2014, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

O grande Gatsby

O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

“A silhueta de um gato em movimento cortou o luar e, ao virar-me para vê-lo, percebi que não estava sozinho – a uns quinze metros dali, uma figura emergiu da sombra da mansão vizinha e ficou de pé com as mãos nos bolsos, observando a poeira prateada das estrelas. Algo em seus movimentos calculados e na postura firme de seus pés sobre a grama me revelou que era o sr. Gatsby em pessoa, tentando determinar que porção do nosso céu local lhe pertencia.
Decidi chamá-lo. A srta. Baker havia falado a seu respeito no jantar, e isso bastaria como introdução. Mas não o fiz, pois de súbito me pareceu que estava feliz sozinho – estendeu os braços em direção à água de um jeito curioso e, mesmo à distância, eu podia jurar que estava tremendo. Sem perceber, olhei na direção do mar – e não vi nada além de uma luz verde solitária, minúscula e longínqua, que decerto marcava a extremidade de um cais. Quando procurei Gatsby de novo, ele já havia desaparecido e eu estava de novo sozinho na escuridão turbulenta. ” (p. 85)

Fitzgerald [1896-1940]  é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. Segundo a Wikipedia, “Suas histórias, reunidas sob o título Contos da Era do Jazz, refletiam o estado de espírito da época. Foi um dos escritores da chamada ‘geração perdida’ da literatura americana”. A obra O grande Gatsby foi publicada pela primeira vez em 1925.

A história se passa nos Estados Unidos no ano de 1922 – mais precisamente, conta sobre o verão desse ano na cidade de Long Island (NY). O narrador Nick Carraway é um rapaz provindo de uma família do Meio-Oeste americano e que vai viver no estado de Nova Iorque para estudar finanças e investimentos. Acaba alugando uma modesta casa vizinha à mansão luxuosíssima de um homem conhecido e enigmático chamado Gatsby.

Nos primeiros capítulos do livro, Gatsby é apenas mencionado por outros personagens (sempre referido como alguém riquíssimo, importante, influente) e aparece envolto numa aura de mistério: somente vemos sua silhueta, que repentinamente desaparece; é uma figura cercada de boatos (“Gatsby matou um homem”, “Gatsby foi espião alemão na guerra”). Em seguida, somos introduzidos ao mundo mágico desse personagem, um mundo de festas fartas e iluminadas, regadas a coquetéis, champanhe e frutas cítricas, com direito a fins-de-semana na mansão, acesso a esqui aquático, orquestras, cortes de cabelo extravagantes, jardins de delícias. Acho que deu para entender. É aí que o narrador conhece Gatsby, mas obviamente não o desvenda completamente (aliás, isso nunca acontece). Fica intrigado com sua fortuna e origens.

(PARÁGRAFO-SPOILER!!! Como este é um livro considerado clássico e ninguém conseguiu me explicar a história satisfatoriamente, acho interessante contar alguns pontos importantes do enredo.) Aos poucos, nosso narrador descobre que Gatsby faz parte do passado amoroso de sua prima, Daisy – e agora ela é casada. “Faz parte” é um jeito gentil de dizer que ele é obcecado por ela e pelo amor que não pôde se transformar em casamento. Jay Gatsby quer impressioná-la com sua riqueza e, apesar de mostrar-se um homem inseguro, reconquista a moça. O marido-brutamontes de Daisy, Tom, também tem uma amante, e ele descobre o caso de sua esposa com Gatsby, além das falcatruas do ricaço. No clímax da história, um acidente envolvendo a todos acaba por matar atropelada a amante de Tom e, a partir daí, mais coisas acontecem (agora, se eu contar, será spoiler do desfecho).

Lembrando que em 1922 a Europa recuperava-se da Grande Guerra (1914-1918). Os Estados Unidos, apesar de terem participado ativamente da guerra, saem dela relativamente bem. Isso fez com que a década de 1920 fosse um período áureo na economia norte-americana, com um nível de prosperidade sem precedentes – período que precedeu a grande depressão que iniciou-se com a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929. Tal esplendor refletiu-se nos seus habitantes, e esse romance foca na elite gastadora e fútil, despreocupada com gastos supérfluos e interessada nos prazeres que o dinheiro podia comprar, personificada em Gatsby. Tal superficialidade deixa o narrador claramente incomodado. Por isso, diz-se que este livro de Fitzgerald em especial é uma crítica ao “sonho americano”, pois retrata um materialismo sem limites dessa classe no período e também a imoralidade da elite norte-americana dos anos 20 (traições, casamentos de fachada, golpes e trapaças). Além de toda essa prosperidade leviana, o livro trata também de decadência e solidão.

