2014, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

As meninas

As meninas, de Lygia Fagundes Telles

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 “Lá fora as coisas podem estar pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro. ‘É preciso ter um peito de ferro pra aguentar esta cidade’, diz a Lião, que cruza esta cidade com sua alpargata azul. Mas não entro na transa e nem quero. Faculdade, cinema, um pouco de clube (clube fechado) uma ou outra lanchonete, compras nas minhas lojas especialíssimas. O oriehnid vem num envelope. Dia de comprar livros e discos, dia de Deus me visitar, Oi, Lorena. Às vezes, o medo, não da cidade (tão remota para mim como seu povo) mas um medo que nasce debaixo da minha cama. Imagine se lesse jornais como a Lião, ela lê milhares de jornais por dia, recorta artigos. Mas seu cabelo já de natureza eriçável também sobe como o pelo do Astronauta quando via fantasma, houve um tempo de fantasma neste quarteirão. Os olhos crescem, as unhas diminuem na roeção, ‘Não sei explicar’, ela começa. E passa duas horas explicando que é preciso tratar o corpo como a um cavalo que se recusa a pular o obstáculo, a chicote. O medo mora nas pupilas. A pupila de Astronauta tão negra invadindo o verde, tinta transbordante até as pálpebras. As pupilas de Ana Clara também dilatadas mas por outros motivos, coitadinha, a droga excita a pupila com a mesma força do medo. Duas rodas pretas. Um brilho. A mentira vem brilhante, mente, ah, tanta mentira seguida. Fecha as mãos e começa a mentir com tamanho fervor, esmerou-se nesse mentir gratuito, sem o menor objetivo.” (p. 60)

Acho que já tinha lido algo da Lygia Fagundes Telles no Ensino Médio; se não me engano, foi o conto As formigas. Na ocasião, a professora explicou detalhes e metáforas do conto fantástico, e me lembro de ter gostado muito!!! Pena que esqueci tudo – a história, os detalhes, as explicações das metáforas… mas qualquer dia leio de novo e tento tirar conclusões próprias.

Resolvi pegar As meninas por indicação de uma grande amiga que curte Lygia Fagundes Telles, Luana, e não me arrependi.

A história se passa nos anos 1970 no Brasil (portanto, tempos de Ditadura Militar) e conta com três personagens principais: Lorena, menina riquinha, mimada e cor-de-rosa que tem um flerte com um médico casado (mas ela mantém-se virgem) e empresta dinheiro às amigas; Lia (Lião), revolucionária e contestadora do regime, filha de baiana com alemão ex-nazista, mais gordinha e de cabelos rebeldes; Ana Clara, belíssima modelo fotográfica e usuária de drogas, apaixonada por um traficante mas presa a seu noivo almofadinha. As três vivem em um pensionato dirigido por freiras em São Paulo, e elas compartilham entre si suas respectivas solidões (que paradoxo!).

Basicamente, nos deparamos com a amizade entre as três garotas e seus respectivos dilemas: Lorena deve ficar com o tal doutor? Lia irá fugir do país como uma opositora do regime? Ana Clara divide-se entre as drogas (representadas também pelo traficante) e seu desejo de ser rica após uma infância difícil?

Apesar das dificuldades, as três são boas amigas e que se apoiam (comecei meio agoniada com Lorena e seus frufrus, mas ela segura as pontas e termina uma personagem completa). Se ficasse só nisso, acredito que seria um enredo entediante, mas existe uma reviravolta no final bem surpreendente!

É impressionante o fato de a primeira edição do livro ter sido publicada em 1973, pleno regime militar, uma vez que o livro contém cenas explícitas de tortura (flashes de amigos de Lia sendo torturados por policiais). Aliás, encontrei uma opinião interessante de Nelson de Oliveira a respeito do livro, com a qual concordo:

“Publicado em 1973, no período mais feroz da ditadura militar, As meninas é um romance corajoso. Enquanto os generais exigiam silêncio, Lygia Fagundes Telles ousava apontar as falhas morais da burguesia brasileira. Por meio de três jovens problemáticas, foram denunciados os vícios públicos e privados de uma sociedade reprimida.
(…)
Neste seu terceiro romance, a autora não investiga a crise sociopolítica indo direto aos fatos, mas esmiuçando as feridas provocadas por essa crise no mundo interior das personagens. As complicadas Lorena, Ana Clara e Lia reproduzem internamente o desequilíbrio externo, perverso.”

Eu sinceramente não sei explicar a escrita de Telles. É maravilhosa e inusitada. Nelson de Oliveira (citado acima) explicou-a como sendo uma escrita felina, por ser “ágil e elegante (…). Se os gatos pudessem escrever ficção, escreveriam como Lygia: atentos aos detalhes, ao desenho sinuoso dos desejos mais sutis, reunindo falas e sensações numa colagem cheia de astúcia, arranhando o leitor na hora em que estivesse distraído.” Ela magistralmente alterna narradores de primeira e terceira pessoa sem que nos demos conta; e além disso, também alterna a primeira pessoa entre as cabeças de Lorena, Lia e Ana Clara. Deve ser algo muito difícil de fazer, totalmente único, e tal recurso dá riqueza e dinamismo ao texto. Por vezes ela até ignora pontuação e parágrafos, de maneira a nos sentirmos, por exemplo, na mente de Ana Clara durante uma “viagem” provocada por drogas: uma rápida sucessão de lembranças e sensações sem pé nem cabeça, envoltas na fumaça azul. Ou qualquer outra coisa desse tipo.

