2014, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

O gene egoísta

O gene egoísta, de Richard Dawkins

“O argumento deste livro é que nós, e todos os outros animais, somos máquinas criadas pelos nossos genes. […] nossos genes sobreviveram – em alguns casos, por milhões de anos – num mundo altamente competitivo. Isso nos permite esperar deles algumas qualidades. Sustentarei a ideia de que uma qualidade predominante que se pode esperar de um gene bem-sucedido é o egoísmo implacável. Em geral o egoísmo do gene originará um comportamento individual egoísta. No entanto, tal como veremos, existem circunstâncias especiais em que um gene pode atingir mais efetivamente seus próprios objetivos egoístas cultivando uma forma limitada de altruísmo, que se manifesta no nível do comportamento individual. ‘Especiais’ e ‘limitada’ são palavras importantes na última frase. Por mais que desejemos acreditar no contrário, o amor universal e o bem-estar da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não fazem sentido do ponto de vista evolutivo.” (p. 39)

 Richard Dawkins nasceu em Nairóbi, Quênia, em 1941. É biólogo – mais precisamente, zoólogo – e especializou-se em comportamento animal (etologia). É pesquisador na Universidade de Oxford e um dos ateus mais notórios da atualidade. Defensor da teoria da evolução (inicialmente divulgada por Charles Darwin), Dawkins é grande crítico das teorias criacionistas e do design inteligente, é autor de Deus, um delírio, livro que li há alguns anos e do qual gostei bastante.

Não sei o que aconteceu comigo que me deu uma vontade louca de ler esse livro. Não sou nem bióloga, mas Evolução é uma parte da Biologia que me atrai muito. Evolução também é a nossa história e dos seres viventes do planeta. 🙂

O gene egoísta foi escrito na década de 1970 (publicado em 1976) e é o primeiro livro do autor. Trata da evolução sob um novo prisma: enquanto geralmente olhamos para o tema sob a perspectiva da espécie, Dawkins propõe que observemos a tendência que os genes têm de se perpetuarem, independentemente da sucessão da espécie como um todo. Daí o adjetivo “egoísta” colocado no título da obra. É muito interessante a ideia de que somos máquinas que servem ao armazenamento, transporte e conservação de genes: coloca tudo em perspectiva. Um pouco como a ideia de que somos manifestações arranjadas de maneira única do próprio universo, das estrelas e tudo o mais.

A edição que li contém páginas iniciais introdutórias (prefácios a diversas edições, apresentação, etc.) e está dividido em 13 capítulos. No final, temos as notas (referências), bibliografia atualizada e índice remissivo.

O autor explicita que tinha em mente três tipos de público quando escreveu o livro: o leigo, já que é uma obra que visa a divulgação científica; os especialistas, os quais ele alerta que podem não ficar inteiramente satisfeitos com a obra (já que simplifica alguns conceitos, procura utilizar metáforas ao invés de algumas fórmulas matemáticas a fim de atingir um público mais amplo que apenas o acadêmico); e os estudantes (de Biologia), uma espécie de meio termo entre os leigos e os especialistas. No caso, eu me encaixo na denominação de “leigo”, embora seja um assunto que muito me interesse!

Falarei sobre as partes de que mais gostei (provavelmente a resenha vai ficar looonga!), mas é ÓBVIO que não esgotarei a obra, e muito menos explicarei de maneira tão clara ou correta. São apenas impressões.

O primeiro capítulo, “Por que as pessoas existem”, trata de esclarecer alguns pontos inicias. Por exemplo, define-se o que é egoísmo e o que é altruísmo para o autor, de maneira que ele possa usar esses conceitos para provar sua tese, qual seja, que a seleção natural se dá não no nível dos indivíduos ou das espécies, mas no nível dos genes. Isso implica dizer, a princípio, que, diferentemente do que aprendemos na escola, a reprodução dos indivíduos não tem por objetivo a preservação da espécie, mas sim a preservação dos genes! Isso obviamente gera discussões sobre “determinismo biológico”, o que Dawkins nega veementemente – abrigamos nossos genes e podemos apresentar certas tendências de comportamento, mas não somos controlados por eles. Desenvolvemos a capacidade de aprender, tomar consciência de pensamentos e comportamentos – e, portanto, de modificá-los. É mencionada a (antiga e tão atual) questão da “natureza versus cultura”: qual é predominante na espécie humana? Porém, tal discussão não é aprofundada. O autor inclusive refuta a ideia de que ele defenda ações egoístas na espécie humana: ele os constata por essa teoria, o que não significa que devamos sucumbir a tais comportamentos, mas sim que devemos fazer um certo esforço para aprender / ensinar comportamentos altruístas que, de certa maneira, vão contra nossa natureza.

