2014, Companhia das Letras, Crônica, Não ficção, Paralela, Política, Resenha

Tempo bom, tempo ruim

Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos, de Jean Wyllys

“Pensamos, logo, existimos. O pensamento é, então, o fundamento singular do ser humano: aquilo que nos distingue dos demais seres vivos. Todos nascemos com a capacidade de pensar: raciocinar, abstrair, perceber, experimentar o belo, distinguir o bem do mal conforme as circunstâncias, lidar com as pulsões e as emoções, reconhecer e dar nomes às angústias, dialogar consigo e com os outros – todos nascemos com essa capacidade, mas nem todos a desenvolvemos. Consequentemente, nem todos nos humanizamos. Só nos tornamos humanos de fato quando exercitamos a capacidade de pensar, quando encontramos as condições necessárias para o exercício dessa capacidade.
Parafraseando um verso da poeta Adélia Prado, digo que é preciso que se mate a fome de pão para que nasçam outras fomes. E quais poderiam ser essas fomes? A fome de beleza, de justiça, de amor, enfim, a fome de humanidade. Sem dispor dos meios para satisfazer suas necessidades básicas (matar sua fome de comida e sua sede de água e ter um abrigo para si mesmo e para os seus), a pessoa não pode começar a pensar; logo, não pode começar a existir plenamente – a pessoa não vive, sobrevive. Entretanto, depois de saciadas essas fomes básicas, uma das condições fundamentais para o exercício da capacidade de pensar é a educação de qualidade inclusiva e voltada para a cidadania – e aqui me refiro à educação formal, oferecida pelos sistemas público e privado de ensino, em consonância com a educação informal, aquela proporcionada por outras instituições que não a escola (a família, a religião, a comunidade de que se faz parte e os meios de comunicação.
Sim, a educação é sempre disciplinadora naquele sentido que o filósofo Michel Foucault dá ao termo, ou seja, a educação forma ‘sujeitos’, nos dois sentidos desta palavra: ‘sujeitados’ (às normas da sociedade que engendrou o sistema educacional) e ‘subjetividades’ (identidades, individualidades). Mas ao construir nossa subjetividade, ou seja, ao forjar nossas percepções de nós mesmos, dos outros e do mundo, a educação nos dá o material e nos proporciona o exercício da (re)invenção de nós mesmos e do mundo à nossa volta – dá-nos aquilo que a filósofa alemã Hannah Arendt chama de ‘vida com pensamento’.” (p. 186-187)

 

Jean Wyllys é atualmente deputado federal pelo Rio de Janeiro (PSOL) e luta em defesa de minorias no Congresso Nacional, com destaque para a comunidade LGBT, mas também pessoas com deficiência, tratamento de doenças raras no SUS, profissionais do sexo, entre outras (é possível consultar seu rol de projetos de lei aqui). Talvez alguns o conheçam mais por conta de sua participação no Big Brother Brasil, do qual saiu vencedor, em 2005.

Particularmente, gosto muito da sua maneira de fazer política (pena que não voto no RJ); em terra de bancadas ruralistas, evangélicas, bolsonarísticas, quem tem noção é rei. Wyllys sabe priorizar o que é importante: os seres humanos e suas escolhas e individualidades.

Dito isto (deixando claro que o que foi dito expressa minha visão política pessoal), vamos ao livro. Não é tão fácil classificar o gênero dos textos, eu os colocaria entre a crônica e o artigo de opinião. Formado em jornalismo, Jean Wyllys tem um modo direto de escrever, sem enrolação e sem picuinhas. Há dois tipos básicos de temáticas propostas no livro: a pessoal (biográfica) e a política (em geral, mais polêmica por natureza). Mas a maioria dos textos mistura os dois aspectos – afinal de contas, o homem é um animal político! Nossa vida pessoal inevitavelmente se mistura às vivências de outras pessoas – não necessariamente de maneira harmoniosa -, por isso a existência da sociedade e do Estado.

Essas duas abordagens estão divididas fisicamente no livro em duas partes: “tempos de vida” e “tempos de luta”. Ou seja, em alguns dos capítulos / artigos / crônicas / relatos, conta um pouco de sua vida, infância, adolescência, família, fé, telenovelas. Na segunda parte do livro, o autor tem uma proposta mais dissertativa do que narrativa, e comenta assuntos como a criminalização da homofobia, direitos humanos, cultura digital, conservadorismo político, educação (como o trecho inicial da resenha. Na verdade, queria postar a “crônica” inteira, mas ficaria muito grande. Educação me é um tema muito caro).

Como são textos reunidos, temas e alguns argumentos são repetidos em diferentes “capítulos”, mas nada que atrapalhe a leitura. São artigos curtos, que vão de duas a umas seis páginas, então é ótimo para ler no ônibus ou antes de dormir.

