bonito nem feio, gordo nem magro, alto nem baixo… mas é entediante em seus relacionamentos (embora ele ache que o caminho natural dos relacionamentos, cair no marasmo), e ele vai percebendo isso ao analisar sua trajetória amorosa. Esse trecho parece resumir bem a autoimagem de Rob:

“A diferença entre essas pessoas e eu é que elas terminaram a faculdade e eu não (ninguém ali tinha terminado com a Charlie, só eu); como consequência, elas têm empregos bacanas e eu uma porcaria, são ricos e eu pobre, são autoconfiantes e eu um cagalhão, não fumam e eu fumo, têm opiniões diferentes e eu faço listas. Tenho alguma condição de conversar com essa gente sobre o trecho internacional que causa o pior jet lag? Não. Esse pessoal é capaz de me dizer qual era a formação original dos Wailers? Não. Provavelmente não saberiam nem o nome do vocalista.” (p. 191)

Além disso, de vez em quando soa arrogante e muito lamentoso – ou seja, enche o saco. Além de tudo, faz questão de reiterar o tempo todo que tem 35 anos (como se fosse o cara mais velho do mundo).

Ele sai com os colegas de trabalho para pubs, fica com uma moça que conhece, e se revela um tanto quando obcecado (ok, não no nível O grande Gatsby) por Laura e não para de especular se ela está ficando com alguém, se esse outro alguém é melhor que ele na cama, etc. De maneira geral, começa a se achar um loser completo ao ver que até seus pais (os quais, segundo sua descrição são as pessoas mais mornas da face da Terra) têm uma vida de certa maneira agitada. Resolve encontrar-se com as ex-namoradas (as top 5 términos) para tentar entender o que deu errado.

A partir do terço final, o livro até que toma um rumo diferente do que eu tinha imaginado, mas nada que salve a história.

Minhas impressões são que achei um livro no nível do protagonista: entediante. Existem um mooooooonte de referências a músicas e filmes, mas a maioria, nunca ouvi falar (o que contribuiu para minha sensação de indiferença. Na verdade, mais do que isso, achei um tantinho irritante esse monte de menções. Mas não posso negar que essa tonelada de citações é necessária à construção da personalidade do personagem).

É uma leitura fácil, mas não me empolgou. Entretenimento puro e simples, e eu costumo preferir livros que tragam algo a mais (seja uma linguagem diferente, um bom final, um detalhe impressionante, um mistério intrigante, um enredo bem montado etc.). Recomendo se você está a fim de ler algo leve (porém um pouco deprimente, pois fala muito sobre terminar relacionamentos e “que rumo a minha vida tomou?!”, e um pouquinho engraçadinho – acho que o duplo diminutivo deu conta do recado que eu queria passar.).

 

 + info:
Alta fidelidade / Nick Hornby; tradução Christian Schwartz.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
306 páginas.

classificação: 2 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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8 comentários sobre “Alta fidelidade

    • Oi, Nathy!!!
      Sinto muito pelo término de namoro, sempre é chato né…
      Quanto ao livro, estou achando que sou uma das únicas pessoas do mundo que não gostou, porque só vejo comentários positivos! Hahahaha! Talvez vc goste sim e eu é que esteja sendo chata…
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  1. A princípio achei interessante. Não sei como se desenvolve p/ a partir do terço final melhorar mas não “salvar” o livro. ,Conheço sua exigência com relação a finais e até mesmo “pós finais”, ou seja, as sensações a longo prazo,que os livros deixam…já vi que este é um livro p/ não ficar na memória.. Mas vou ler qualquer hora.
    Mylene

  2. Tatiana disse:

    Gostei da sinceridade, porque mostra que vc tem uma opinião bem formada. Você gosta de um estilo de livro, mas tb não deixa de ler outros (o que eu tenho muuuita dificuldade). Não vai entrar pra minha fila de livros, porque ela tá grande e esse não me animou muito.

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