O segundo capítulo chama-se “Os replicadores” e dedica-se a tentar explicar uma teoria sobre a origem da vida. Segundo Dawkins, outra maneira de referir-se à “sobrevivência do mais apto” seria, num nível molecular, a “sobrevivência do mais estável”. Não só sobrevivência, mas replicação. Ele destaca três aspectos principais que devem ter favorecido alguns tipos de moléculas replicadoras em detrimento de outras: a maior longevidade, a maior velocidade de replicação (“fecundidade”), e a capacidade de reproduzir-se com menos “erros”. Além de tudo isso, o fator “competição” (involuntário num nível químico, nada consciente!) surgiu como algo crucial em dado momento, e as moléculas que de alguma forma conseguiram se proteger, criando barreiras ou invólucros para si, se destacaram e sobreviveram. Provavelmente, foi assim que surgiram as primeiras células; por esse raciocínio, nós seríamos um invólucro altamente complexo, resultado de bilhões de anos de tentativas!

Em “Espirais imortais”, o terceiro capítulo, o autor delimita alguns dos principais termos a fim de ratificar a sua tese: o que é um gene, um pool de genes, o que é alelo (!), crossing-over, etc. Ficou um capítulo mais técnico (logo, mais árido), mas conta com analogias bem bacanas e esclarecedoras. Aqui também alguns aparentes paradoxos são prontamente corrigidos, sendo o principal que os genes são egoístas, mas ao mesmo tempo, cooperativos (trabalham juntos para criar suas respectivas máquinas de sobrevivência – nós!). É muito interessante que coloca-se o gene como uma unidade de sobrevivência longuíssima (através de suas réplicas), da escala de idades geológicas, enquanto nós somos quase “descartáveis” se comparados a eles! (Por favor, não levem essa afirmação a mal; isso não significa que os seres humanos são descartáveis, que vamos sair por aí matando-nos uns aos outros. Obviamente, nós devemos pensar sempre em termos humanos – de espécie ou de indivíduo, que seja – e refletir o que é melhor para nós como sociedade.) Dawkins vai ainda mais fundo em suas contestações genéticas: por que nós não vivemos eternamente (ou seja, por que envelhecemos e morremos)?; por que realizamos crossing-over (por que fazemos sexo)?

O quarto capítulo chama-se “A máquina gênica” e fala principalmente sobre os animais. Afinal, se somos simplesmente invólucros de proteção para os genes, por que desenvolvemos a capacidade para fazer tanta coisa? Aqui, são analisados nossos neurônios e cérebro, nossos sentidos, músculos, etc. Interessantíssimo! E mais uma questão incômoda é colocada: somos controlados por nossos genes 100% do tempo? O autor apresenta uma analogia interessante: a de um programa de computador que consegue inclusive vencer grandes enxadristas humanos. Como isso é possível? O computador tem alguém “por trás” o controlando o tempo todo? Na realidade, o programa não está sendo dominado, mas sim guiado. Ele resulta de regras e diretrizes dadas por um programador (através de linguagem matemática e informática), e não de alguém manipulando-o constantemente. De acordo com essa analogia, o programa de computador somos nós e o programador, os genes. Ou seja, nascemos “programados” para ter certas ações e reações diante de determinadas situações (“instinto”), mas isso não significa que somos marionetes manipulados por cordinhas nas mãos dos genes. Desenvolvemos inclusive maneiras de burlar tal programação: os métodos contraceptivos são um exemplo disso.

No quinto capítulo, “Agressão: a estabilidade e a máquina egoísta”, somos apresentados à teoria dos jogos da matemática, mas aplicada a momentos de enfrentamento intra e interespécies. Padrões de comportamento e estratégias evolutivamente estáveis (EEEs) são a tônica desse momento do livro, em que é necessária uma atenção maior para compreender os conceitos e processos.

