2014, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Ensaio sobre a lucidez

Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago

 “[…] É interessante observar, disse [o ministro do interior], como os significados das palavras se vão modificando sem que nos apercebamos, como tantas vezes as utilizamos para dizer precisamente o contrário do que antes expressavam e que, de certo modo, como um eco que se vai perdendo, continuam ainda a expressar, Esse é um dos defeitos do processo semântico, disse lá do fundo o ministro da cultura, E isso que tem que ver com os votos em branco, perguntou o ministro dos negócios estrangeiros, Com os votos em branco, nada, mas com o estado de sítio, tudo, emendou triunfante o ministro do interior, Não percebo, disse o ministro da defesa, É muito simples, Será simples tudo o que você quiser, mas não percebo, Vejamos, vejamos, que significa a palavra sítio, já sei que a pergunta é retórica, não precisam responder, todos sabemos que sítio significa cerco, significa assédio, não é verdade, Como até agora dois e dois têm sido quatro, Então, ao declararmos o estado de sítio é como se estivéssemos a dizer que a capital do país se encontra sitiada, cercada, assediada por um inimigo, quando a verdade é que esse inimigo, permita-se-me chamar-lhe desta maneira, não é fora que está, mas dentro. Os ministros olharam-se uns para os outros, o chefe de governo fez cara de desentendido e pôs-se a mexer nuns papéis. Mas o ministro da defesa ia triunfar na batalha sematológica, Há outra maneira de entender as coisas, Qual, Que os habitantes da capital, ao desencadearem a rebelião, suponho que não estou a exagerar dando o nome de rebelião ao que está a acontecer, foram por isso justamente sitiados, ou cercados, ou assediados, escolha o termo que mais lhe agradar, a mim é-me totalmente indiferente, Peço licença para recordar ao nosso caro colega e ao conselho, disse o ministro da justiça, que os cidadãos que decidiram votar em branco não fizeram mais que exercer um direito que a lei explicitamente lhes reconhece, portanto, falar de rebelião num caso como este, além de ser, como imagino, uma grave incorreção semântica, espero que me desculpem por estar penetrando num terreno em que não sou competente, é também, do ponto de vista legal, um completo despropósito, Os direitos não são abstracções, respondeu o ministro da defesa secamente, os direitos merecem-se ou não se merecem, e eles não os mereceram, o resto é conversa fiada, Tem toda razão, disse o ministro da cultura, de facto os direitos não são abstracções, têm existência até mesmo quando não são respeitados (…).” (p. 61-62)

Saramago é, definitivamente, um dos meus escritores favoritos (tipo top 3 juntamente com Guimarães Rosa e García Márquez, porque não dá para escolher quem é o primeiro entre esses três).

Num certo país (o mesmo país onde se passa o consagrado e maravilhoso Ensaio sobre a cegueira), é época de eleições. Ali, o voto é facultativo, e uma grande tempestade desanima os eleitores de irem exercer seu direito de voto. Após o fim da tempestade, à tarde, praticamente todos os cidadãos saem de suas casas e vão votar ao mesmo tempo, às 16h, causando filas quilométricas. Algo ainda mais inesperado acontece: um número gigantesco de pessoas (mais de 70%) vota em branco. As autoridades do país ficam extremamente alarmadas; o índice de votos brancos na capital chega a mais de 80%.

Isso significa que os políticos caíram na descrença da população, para eles, esse enorme protesto é, na realidade, uma ameaça real ao sistema democrático e a política do país está claramente em crise. Começa então uma investigação para apurar as causas e os líderes desse evento: espiões e microfones são colocados nas ruas, eleitores são colocados à prova com detectores da verdade (polígrafos). Mas todos os métodos falham miseravelmente. Absolutamente ninguém revela que votou em branco – seja espontaneamente, seja sob pressão. Até que, certo dia, todos os que votaram em branco decidem ir para as ruas e admiti-lo, através de cartazes e passeatas. O governo toma as medidas que considera necessárias: um estado e sítio é declarado (veja o trecho do livro no início do post), decide-se isolar a capital, transferindo a sede do poder para outra cidade, de maneira a obrigar os eleitores da capital a se arrependerem.