O trecho do início da resenha é do ponto de vista de Lorena; escolhi tal trecho por falar um pouquinho sobre as três personagens.

Lendo o posfácio (muito bem escrito por Cristóvão Tezza), me foi revelado algo que não reparei durante a leitura do livro em si: a história se passa em apenas dois dias. Por isso a sensação de lentidão que tive, acompanhamos pensamentos e ações das personagens em pormenores – principalmente detalhes que consideraríamos sem importância para um romance, como por exemplo Lorena indo esquentar água para um chá (várias vezes); a agulha da vitrola arranhando o disco de Hendrix; as cinzas do cigarro desmoronando no tapete ou no cinzeiro; um gargarejo para se livrar do mau hálito, et cetera, et cetera.

Outra coisa interessante é o fato de as personagens não serem heroínas (como Ayla em Filhos da Terra, Lyra em Fronteiras do Universo, Tris em Divergente); portanto, não têm a “obrigação” de terem qualidades heroicas (fiquei pensando se isso existe, mas acredito que sim), tais como: fidelidade, força moral, caráter, lealdade, coragem. Em As meninas, características consideradas defeitos são constantes, elas são seres humanos falhos como todos nós – e ainda são garotas na faculdade, num processo complexo de amadurecimento e descoberta. Ou seja, elas são egoístas, fazem fofoca (inclusive de umas com as outras), conversam sobre sexo, são chatas de vez em quando, se atrasam. Como todo mundo.

O final me surpreendeu positivamente: adoro bons finais! Mas não posso falar mais nada a respeito…

É uma obra definitivamente recomendada para um público adulto (contém drogas, sexo, violência). Lembrando também que é um livro que não se enquadra na categoria de “fantasia”; apesar de ser ficção, traz realidades bem cruas e cotidianas (dentro de seu contexto). Não é um texto fácil, nem tem uma “historinha” clara – é um daqueles livros em que a pessoa pergunta: “Sobre o que é o livro?” E você não responde nada sobre o enredo, mas sim sobre as personagens: “É a respeito de umas meninas em São Paulo na década de 1970”. E é um livro lento; se tiver pressa, deixe-o para depois.

Definitivamente é uma obra que preciso ler novamente para compreendê-la melhor.

 + info:
As meninas / Lygia Fagundes Telles.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
301 páginas.

classificação:  4 estrelas
(O fim do livro garantiu-lhe uma quarta estrela. Não fosse ele, daria três estrelas, já que demorou para eu “pegar no tranco”.)

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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5 comentários sobre “As meninas

  1. Nossa, ta lendo loucamente, que beleza 🙂
    Então, infelizmente eu não sou muito fã desse tipo de escrita: difusa, embaralhada e sem “história definida”. Não sei se é uma característica específica da Lygia ou desse livro em particular, mas me lembro claramente de ter começado As meninas e parado no meio, porque me dei conta de que não estava entendendo nada.. Mas talvez eu fosse muito novo também.

    • Sim, acho que tem os dois aspectos: hoje você com certeza entenderia muito melhor, mas também acho que não seja seu estilo… a próxima resenha é mais a sua cara! 🙂
      (Não estou lendo tão loucamente assim, estou lendo um livro há semanas, e nem cheguei na metade ainda… vai faltar resenha nas próximas semanas…)

  2. O primeiro impacto que eu tive ao ler Lygia Fagundes Telles foi tão intenso quanto a primeira vez que li Machado de Assis.
    A forma como ela muda os narradores e consegui nos envolver nos sentimentos das personagens é incrível. Mesmo que algumas descrições alterem o ritmo do texto, acho que elas são essenciais para construir o clima e a personalidade de cada texto.
    Gosto bastante de livros mais desafiadores e mesmos tendo que voltar e reler alguns trenchos, são livros que provocam uma revolução na nossa forma de ler e nos nossos sentimentos.
    Fiquei super feliz por você ter gostado da minha recomendação! Espero que novos encontros com os livros da Lygia sejam surpreendentes e gerem resenhas ótimas como essa.

    • Luuu, que lindo comentário!!!
      Confesso que não esperava essa escrita dela, e realmente faz toda a diferença! Outra coisa, respeito muito finais surpreendentes (acho-os difíceis de serem feitos!), e gostei do final deste!
      Obrigada pela indicação e pelo comentário, beijos!!!!

  3. Nai disse:

    Nossa, Toka! Tá lendo muito mesmo, hein! =) Caraca, tô atrasada nas resenhas! Colocando em dia aqui… Não gosto da Lygia Fagundes Telles, acho extremamente enfadonho, mas suas resenhas são sempre legais!

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