Os capítulos seis e sete partem para relações familiares (pais/filhos, irmãos/irmãs). “O parentesco dos genes” fala sobre a relação de proximidade e proteção que estabelece entre parentes (especialmente pais e irmãos bilaterais), aparentemente contrariando a teoria do “gene egoísta”. A explicação para isso seria porque a tendência é que esses parentes próximos partilhem grande parte dos genes (e, portanto, o gene egoísta queira proteger a si mesmo em um outro corpo). Já “Planejamento familiar” investiga se cada indivíduo exerce certo controle de natalidade e porquê isso acontece, do ponto de vista genético.

Ainda permeiam os temas família e conflitos os três capítulos seguintes. Em “O conflito de gerações”, o autor tenta responder se existe alguma razão genética para que uma mãe favoreça uma das crias em detrimento das outras. “A guerra dos sexos” pensa nas questões de corte (“namoro” ou “noivado”), e analisa os interesses contraditórios ou cooperativos de parceiros sexuais. O que cada um tem a ganhar ou perder procriando? E criando seus filhos? (Sim, procriação e criação de filhos demandam um grau de energia e recursos muito grande para os pais – uma mais do que outra -, e fêmeas e machos tendem a investir quantidades diferentes na ninhada.

“Uma mão lava a outra?” analisa a tendência animal de viver em grupo (bandos de pássaros, enxames de insetos, cardumes de peixes, etc.), que é aparentemente um ponto falho da teoria do gene egoísta. Segundo Dawkins, apenas aparentemente. Para isso, utiliza exemplos como aves que emitem gritos de alarme para avisar seus companheiros sobre algum predador, bem como gazelas que pulam muito alto para alertar seu rebanho de algum perigo. E também entra no tema de insetos sociais (abelhas, formigas, cupins), que é infinitamente interessante e ele citará mais em capítulos seguintes.

O décimo primeiro capítulo chama-se “Memes: os novos replicadores”. Sim, esse cara é o criador da palavra “meme” que usamos hoje para essas coisas:

“Memes” são replicadores culturais. Ou seja, são ideias que tendem a ficar na memória e se espalhar, seja por sua “longevidade” (por exemplo, uma sinfonia de Beethoven), seja por sua “fecundidade” (capacidade de se replicar, se espalhar, como esses memes de redes sociais – veja abaixo um meme do youtube, o Harlem Shake), seja pela fidelidade de suas cópias.

Ainda sobre o capítulo dos memes, coisas muito bonitas são ditas – transcreverei um trecho que me chamaram a atenção especialmente:

“Quando morremos, há duas coisas que podemos deixar para trás: os genes e os memes. Fomos construídos como máquinas genéticas, criadas para transmitir nossos genes. Porém, esse nosso aspecto será esquecido em três gerações. O filho do leitor ou mesmo seu neto poderão ter certa semelhança com ele, talvez nos traços fisionômicos, no talento musical ou na cor do cabelo. Mas, a cada geração que passa, a contribuição dos seus genes é reduzida pela metade. Não leva muito tempo até que ela atinja proporções significantes. Nossos genes podem ser imortais, entretanto a coleção de genes que constitui uma pessoa qualquer está condenada a desaparecer. […] Não devemos buscar a imortalidade na reprodução.
No entanto, se contribuirmos para o patrimônio cultural do mundo, ou seja, se tivermos uma boa ideia, compusermos uma canção, inventarmos uma vela de ignição, escrevermos um poema, pode ser que a nossa contribuição sobreviva, intacta, muito depois que os nossos genes já tiverem se dissolvido no
pool comum de genes. Pode ser que Sócrates tenha um ou dois genes vivos no mundo de hoje, mas, como observou G. C. Williams, que interesse isso tem? Em contrapartida, os complexos de memes de Sócrates, Leonardo da Vinci, Copérnico e Marconi continuam em pleno vigor.” (p. 340-341)

No penúltimo capítulo, “Os bons rapazes terminam em primeiro”, o autor analisa a afirmação corrente de que “os bons rapazes terminam em último”, como se os trapaceiros se dessem bem com mais frequência que os honestos. Para refutar tal afirmação, ele se utiliza mais uma vez da Teoria dos Jogos, mais precisamente do “Dilema do Prisioneiro” (é muito cheio de detalhes para explicar aqui, mas perfeitamente compreensível quando colocado de maneira clara), e chega à conclusão de que estratégias mais “rentáveis” tendem a ser as mais “bondosas” e cooperativas – embora essas estratégias não sejam as mais rentáveis em qualquer circunstância.

