2014, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Ensaio sobre a lucidez

Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago

 “[…] É interessante observar, disse [o ministro do interior], como os significados das palavras se vão modificando sem que nos apercebamos, como tantas vezes as utilizamos para dizer precisamente o contrário do que antes expressavam e que, de certo modo, como um eco que se vai perdendo, continuam ainda a expressar, Esse é um dos defeitos do processo semântico, disse lá do fundo o ministro da cultura, E isso que tem que ver com os votos em branco, perguntou o ministro dos negócios estrangeiros, Com os votos em branco, nada, mas com o estado de sítio, tudo, emendou triunfante o ministro do interior, Não percebo, disse o ministro da defesa, É muito simples, Será simples tudo o que você quiser, mas não percebo, Vejamos, vejamos, que significa a palavra sítio, já sei que a pergunta é retórica, não precisam responder, todos sabemos que sítio significa cerco, significa assédio, não é verdade, Como até agora dois e dois têm sido quatro, Então, ao declararmos o estado de sítio é como se estivéssemos a dizer que a capital do país se encontra sitiada, cercada, assediada por um inimigo, quando a verdade é que esse inimigo, permita-se-me chamar-lhe desta maneira, não é fora que está, mas dentro. Os ministros olharam-se uns para os outros, o chefe de governo fez cara de desentendido e pôs-se a mexer nuns papéis. Mas o ministro da defesa ia triunfar na batalha sematológica, Há outra maneira de entender as coisas, Qual, Que os habitantes da capital, ao desencadearem a rebelião, suponho que não estou a exagerar dando o nome de rebelião ao que está a acontecer, foram por isso justamente sitiados, ou cercados, ou assediados, escolha o termo que mais lhe agradar, a mim é-me totalmente indiferente, Peço licença para recordar ao nosso caro colega e ao conselho, disse o ministro da justiça, que os cidadãos que decidiram votar em branco não fizeram mais que exercer um direito que a lei explicitamente lhes reconhece, portanto, falar de rebelião num caso como este, além de ser, como imagino, uma grave incorreção semântica, espero que me desculpem por estar penetrando num terreno em que não sou competente, é também, do ponto de vista legal, um completo despropósito, Os direitos não são abstracções, respondeu o ministro da defesa secamente, os direitos merecem-se ou não se merecem, e eles não os mereceram, o resto é conversa fiada, Tem toda razão, disse o ministro da cultura, de facto os direitos não são abstracções, têm existência até mesmo quando não são respeitados (…).” (p. 61-62)

Saramago é, definitivamente, um dos meus escritores favoritos (tipo top 3 juntamente com Guimarães Rosa e García Márquez, porque não dá para escolher quem é o primeiro entre esses três).

Num certo país (o mesmo país onde se passa o consagrado e maravilhoso Ensaio sobre a cegueira), é época de eleições. Ali, o voto é facultativo, e uma grande tempestade desanima os eleitores de irem exercer seu direito de voto. Após o fim da tempestade, à tarde, praticamente todos os cidadãos saem de suas casas e vão votar ao mesmo tempo, às 16h, causando filas quilométricas. Algo ainda mais inesperado acontece: um número gigantesco de pessoas (mais de 70%) vota em branco. As autoridades do país ficam extremamente alarmadas; o índice de votos brancos na capital chega a mais de 80%.

Isso significa que os políticos caíram na descrença da população, para eles, esse enorme protesto é, na realidade, uma ameaça real ao sistema democrático e a política do país está claramente em crise. Começa então uma investigação para apurar as causas e os líderes desse evento: espiões e microfones são colocados nas ruas, eleitores são colocados à prova com detectores da verdade (polígrafos). Mas todos os métodos falham miseravelmente. Absolutamente ninguém revela que votou em branco – seja espontaneamente, seja sob pressão. Até que, certo dia, todos os que votaram em branco decidem ir para as ruas e admiti-lo, através de cartazes e passeatas. O governo toma as medidas que considera necessárias: um estado e sítio é declarado (veja o trecho do livro no início do post), decide-se isolar a capital, transferindo a sede do poder para outra cidade, de maneira a obrigar os eleitores da capital a se arrependerem.

A partir daí, inicia-se uma batalha entre os brancosos (população da capital que votou em branco) e as autoridades do país, que deixam a capital para que os “traidores da democracia” provem o caos que é ficar em um local literalmente desgovernado. Para tornar a vida dos brancosos insuportável e justificar suas atitudes radicais, o governo planta uma bomba no metrô e quer encontrar um bode expiatório (a segunda parte do livro trata basicamente disso: uma equipe de investigadores é infiltrada na cidade – que agora não conta com um corpo policial – e começa a verificar a veracidade de uma carta. Tal carta alega saber o cérebro que está por trás dos 83% de votos em branco).

Saramago é mestre nesse tipo de história: algo aparentemente absurdo acontece e ele conta como seriam as reações de toda a sociedade (em Ensaio sobre a cegueira, acontece uma epidemia de cegueira branca sem precedentes e a comunidade mergulha no caos total e absoluto; em Intermitências da morte, a morte deixa de atuar dentro dos limites de um certo país, e com isso, começam enormes problemas – o que fazer com os moribundos?, entre um monte de outras questões; etc.). É simplesmente genial.