A edição que li, da Penguin Companhia das Letras, veio com uma página solta. Essa edição conta com uma introdução de Tony Tanner analisando a obra de Fitzgerald. Como havia um aviso de “revelações sobre o enredo”, deixei para ler no final, e tal introdução aponta caminhos bem interessantes dentro de O grande Gatsby (processos de criação de personagens, amadurecimento de ideias do autor, possibilidades de interpretações).

O texto é bastante leve e ágil de ser lido e o livro é relativamente curto – portanto, trata-se de uma leitura rápida e tranquila. Acho que já mencionei em algum post do blog, mas falarei novamente: acredito que a língua inglesa é muito mais direta que a portuguesa e a espanhola. Me dá a impressão de que livros em português e espanhol tendem a ser mais “poéticos” por natureza do idioma, enquanto que aqueles em inglês são  mais objetivos. Segundo esse critério, geralmente prefiro os nossos.

Mas, como um todo, é um livro interessante. Para mim, pesa mais para o lado do entretenimento que o da reflexão. Apesar de ser uma crítica às banalidades dos ricaços, não me impressionou profundamente justamente por sua “leveza”. Ou talvez seja esse o traço genial de Fitzgerald: conseguiu infundir em sua obra a questão da superficialidade não só no conteúdo, mas também na forma, no tom e na linguagem que tanto o incomodavam na elite norte-americana dos anos 1920. Recomenda-se para quem quer ler um clássico da literatura que não é nada pesado.

(O final é muito bom!)

A título de curiosidade, neste site tem algumas capas de edições diversas de The great Gatsby: algumas clássicas, outras mais estilizadas, mas todas revelando o “espírito” da história.

 + info:
O grande Gatsby / F. Scott Fitzgerald; tradução Vanessa Barbara; introdução e notas Tony Tanner.
– São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
249 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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9 comentários sobre “O grande Gatsby

  1. Priscila disse:

    Nati, ótima resenha! Tive que ler esse livro na faculdade, mas, como eu estava no último semestre de licenciatura e com um TGI para entregar, não li (some um pouco de moleza de minha parte :P)! Mesmo assim, lembro-me da questão da futilidade e da superficialidade destacadas pela professora de literatura.
    E concordo totalmente com a observação de que os livros traduzidos da língua inglesa são mais objetivos, sempre pensei isso!

    Amiga, morro de orgulho de você!!!

    Beijão!!!
    Pri

  2. Não li, vi os filmes. Sou fã do primeiro, não só pelos atores protagonistas, dois ícones do cinema norte americanos e que estão muito bem no filme. Mas também, provavelmente, porque ainda não sabia da estória e seu final, que nos deixa um pouco melancólicos, mas que foi perfeito. O segundo é também bastante primoroso e Leonardo di Caprio interpreta muito bem Gatsby, a atriz já não é tão Mia. Bom, saber todo o desenrolar e final deve pesar. Vou ler, e ver de novo, porque apesar da futilidade todo aquele “LUXO” encanta aos olhos!,

  3. Nati, tô pass-sa-da!!! Não estava vendo que vc estava postando, o que é estranho, pois faço questão de acompanhar os posts dos amigos… :/ enfim, qdo vc disse que estava postando td semana e vim averiguar ( aloka kkk). Eu comprei O Grande Gatsby ano passado, acho, foi bem na época do lançamento do filme com o Di Caprio; gostei mais de livro, uma edição baratinha comprada no sebo da faculdade, e acho que é justamente em ser simples que ele se torna denso. Enfim, vou comentar os outros dois posts mais recentes que já vi aqui, é que hj tô ultracansada depois de ter dado aula o dia td… beijão!!!

    • Oi, Karla!!!
      Não tem problema, sei que a vida anda corrida! Mas é sempre bom receber seus comentários!!!!!! 😀
      Agora, já deu tempo de eu ver o filme também, e gostei bastante! Achei muito fiel à história do livro e, na minha opinião, o Leonardo Di Caprio encarnou o Gatsby com maestria! Suas reações e “estado de espírito” (calma, insegurança, obsessão) foram iguaizinhos ao que eu imaginei no livro! Sem contar que AMEI a trilha sonora, toda atual (porém, “maquiada”)!
      Beijos!

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