A partir daí, inicia-se uma batalha entre os brancosos (população da capital que votou em branco) e as autoridades do país, que deixam a capital para que os “traidores da democracia” provem o caos que é ficar em um local literalmente desgovernado. Para tornar a vida dos brancosos insuportável e justificar suas atitudes radicais, o governo planta uma bomba no metrô e quer encontrar um bode expiatório (a segunda parte do livro trata basicamente disso: uma equipe de investigadores é infiltrada na cidade – que agora não conta com um corpo policial – e começa a verificar a veracidade de uma carta. Tal carta alega saber o cérebro que está por trás dos 83% de votos em branco).

Saramago é mestre nesse tipo de história: algo aparentemente absurdo acontece e ele conta como seriam as reações de toda a sociedade (em Ensaio sobre a cegueira, acontece uma epidemia de cegueira branca sem precedentes e a comunidade mergulha no caos total e absoluto; em Intermitências da morte, a morte deixa de atuar dentro dos limites de um certo país, e com isso, começam enormes problemas – o que fazer com os moribundos?, entre um monte de outras questões; etc.). É simplesmente genial.

O narrador é magnífico (como sempre!), em terceira pessoa, e mostra a maior parte da história do ponto de vista das autoridades: as decisões, as manipulações de acontecimentos na capital, das notícias através da mídia, de discursos e manobras políticas. E, mais do que isso, as surpreendentes reações dos brancosos, que provocam medidas cada vez mais extremas por parte das autoridades; e também os encantadores e misteriosos personagens: uns poucos novos, e alguns retomados do Ensaio sobre a cegueira.

Com seu estilo de escrita único, Saramago reinventa regras de redação: parágrafos longos, pontuações aparentemente fora do lugar e diálogos diretos mas sem travessão são marcas suas. No início da leitura, pode-se estranhar, mas quando nos acostumamos, percebemos o quão dinâmico fica o texto, que intercala momentos da história com reflexões do narrador (ou do autor?). É simplesmente brilhante. Lembrando sempre que é impossível separar a forma e o conteúdo de uma obra: um livro não é apenas seu conteúdo, “o que” ele conta, mas também o “como” se conta a história. Saramago não seria Saramago sem seu uso ímpar da língua portuguesa (neste sentido, penso que ele e Guimarães Rosa se aproximam bastante).

O final também é, como sempre, muito bom.

Ensaio sobre a lucidez forma uma “bilogia”  (ok, inventei a palavra a partir de “trilogia”, mas para apenas dois livros) com Ensaio sobre a cegueira. Primeiro, porque trata da mesma população, do mesmo país e de duas espécies de “epidemias” brancas, além de trazer personagens em comum.

Segundo, por um motivo pessoal: Ensaio sobre a cegueira foi o primeiro livro adulto que li e por que me apaixonei. Em um momento de transição da adolescência para a vida adulta, eu tinha receio de que a literatura para adultos fosse chata e séria (às vezes é mesmo), coisas que Saramago jogou por terra para mim. Percebi que eu poderia amar tanto livros adultos quanto os infanto-juvenis de que gostava. As histórias saramaguianas são ao mesmo tempo dinâmicas e filosóficas, às vezes leves, às vezes pesadas, e sempre boas. Por isso, Ensaio sobre a cegueira foi um marco em minha vida e é um dos meus livros favoritos até hoje. Digo sem medo que Ensaio sobre a lucidez entrou para o mesmo rol. Extremamente recomendado, um dos melhores livros que li este ano!

 

 + info:
Ensaio sobre a lucidez / José Saramago.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
325 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2014, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

As meninas

As meninas, de Lygia Fagundes Telles

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 “Lá fora as coisas podem estar pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro. ‘É preciso ter um peito de ferro pra aguentar esta cidade’, diz a Lião, que cruza esta cidade com sua alpargata azul. Mas não entro na transa e nem quero. Faculdade, cinema, um pouco de clube (clube fechado) uma ou outra lanchonete, compras nas minhas lojas especialíssimas. O oriehnid vem num envelope. Dia de comprar livros e discos, dia de Deus me visitar, Oi, Lorena. Às vezes, o medo, não da cidade (tão remota para mim como seu povo) mas um medo que nasce debaixo da minha cama. Imagine se lesse jornais como a Lião, ela lê milhares de jornais por dia, recorta artigos. Mas seu cabelo já de natureza eriçável também sobe como o pelo do Astronauta quando via fantasma, houve um tempo de fantasma neste quarteirão. Os olhos crescem, as unhas diminuem na roeção, ‘Não sei explicar’, ela começa. E passa duas horas explicando que é preciso tratar o corpo como a um cavalo que se recusa a pular o obstáculo, a chicote. O medo mora nas pupilas. A pupila de Astronauta tão negra invadindo o verde, tinta transbordante até as pálpebras. As pupilas de Ana Clara também dilatadas mas por outros motivos, coitadinha, a droga excita a pupila com a mesma força do medo. Duas rodas pretas. Um brilho. A mentira vem brilhante, mente, ah, tanta mentira seguida. Fecha as mãos e começa a mentir com tamanho fervor, esmerou-se nesse mentir gratuito, sem o menor objetivo.” (p. 60)