E, finalmente, em “O longo alcance do gene”, ele defende a ideia que será explorada bem mais a fundo em seu outro livro, The extended fenotype (“O fenótipo estendido”). Tal ideia consiste na noção de que os genes se traduzem em fenótipos (ou seja, na aparência de um indivíduo), mas não só. O fenótipo pode ser estendido para outros indivíduos (através de comportamentos “pré-programados” pelos genes) e inclusive para objetos e cenários distantes do indivíduo. Ou seja, nas palavras do próprio autor:

“os replicadores [genes] sobrevivem, não apenas em virtude das suas propriedades intrínsecas, mas também de suas consequências sobre o mundo, as quais podem ser bastante indiretas. Tudo o que é necessário é que tais consequências, por mais tortuosas e indiretas que sejam, terminem por se refletir no replicador e afetem o seu sucesso na geração de cópias de si mesmo.” (p.439-440)

Os argumentos de Dawkins são extremamente bem construídos – quando você pensa que encontrou uma brecha, ele já a reconhece e refuta ou esclarece. A contra-argumentação também é muito bem-feita. As notas de rodapé (no livro, são notas de fim) são interessantes e esclarecedoras; em geral, servem para elucidar pontos polêmicos ou mal interpretados do texto. Inclusive, através dessas notas, podemos tomar contato com algumas discussões do mundo acadêmico sobre determinado assunto – e entendê-las, mesmo que superficialmente. O autor consegue ser didático em seus exemplos, usando metáforas ou comparações que tornam a teoria muito mais palpável para o público leigo.

Apesar de pesado em alguns pontos (às vezes linguagem mais técnica, às vezes assunto muito específico), Dawkins equilibra esses momentos com maestria através de exemplos cristalinos e nos brinda com algumas pérolas filosóficas de vez em quando. Gostei muitíssimo do livro, e recomendo-o a quem se interessar pelo assunto. É um daqueles que nos “abre a cabeça” a respeito de concepções muito arraigadas em nossas mentes, o que é sempre bom. Obras de divulgação científica como essa e Bilhões e bilhões (Carl Sagan) valem a pena serem lidas.

 

 + info:
O gene egoísta / Richard Dawkins; tradução de Rejane Rubino.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
540páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2014, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Alta fidelidade

Alta fidelidade, de Nick Hornby

 “Algumas das minhas canções favoritas: ‘Only Love Can Break Your Heart’ , do Neil Young; ‘Last Night I Dreamed That Somebody Loved Me’, dos Smiths; ‘Call Me’, da Aretha Franklin; ‘I Don´t Want To Talk About It’, qualquer versão. E tem também ‘Love Hurts’ e ‘When Love Breaks Down’ e ‘How Can You Mend A Broken Heart’ e ‘The Speed Of The Sound Of Loneliness’ e ‘She´s Gone’ e ‘I Just Don´t Know What To Do With Myself’ e… Algumas dessas músicas eu ouvi, em média, uma vez por semana (trezentas vezes no primeiro mês e, depois, de vez em quando), e isso desde os meus dezesseis ou dezenove ou vinte e um anos. Como é que uma coisa dessas não deixaria marcas? Como é que isso não acabaria transformando o cara naquele tipo de pessoa suscetível a se quebrar em pedacinhos quando o primeiro amor não dá certo? O que vem antes, a música ou o sofrimento? Eu ouvia música porque sofria? Ou sofria porque ouvia música? Será que aqueles discos todos é que me deixavam melancólico?
As pessoas se preocupam que as crianças brinquem com armas e que os adolescentes joguem video games agressivos; assusta que possam ser dominados por um tipo de cultura da violência. Mas ninguém se incomoda que esses jovens ouçam milhares – literalmente milhares – de canções sobre corações partidos e rejeição e dor e sofrimento e perda. As pessoas mais infelizes que conheço, em termos românticos, são as que mais curtem música pop; e não sei se foi a música pop que causou o sofrimento, mas o certo é que essas pessoas já escutam canções tristes há mais tempo do que vivem suas vidas infelizes.” (p. 30)

 

O protagonista da história de Alta fidelidade, Rob, inicia a narrativa fazendo uma lista dos cinco mais impactantes rompimentos de namoro de sua vida. Faz isso pois acaba de passar por mais um rompimento, desta vez com Laura. O casal já morava junto, mas ela decide ir embora sem que Rob entenda direito o porquê, e também sem ligar muito para isso (no início).