Particularmente, me agradaram bastante:

  • “Oriente-se, rapaz”, em que Wyllys explica a diferença entre sexo biológico (masculino / feminino), identidade de gênero (com qual gênero você se identifica) e orientação sexual (homossexual / heterossexual – neste texto especificamente ele não fala de bissexuais);

  • “Lado esquerdo”, em que ele esclarece alguns pontos sobre (o que ele considera) ser politicamente “de esquerda” em poucas palavras;
  • “A palavra dos mortos”, que trata das mortes por homofobia no Brasil e no mundo (e como a nossa cultura como um todo “justifica” essas mortes, legitimando, desta maneira, a homofobia);
  • “O retorno do fascismo”, sobre racismo, elitismo e a preservação de privilégios no país (ele usa como trampolim para tal discussão o caso dos rolezinhos de jovens de periferias em shoppings de São Paulo em 2013 e 2014);
  • “O começo do fim da guerra”, texto argumentativo favorável à legalização das drogas. Gostei porque me apresentou pontos que eu nunca tinha pensado a respeito desse assunto, sobre o qual não tenho uma opinião muito sólida;
  • “Casamento igualitário” e “Casamento ou criminalização?”: o primeiro fala sobre a proposta de legalização do casamento (civil) gay nos mesmos moldes que o casamento heterossexual, bem interessante a maneira como Jean Wyllys fala sobre o porquê de rejeitar propostas que apenas “concedem” “união civil” a homossexuais. No segundo, ele conta qual proposta considera que seja mais urgente a aprovação: o casamento gay ou a criminalização da homofobia. Argumentação cristalina.
  • “Orgulho de quê?”, sobre o absurdo que seria o “Dia do Orgulho Heterossexual” proposto por um vereador de São Paulo.
  • “A vida como pensamento”, texto que advoga a necessidade de educação formal ser oferecida a crianças e jovens (cujo trecho inicial está no topo do post).

O bonito desse tipo de livro é que com certeza cada pessoa achará alguns textos mais interessantes que outros, e obviamente eles serão diferentes, dependendo do leitor. Lembrando que o autor é muito lúcido ao escrever, e justifica suas opiniões o tempo todo.

Me fez pensar no quão absurdo e ridículo é que nossa sociedade ainda não tenha percebido a normalidade de tratar pessoas de maneira igualitária (ou de acordo com os princípios de equidade): a aprovação do casamento gay é uma necessidade. E um direito. É inconcebível que isso ainda não tenha sido devidamente discutido. Não faz sentido algum.

Recomendado para quem procura uma boa introdução em alguns assuntos, como questões ligadas à homossexualidade (casamento, homofobia, preconceito, estereótipos), desigualdades de gênero, direitos humanos. Nada muito aprofundado – e, por isso, de leitura leve e acessível -, mas também sem frescura e com bastante clareza.

 

+ info:
Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos / Jean Wyllys.
– São Paulo: Paralela, 2014.
189 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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9 comentários sobre “Tempo bom, tempo ruim

  1. Cintia Kawasaki disse:

    Na, adorei a resenha! Gostei muito do trecho que vc transcreveu, me deixou com vontade de ler. Também gostei de saber quais assuntos ele trata no livro, fiquei especialmente curiosa para saber os pontos que ele levantou sobre legalização das drogas q vc não havia pensado antes.
    Acho o Jean Wyllys bastante lúcido e argumentativo nos discursos e textos dele, vai ser bom ler o livro para entender um pouco mais sobre ele e suas posições políticas. Valeu, Nati! =)

  2. Natasha, você sabe o que tenho vivido nesses últimos meses e acredito que sua resenha abriu uma porta para tentar entender a complexidade desse assunto e, principalmente, quem sabe abrir caminhos através do pensamento para a minha dissertação de mestrado. Quero ler sim e quem sabe combinamos por skype de discutir os pontos opacos da questão. Como sempre um arraso ao escrever. Bjão

  3. Gus disse:

    Nati, ótima resenha. Acompanho o trabalho de Jean Wyllys há um tempo (suas publicações e sua atuação dentro de diversas Comissões no Congresso) e muito me alegra o posicionamento dele em relação aos direitos da minoria e à laicidade do Estado. Seu papel na oposição é de destaque. Eu lia colunas/artigos dele na internet e, sinceramente, não conhecia o livro – fiquei instigado a ler, principalmente por conta da clareza e coerência que você afirma que ele tem. 🙂
    Sobre a legalização das drogas, você já assistiu o documentário “Quebrando o Tabu” com o presidente FHC? Traz uma nova visão sobre o relacionamento da sociedade com as drogas, ajudou muito na formação da minha opinião sobre o tema. Ahhh queria discutir com você diversos desses assuntos abordados e outros também um pouco polêmicos pra saber seu posicionamento!!! Saudades…Beijo.

    • Guuuuuus, vou procurar esse documentário, nunca vi. E realmente, pra mim, é um tema meio nebuloso, assim como as cotas raciais (portanto, não espere que eu tenha aquela velha opinião formada sobre tudo!)… mas cada vez mais formo minha opinião acerca desses temas, vc sabe que adoro conversar sobre essas coisas, ainda mais com vc!!!
      Obrigada pelo comentário, Gus!
      Beijos!

  4. Mylene Ribeiro disse:

    A luta pela liberdade, contra preconceitos étnicos, sexuais, ideológicos, religiosos… parece eterna, mas necessária. Livros como este são sempre bem-vindos!

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