Acho que já tinha lido algo da Lygia Fagundes Telles no Ensino Médio; se não me engano, foi o conto As formigas. Na ocasião, a professora explicou detalhes e metáforas do conto fantástico, e me lembro de ter gostado muito!!! Pena que esqueci tudo – a história, os detalhes, as explicações das metáforas… mas qualquer dia leio de novo e tento tirar conclusões próprias.

Resolvi pegar As meninas por indicação de uma grande amiga que curte Lygia Fagundes Telles, Luana, e não me arrependi.

A história se passa nos anos 1970 no Brasil (portanto, tempos de Ditadura Militar) e conta com três personagens principais: Lorena, menina riquinha, mimada e cor-de-rosa que tem um flerte com um médico casado (mas ela mantém-se virgem) e empresta dinheiro às amigas; Lia (Lião), revolucionária e contestadora do regime, filha de baiana com alemão ex-nazista, mais gordinha e de cabelos rebeldes; Ana Clara, belíssima modelo fotográfica e usuária de drogas, apaixonada por um traficante mas presa a seu noivo almofadinha. As três vivem em um pensionato dirigido por freiras em São Paulo, e elas compartilham entre si suas respectivas solidões (que paradoxo!).

Basicamente, nos deparamos com a amizade entre as três garotas e seus respectivos dilemas: Lorena deve ficar com o tal doutor? Lia irá fugir do país como uma opositora do regime? Ana Clara divide-se entre as drogas (representadas também pelo traficante) e seu desejo de ser rica após uma infância difícil?

Apesar das dificuldades, as três são boas amigas e que se apoiam (comecei meio agoniada com Lorena e seus frufrus, mas ela segura as pontas e termina uma personagem completa). Se ficasse só nisso, acredito que seria um enredo entediante, mas existe uma reviravolta no final bem surpreendente!

É impressionante o fato de a primeira edição do livro ter sido publicada em 1973, pleno regime militar, uma vez que o livro contém cenas explícitas de tortura (flashes de amigos de Lia sendo torturados por policiais). Aliás, encontrei uma opinião interessante de Nelson de Oliveira a respeito do livro, com a qual concordo:

“Publicado em 1973, no período mais feroz da ditadura militar, As meninas é um romance corajoso. Enquanto os generais exigiam silêncio, Lygia Fagundes Telles ousava apontar as falhas morais da burguesia brasileira. Por meio de três jovens problemáticas, foram denunciados os vícios públicos e privados de uma sociedade reprimida.
(…)
Neste seu terceiro romance, a autora não investiga a crise sociopolítica indo direto aos fatos, mas esmiuçando as feridas provocadas por essa crise no mundo interior das personagens. As complicadas Lorena, Ana Clara e Lia reproduzem internamente o desequilíbrio externo, perverso.”

Eu sinceramente não sei explicar a escrita de Telles. É maravilhosa e inusitada. Nelson de Oliveira (citado acima) explicou-a como sendo uma escrita felina, por ser “ágil e elegante (…). Se os gatos pudessem escrever ficção, escreveriam como Lygia: atentos aos detalhes, ao desenho sinuoso dos desejos mais sutis, reunindo falas e sensações numa colagem cheia de astúcia, arranhando o leitor na hora em que estivesse distraído.” Ela magistralmente alterna narradores de primeira e terceira pessoa sem que nos demos conta; e além disso, também alterna a primeira pessoa entre as cabeças de Lorena, Lia e Ana Clara. Deve ser algo muito difícil de fazer, totalmente único, e tal recurso dá riqueza e dinamismo ao texto. Por vezes ela até ignora pontuação e parágrafos, de maneira a nos sentirmos, por exemplo, na mente de Ana Clara durante uma “viagem” provocada por drogas: uma rápida sucessão de lembranças e sensações sem pé nem cabeça, envoltas na fumaça azul. Ou qualquer outra coisa desse tipo.