Rob é dono de uma loja de discos (vinis, CDs, fitas, etc. – a história se passa no início dos anos 90, com direito a videocassetes, calças legging fluorescentes, secretárias eletrônicas e correspondência por carta) em Londres, e a mania de fazer listas das coisas, como dos top 5 rompimentos mais impactantes, vem de um funcionário dele, Barry. Barry é um brutamontes, gosta de provocar as pessoas – o que inclui seu chefe Rob e seu colega de trabalho Dick. Já Dick, por sua vez, é tímido e paciente. Nunca revida as grosserias de Barry. Os três conhecem bastante música inglesa, cada um com um gosto um pouco diferente do outro.

Voltando ao tal do rompimento do namoro com Laura, o protagonista-narrador conta um pouco de suas sensações ao longo das semanas que se passam desde que Laura foi embora. A lista de top five términos de namoro foi feita no calor do momento, logo que a namorada sai de casa e Rob não inclui Laura, reiterando o tempo todo que ela não foi tão importante assim na vida dele quanto as outras, que deixaram marcas profundas.

No início, ele se sente bem, livre, estando solteiro novamente. Aos poucos, vai percebendo que é um cara extremamente mediano em tudo (exceto no gosto por música e filmes, este é acima da média): não é rico nem pobre, não é bonito nem feio, gordo nem magro, alto nem baixo… mas é entediante em seus relacionamentos (embora ele ache que o caminho natural dos relacionamentos, cair no marasmo), e ele vai percebendo isso ao analisar sua trajetória amorosa. Esse trecho parece resumir bem a autoimagem de Rob:

“A diferença entre essas pessoas e eu é que elas terminaram a faculdade e eu não (ninguém ali tinha terminado com a Charlie, só eu); como consequência, elas têm empregos bacanas e eu uma porcaria, são ricos e eu pobre, são autoconfiantes e eu um cagalhão, não fumam e eu fumo, têm opiniões diferentes e eu faço listas. Tenho alguma condição de conversar com essa gente sobre o trecho internacional que causa o pior jet lag? Não. Esse pessoal é capaz de me dizer qual era a formação original dos Wailers? Não. Provavelmente não saberiam nem o nome do vocalista.” (p. 191)

Além disso, de vez em quando soa arrogante e muito lamentoso – ou seja, enche o saco. Além de tudo, faz questão de reiterar o tempo todo que tem 35 anos (como se fosse o cara mais velho do mundo).

Ele sai com os colegas de trabalho para pubs, fica com uma moça que conhece, e se revela um tanto quando obcecado (ok, não no nível O grande Gatsby) por Laura e não para de especular se ela está ficando com alguém, se esse outro alguém é melhor que ele na cama, etc. De maneira geral, começa a se achar um loser completo ao ver que até seus pais (os quais, segundo sua descrição são as pessoas mais mornas da face da Terra) têm uma vida de certa maneira agitada. Resolve encontrar-se com as ex-namoradas (as top 5 términos) para tentar entender o que deu errado.

A partir do terço final, o livro até que toma um rumo diferente do que eu tinha imaginado, mas nada que salve a história.

Minhas impressões são que achei um livro no nível do protagonista: entediante. Existem um mooooooonte de referências a músicas e filmes, mas a maioria, nunca ouvi falar (o que contribuiu para minha sensação de indiferença. Na verdade, mais do que isso, achei um tantinho irritante esse monte de menções. Mas não posso negar que essa tonelada de citações é necessária à construção da personalidade do personagem).

É uma leitura fácil, mas não me empolgou. Entretenimento puro e simples, e eu costumo preferir livros que tragam algo a mais (seja uma linguagem diferente, um bom final, um detalhe impressionante, um mistério intrigante, um enredo bem montado etc.). Recomendo se você está a fim de ler algo leve (porém um pouco deprimente, pois fala muito sobre terminar relacionamentos e “que rumo a minha vida tomou?!”, e um pouquinho engraçadinho – acho que o duplo diminutivo deu conta do recado que eu queria passar.).

