2014, Companhia das Letras, Crônica, Resenha

Nu, de botas

Nu, de botas, de Antonio Prata

 “Minha mãe não gostava que nos referíssemos a Vanda como ‘empregada’, preferia ‘a moça que trabalha lá em casa’. Eu estranhava: por que dizer ‘a moça que trabalha lá em casa’, se a todas as moças que trabalhavam nas casas dos outros, os vizinhos chamavam ‘empregadas’?
***
Um dia, descobri que minha mãe trabalhava numa revista. Revistas, para mim, eram as da Turma da Mônica, que eu folheava avidamente, desde muito antes de aprender a ler. Minha mãe me explicou que a dela era diferente, uma revista para gente grande, mas que era feita no mesmo prédio que as da Mônica. Animado, imaginei pilhas de Cascão, Cebolinha, Mônica e Magali de graça. Pedi que me trouxesse algumas no dia seguinte. Não dava, ela me explicou. Infelizmente, não era a dona da editora, apenas empregada.
Que revelação! Imaginei-a fazendo almoço e café numa enorme cozinha. Vislumbrei seu quarto, no fundo de um quintal. Teria ela, também, uma TV preto e branco? Pintaria as unhas sentada na cama, de bobes na cabeça, cantarolando músicas da novela? Como seria sua vida, depois que saía de casa na Brasília branca e ia ser ‘a moça que trabalha lá na editora’? Que empresa incrível devia ser aquela, que se dava ao luxo de ter minha mãe como empregada.” (p. 13 e 14)

Por favor, por favor, POR FAVOR, se você não conhece Antonio Prata, leia isto, isto e veja isto (este documentário é longo, mas JURO que vale a pena!).

Esse cara é um dos melhores cronistas do país, por seu humor brilhante e senso crítico afinadíssimo. Atualmente, é colunista do jornal Folha de S. Paulo (veja no final do post uma observação sobre uma de suas colunas).

Sou fã. Não adianta nem esconder. Essa pessoa sabe contar histórias de maneira leve, singela, mas sem perder a compostura: tem riso, tem acidez, tem elemento-surpresa. Não é humor bobo nem ofensivo; é humor inteligente.

Nu, de botas traz o que Prata sabe fazer de melhor: crônicas. Mas não são quaisquer crônicas. A temática que as une é a infância do autor. É o adulto que conta, mas sob a perspectiva da criança – um pouco difícil de explicar, talvez o trecho no início da resenha ajude a entender. São quase relatos de suas lembranças infantis, pequenas pérolas de estranhamento do mundo adulto, e de vez em quando, maravilhamento e frustração.

Teve uma crônica em que chorei de rir, literalmente. Não conseguia parar. A sorte é que estava em casa, se não, todo mundo ia me achar maluca. Como testemunha Gregório Duvivier na contracapa, “Ler o livro de Antonio Prata me fez rir e chorar e depois rir de novo do ridículo que foi chorar no aeroporto e chorar pelo ridículo que é ficar rindo e chorando no aeroporto e acabar perdendo o voo e pensar: que bom, vou poder rir e chorar mais um pouquinho”. Bem isso.

Esta é uma obra que dá pra ler em um dia, ou em vários (já que é dividida em crônicas, praticamente capítulos da hilária infância de Prata), e aborda temas como: palavrão, bichos de estimação, uma inusitada viagem à África, dilemas morais (fazer xixi fora do penico pela adrenalina ou fazer xixi no penico e ter como prêmio o sorriso satisfeito da mãe?), gente velha, aversão a cuecas, dúvidas, mulheres peladas, tédio de férias e de viagens de carro, algumas descobertas sobre sexo (apenas descobertas mesmo, como o formato do órgão sexual feminino através de fotos de revistas, etc. Nada físico).

Enfim, acho que deu pra entender. Essa resenha vai ficar curtinha mesmo, sem grandes análises, já que o livro é simples. Só mais um adendo: achei a primeira metade, quando Antonio é menorzinho, mais engraçada que a segunda. Vale a pena!

 

+ info:
Nu, de botas / Antonio Prata.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
140páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

OBS.: Atualização: minha amiga Patrícia me chamou atenção para um texto do Prata em sua coluna na Folha de S. Paulo do dia 31/08/2014, chamado Dupla personalidade. Nele, fala sobre os “tipos” de mulher que a cabeça dele prefere e que o pinto (sic) dele prefere. O texto parece realmente machista, dividindo os tipos de mulher (quase como “mulher pra casar” X “mulher pra pegar”). Não vi repercussão nenhuma sobre isso, mas estou sendo otimista e esperando que seja um texto irônico, como ele já fez brilhantemente.

Obrigada pela leitura!
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5 comentários sobre “Nu, de botas

  1. Posso votar de novo!!! Quero primeiro a resenha do `nú, de botas! do Mário Prata!!! Perfeito p/ ler em aeroportos e/ou rodoviárias… com o cuidado de colocar o celular p/ avisar que está na hora de parar p/ não perder a viagem. Boas crônicas são melhor que terapia!!

  2. Tatiana disse:

    Adoro Crônicas!! Faz tempo que não as leio!! Apesar de eu estar com uma pilha de livros na fila, quero com certeza colocar mais esse!!! Prece ser muito gostoso de ler.

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