O narrador é magnífico (como sempre!), em terceira pessoa, e mostra a maior parte da história do ponto de vista das autoridades: as decisões, as manipulações de acontecimentos na capital, das notícias através da mídia, de discursos e manobras políticas. E, mais do que isso, as surpreendentes reações dos brancosos, que provocam medidas cada vez mais extremas por parte das autoridades; e também os encantadores e misteriosos personagens: uns poucos novos, e alguns retomados do Ensaio sobre a cegueira.

Com seu estilo de escrita único, Saramago reinventa regras de redação: parágrafos longos, pontuações aparentemente fora do lugar e diálogos diretos mas sem travessão são marcas suas. No início da leitura, pode-se estranhar, mas quando nos acostumamos, percebemos o quão dinâmico fica o texto, que intercala momentos da história com reflexões do narrador (ou do autor?). É simplesmente brilhante. Lembrando sempre que é impossível separar a forma e o conteúdo de uma obra: um livro não é apenas seu conteúdo, “o que” ele conta, mas também o “como” se conta a história. Saramago não seria Saramago sem seu uso ímpar da língua portuguesa (neste sentido, penso que ele e Guimarães Rosa se aproximam bastante).

O final também é, como sempre, muito bom.

Ensaio sobre a lucidez forma uma “bilogia”  (ok, inventei a palavra a partir de “trilogia”, mas para apenas dois livros) com Ensaio sobre a cegueira. Primeiro, porque trata da mesma população, do mesmo país e de duas espécies de “epidemias” brancas, além de trazer personagens em comum.

Segundo, por um motivo pessoal: Ensaio sobre a cegueira foi o primeiro livro adulto que li e por que me apaixonei. Em um momento de transição da adolescência para a vida adulta, eu tinha receio de que a literatura para adultos fosse chata e séria (às vezes é mesmo), coisas que Saramago jogou por terra para mim. Percebi que eu poderia amar tanto livros adultos quanto os infanto-juvenis de que gostava. As histórias saramaguianas são ao mesmo tempo dinâmicas e filosóficas, às vezes leves, às vezes pesadas, e sempre boas. Por isso, Ensaio sobre a cegueira foi um marco em minha vida e é um dos meus livros favoritos até hoje. Digo sem medo que Ensaio sobre a lucidez entrou para o mesmo rol. Extremamente recomendado, um dos melhores livros que li este ano!

 

 + info:
Ensaio sobre a lucidez / José Saramago.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
325 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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5 comentários sobre “Ensaio sobre a lucidez

  1. Saramago fala das mazelas do ser humano com histórias, ou seria estórias, ao mesmo tempo fantásticas e inacreditáveis mas nem por isto impossíveis ou indesejáveis…Muito boa leitura., Quem dera todo o brasil lesse, pelo menos a resenha ,antes das eleições!…
    Mylene Ribeiro

    • Timing calculado!!! 😉 Mas confesso que fiquei com medo de não terminar a tempo, no início eu estava meio lenta na leitura…
      Acho que vc vai gostar sim, Menchikos! 🙂
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  2. Ana Clara disse:

    Boa noite, Nati, sou inscrita no seu canal, mas na época dessa resenha você ainda não fazia vídeos, então vai o meu comentário por aqui mesmo.
    Acabei de ler esse livro e estou torturada desde então. Tanta gente acha esse livro maravilhoso, quase ou até superando Ensaio sobre a Cegueira (EC) ao passo que eu, quando tento aproximar os dois, só consigo começar a questionar a qualidade daquele livro que me nocauteou para sempre, me transformando numa (até então) grande admiradora da obra. Essa discrepância entre a opinião de tanta gente e a minha tá tirando a minha paz haha
    Eu credito a força de EC à certeza de que, com uma cegueira como aquela, os atos que se seguiriam se dariam exatamente como ou ao menos de forma muito semelhante ao modo como se desenrolaram no livro. Por outro lado, não consigo por um segundo imaginar um governo, e muito menos uma comunidade, agindo do jeito que agem no livro da Lucidez. Achei tudo tão irreal que não consegui ver todas essas reflexões que todos ressaltam.
    O que acha, acredita que após um branco esmagador nas eleições de um país abstrato as coisas seriam como foram descritas ali? Ou acha que isso não é o importante? Depois dessa pergunta devo acrescentar que adoro fantasia, ficções cientificas, etc, desde que haja uma lógica interna, o que não enxergo nesse livro do Saramago.

    • Oiiiiiii Ana!!!
      Em primeiro lugar: amei seu comentário!!!!! ❤ E obrigada por acompanhar o canal e por ter lido a resenha aqui no blog!
      Olha, entendo PERFEITAMENTE o que você está dizendo. Pra falar a verdade, EC foi o primeiro que li do Saramago, e pra mim, foi uma tijolada. Sem sombra de dúvidas o acho melhor que o Ensaio sobre a lucidez. E mais coerente. Aliás, vc foi muito perspicaz ao perceber todas essas coisas.
      Na realidade, acho sim a lógica interna do livro mais fraca, apesar de ver que existe uma lógica. Esse é um livro muito mais "irreal". Mas, como vc mesma destacou, me parece que a questão aqui não é tanto a realidade, mas o absurdo das situações. É quase como se enquanto estão cegos, as coisas são extremamente reais, e quando recuperam a visão e estão lúcidos, tudo fica mais escorregadio. Não sei explicar muito bem. Vou tentar pensar melhor pra gente debater mais! 😀
      Beijooooo!
      Nati

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