 

 + info:
Alta fidelidade / Nick Hornby; tradução Christian Schwartz.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
306 páginas.

classificação: 2 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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O grande Gatsby

O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

“A silhueta de um gato em movimento cortou o luar e, ao virar-me para vê-lo, percebi que não estava sozinho – a uns quinze metros dali, uma figura emergiu da sombra da mansão vizinha e ficou de pé com as mãos nos bolsos, observando a poeira prateada das estrelas. Algo em seus movimentos calculados e na postura firme de seus pés sobre a grama me revelou que era o sr. Gatsby em pessoa, tentando determinar que porção do nosso céu local lhe pertencia.
Decidi chamá-lo. A srta. Baker havia falado a seu respeito no jantar, e isso bastaria como introdução. Mas não o fiz, pois de súbito me pareceu que estava feliz sozinho – estendeu os braços em direção à água de um jeito curioso e, mesmo à distância, eu podia jurar que estava tremendo. Sem perceber, olhei na direção do mar – e não vi nada além de uma luz verde solitária, minúscula e longínqua, que decerto marcava a extremidade de um cais. Quando procurei Gatsby de novo, ele já havia desaparecido e eu estava de novo sozinho na escuridão turbulenta. ” (p. 85)

Fitzgerald [1896-1940]  é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. Segundo a Wikipedia, “Suas histórias, reunidas sob o título Contos da Era do Jazz, refletiam o estado de espírito da época. Foi um dos escritores da chamada ‘geração perdida’ da literatura americana”. A obra O grande Gatsby foi publicada pela primeira vez em 1925.

A história se passa nos Estados Unidos no ano de 1922 – mais precisamente, conta sobre o verão desse ano na cidade de Long Island (NY). O narrador Nick Carraway é um rapaz provindo de uma família do Meio-Oeste americano e que vai viver no estado de Nova Iorque para estudar finanças e investimentos. Acaba alugando uma modesta casa vizinha à mansão luxuosíssima de um homem conhecido e enigmático chamado Gatsby.

Nos primeiros capítulos do livro, Gatsby é apenas mencionado por outros personagens (sempre referido como alguém riquíssimo, importante, influente) e aparece envolto numa aura de mistério: somente vemos sua silhueta, que repentinamente desaparece; é uma figura cercada de boatos (“Gatsby matou um homem”, “Gatsby foi espião alemão na guerra”). Em seguida, somos introduzidos ao mundo mágico desse personagem, um mundo de festas fartas e iluminadas, regadas a coquetéis, champanhe e frutas cítricas, com direito a fins-de-semana na mansão, acesso a esqui aquático, orquestras, cortes de cabelo extravagantes, jardins de delícias. Acho que deu para entender. É aí que o narrador conhece Gatsby, mas obviamente não o desvenda completamente (aliás, isso nunca acontece). Fica intrigado com sua fortuna e origens.

(PARÁGRAFO-SPOILER!!! Como este é um livro considerado clássico e ninguém conseguiu me explicar a história satisfatoriamente, acho interessante contar alguns pontos importantes do enredo.) Aos poucos, nosso narrador descobre que Gatsby faz parte do passado amoroso de sua prima, Daisy – e agora ela é casada. “Faz parte” é um jeito gentil de dizer que ele é obcecado por ela e pelo amor que não pôde se transformar em casamento. Jay Gatsby quer impressioná-la com sua riqueza e, apesar de mostrar-se um homem inseguro, reconquista a moça. O marido-brutamontes de Daisy, Tom, também tem uma amante, e ele descobre o caso de sua esposa com Gatsby, além das falcatruas do ricaço. No clímax da história, um acidente envolvendo a todos acaba por matar atropelada a amante de Tom e, a partir daí, mais coisas acontecem (agora, se eu contar, será spoiler do desfecho).

Lembrando que em 1922 a Europa recuperava-se da Grande Guerra (1914-1918). Os Estados Unidos, apesar de terem participado ativamente da guerra, saem dela relativamente bem. Isso fez com que a década de 1920 fosse um período áureo na economia norte-americana, com um nível de prosperidade sem precedentes – período que precedeu a grande depressão que iniciou-se com a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929. Tal esplendor refletiu-se nos seus habitantes, e esse romance foca na elite gastadora e fútil, despreocupada com gastos supérfluos e interessada nos prazeres que o dinheiro podia comprar, personificada em Gatsby. Tal superficialidade deixa o narrador claramente incomodado. Por isso, diz-se que este livro de Fitzgerald em especial é uma crítica ao “sonho americano”, pois retrata um materialismo sem limites dessa classe no período e também a imoralidade da elite norte-americana dos anos 20 (traições, casamentos de fachada, golpes e trapaças). Além de toda essa prosperidade leviana, o livro trata também de decadência e solidão.

A edição que li, da Penguin Companhia das Letras, veio com uma página solta. Essa edição conta com uma introdução de Tony Tanner analisando a obra de Fitzgerald. Como havia um aviso de “revelações sobre o enredo”, deixei para ler no final, e tal introdução aponta caminhos bem interessantes dentro de O grande Gatsby (processos de criação de personagens, amadurecimento de ideias do autor, possibilidades de interpretações).

O texto é bastante leve e ágil de ser lido e o livro é relativamente curto – portanto, trata-se de uma leitura rápida e tranquila. Acho que já mencionei em algum post do blog, mas falarei novamente: acredito que a língua inglesa é muito mais direta que a portuguesa e a espanhola. Me dá a impressão de que livros em português e espanhol tendem a ser mais “poéticos” por natureza do idioma, enquanto que aqueles em inglês são  mais objetivos. Segundo esse critério, geralmente prefiro os nossos.

Mas, como um todo, é um livro interessante. Para mim, pesa mais para o lado do entretenimento que o da reflexão. Apesar de ser uma crítica às banalidades dos ricaços, não me impressionou profundamente justamente por sua “leveza”. Ou talvez seja esse o traço genial de Fitzgerald: conseguiu infundir em sua obra a questão da superficialidade não só no conteúdo, mas também na forma, no tom e na linguagem que tanto o incomodavam na elite norte-americana dos anos 1920. Recomenda-se para quem quer ler um clássico da literatura que não é nada pesado.

(O final é muito bom!)

A título de curiosidade, neste site tem algumas capas de edições diversas de The great Gatsby: algumas clássicas, outras mais estilizadas, mas todas revelando o “espírito” da história.

 + info:
O grande Gatsby / F. Scott Fitzgerald; tradução Vanessa Barbara; introdução e notas Tony Tanner.
– São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
249 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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Minha breve história: Stephen Hawking

Minha breve história, de Stephen Hawking

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“Quando eu tinha vinte e um anos e contraí esclerose lateral amiotrófica, achei muito injusto. Por que aquilo tinha de acontecer comigo? Na época, pensei que minha vida tivesse terminado e que nunca concretizaria o potencial que acreditava possuir. Mas hoje, cinquenta anos depois, estou bastante satisfeito com minha vida. Fui casado duas vezes e tenho três filhos lindos e bem-sucedidos. Tive sucesso na minha carreira científica: acho que a maioria dos físicos teóricos concordaria que minha previsão de emissão quântica de buracos negros está correta, embora ela ainda não tenha me valido um Prêmio Nobel, porque é muito difícil de verificá-la experimentalmente. Por outro lado, ganhei o ainda mais valioso Fundamental Physics Prize, que me foi dado pela importância teórica da descoberta, apesar de ela não ter sido confirmada por experimentos.
Minha deficiência não foi um obstáculo sério no meu trabalho científico. Inclusive, acho que de certa forma foi uma vantagem: não tive de dar palestras ou aulas a estudantes de graduação, nem precisei participar de tediosos comitês que consomem muito tempo. Dessa forma, pude me dedicar por completo à pesquisa.” (p. 135-136)

Stephen Hawking é o famoso físico / astrônomo inglês que ocupa a posição que já foi de Isaac Newton na Universidade de Cambridge, uma das mais renomadas cátedras de matemática do mundo. Minha breve história é um livro autobiográfico que narra desde a infância do físico até suas linhas de pesquisa.

Dividido em partes, o capítulo “Infância” narra um pouco da vida de criança de Hawking, as escolas que frequentou, bairros em que morou e um pouco sobre seus pais e irmãos. Conta umas poucas memórias de menino, mas nada parecido com o engraçado e sentimental Nu, de botas (Antonio Prata). Hawking é muito mais objetivo, como era de se esperar.

Os capítulos “St. Albans”, “Oxford”, “Cambridge”, “Ondas gravitacionais”, “O Big Bang”, “Buracos negros” falam sobre sua trajetória escolar e acadêmica, algumas bolsas que ganhou e o caminho de pesquisas e acasos que fez com que ele chegasse àqueles que foram os ponto de destaque de sua carreira. Por exemplo, o jovem estudante de física poderia ter optado por um campo de pesquisa em voga na época, mas que hoje já é ultrapassado, mas escolheu um tema negligenciado e acabou se destacando por isso.

Nesse meio-tempo, acompanhamos umas poucas passagens a respeito de seu primeiro casamento, nascimento do primogênito e descoberta e evolução de sua doença, esclerose lateral amiotrófica (ELA, recentemente famosa na Internet pelo desafio do balde de gelo), em que a pessoa vai ficando “desajeitada” e perdendo os movimentos. Em geral, a paralisia atinge órgãos vitais e as pessoas com ELA acabam morrendo após algum tempo (não foi o que aconteceu a Stephen Hawking, nascido em 1942, diagnosticado aos vinte e poucos anos e vivo até hoje). Segundo o físico, a doença o motivou a fazer algo de bom para melhorar a vida das pessoas, o que o levou a pesquisar com mais afinco.

Nos capítulos “Caltech” e “Casamento”, acompanhamos um pouco mais da trajetória pessoal do autor e seus relacionamentos, apesar de serem capítulos relativamente curtos. Este último explica também como funciona o mecanismo que lhe dá voz (o aparelho da voz computadorizada).  “Uma breve história do tempo” fala como ele veio a escrever o livro para um público mais abrangente que não só o acadêmico, o que deu muito trabalho (por conta de adaptação de linguagem e explicação de conceitos); “Viagem no tempo” revela como seria possível uma viagem no tempo, dadas certas condições que eu obviamente não compreendi. Do capítulo “Tempo imaginário” não entendi nadinha mesmo (desculpem se estou sendo repetitiva! Hahaha). Em “Sem fronteiras”, o capítulo final, Hawking faz uma retrospectiva otimista de sua vida (coloquei um trecho no início do post).

Meu cunhado me emprestou o livro enquanto eu estava em São Paulo (obrigada!) e é uma obra de leitura extremamente rápida: a linguagem é fácil e muito objetiva, a diagramação tem margens largas e letras e espaçamentos grandes, e tem poucas páginas. Em alguns momentos, quando o astrofísico fala de teorias e linhas de pesquisa, fiquei meio perdida (mas também não fiquei tentando entender, precisaria de ajuda!) e a leitura tornou-se um pouco mais lenta, mas nada que tenha atrapalhado.

Surpreendentemente, no livro aprendemos que o autor não era um estudante muito dedicado em seus primeiros anos (apesar de sempre muito inteligente, chegou a receber dos amigos o apelido de Einstein). Achava Física uma matéria chata na escola, pois a considerava muito fácil (ok, nesses momentos ele soa arrogante e vaidoso, onde já se viu achar Física a matéria mais fácil?!). Inclusive, ele nos conta que em sua graduação, era estimulada entre os colegas a ideia de que não se deveria estudar: se você fosse bom de verdade, se formaria sem precisar se esforçar muito. Me fez pensar sobre alguns conceitos extremamente equivocados do sistema escolar (não é só no Brasil que essas noções erradas aparecem, apesar de muitos gostarem de espalhar tal mito).

Sem dúvida é uma história inspiradora, mas como obra literária, deixa um pouco a desejar (é “seca”, objetiva demais para o meu gosto). Ah, Hawking tem um senso de humor visível, às vezes irônico e sempre bastante nerd (várias piadas e pagamentos de apostas com outros amigos físicos não entendi. Mas ri mesmo assim, porque deve ser hilário! Hahaha)! O livro vem com algumas fotografias de Hawking (infância, juventude, vida adulta, etc.). Só mais um adendo: achei a fotografia da capa muito interessante, me lembrou um pouco “A liberdade guiando o povo” (E. Delacroix) e “A balsa de Medusa” (T. Géricault), não pela temática, mas pelo destaque da figura de Hawking.

“A liberdade guiando o povo”, de Eugene Delacroix

“A balsa de Medusa”, de T. Géricault

Não foi um dos melhores livros lidos no ano, recomendo apenas a quem queira conhecer melhor Stephen Hawking e seu estilo de escrita. Ah, convém lembrar que não sou a maior fã de biografias do mundo.

 + info:
Minha breve história / Stephen Hawking; tradução Alexandre Raposo, Julia Sobral Campos.
– Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.
142 páginas.

classificação: 2 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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