O trecho do início da resenha é do ponto de vista de Lorena; escolhi tal trecho por falar um pouquinho sobre as três personagens.

Lendo o posfácio (muito bem escrito por Cristóvão Tezza), me foi revelado algo que não reparei durante a leitura do livro em si: a história se passa em apenas dois dias. Por isso a sensação de lentidão que tive, acompanhamos pensamentos e ações das personagens em pormenores – principalmente detalhes que consideraríamos sem importância para um romance, como por exemplo Lorena indo esquentar água para um chá (várias vezes); a agulha da vitrola arranhando o disco de Hendrix; as cinzas do cigarro desmoronando no tapete ou no cinzeiro; um gargarejo para se livrar do mau hálito, et cetera, et cetera.

Outra coisa interessante é o fato de as personagens não serem heroínas (como Ayla em Filhos da Terra, Lyra em Fronteiras do Universo, Tris em Divergente); portanto, não têm a “obrigação” de terem qualidades heroicas (fiquei pensando se isso existe, mas acredito que sim), tais como: fidelidade, força moral, caráter, lealdade, coragem. Em As meninas, características consideradas defeitos são constantes, elas são seres humanos falhos como todos nós – e ainda são garotas na faculdade, num processo complexo de amadurecimento e descoberta. Ou seja, elas são egoístas, fazem fofoca (inclusive de umas com as outras), conversam sobre sexo, são chatas de vez em quando, se atrasam. Como todo mundo.

O final me surpreendeu positivamente: adoro bons finais! Mas não posso falar mais nada a respeito…

É uma obra definitivamente recomendada para um público adulto (contém drogas, sexo, violência). Lembrando também que é um livro que não se enquadra na categoria de “fantasia”; apesar de ser ficção, traz realidades bem cruas e cotidianas (dentro de seu contexto). Não é um texto fácil, nem tem uma “historinha” clara – é um daqueles livros em que a pessoa pergunta: “Sobre o que é o livro?” E você não responde nada sobre o enredo, mas sim sobre as personagens: “É a respeito de umas meninas em São Paulo na década de 1970”. E é um livro lento; se tiver pressa, deixe-o para depois.

Definitivamente é uma obra que preciso ler novamente para compreendê-la melhor.

 + info:
As meninas / Lygia Fagundes Telles.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
301 páginas.

classificação:  4 estrelas
(O fim do livro garantiu-lhe uma quarta estrela. Não fosse ele, daria três estrelas, já que demorou para eu “pegar no tranco”.)

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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2014, Ficção, Paralela, Resenha

A vida do livreiro A.J. Fikry

A vida do livreiro A.J. Fikry, de Gabrielle Zevin

“No Natal e nas semanas seguintes, Alice Island ferve com a novidade que o viúvo / livreiro A.J. Fikry pegou uma criança abandonada para criar. É a maior história digna de fofoca que Alice tem já faz um tempo – provavelmente desde que o Tamerlane foi roubado. A cidade sempre o considerara esnobe e frio, e parecia inconcebível que tal homem adotaria um bebê simplesmente porque foi abandonado em sua loja. O floricultor conta uma história sobre ter deixado um óculos de sol na Island Books e voltar lá menos de um dia depois e descobrir que A.J. tinha jogado fora. ‘Ele disse que não tem espaço na loja para achados e perdidos. E isso é o que acontece com um belo Ray-Ban vintage!’, conta o floricultor. ‘Não dá pra imaginar o que vai acontecer com um ser humano.’ Além disso, por anos, A.J. vinha sendo convidado a participar da vida da cidade – patrocinar times de futebol, promover vendas de bolos na loja, comprar anúncio no anuário do colegial. Sempre recusava e nem sempre de maneira educada. Podiam apenas concluir que A.J. tinha se sensibilizado depois da perda do Tamerlane. ” (p. 55)

A autora, Gabrielle Zevin (nascida em 1977), é nova-iorquina, e aparentemente começou a escrever muito jovem (sei quase nada sobre ela, e também não quis pesquisar muito. Se estiver interessado, você pode olhar a página dela na Wikipedia).

Iniciei a leitura deste livro sem saber nada sobre ele – a não ser que é a história de um livreiro, dã, e que rolou um marketing forte do livro por aí. Comprei por acaso (gostei da capa), e decidi lê-lo depois da trilogia Divergente, a qual me deixou um pouco melancólica após seu término (ressaca literária, vocês me entendem!).

Então, tratando do óbvio, vamos à sinopse (aliás, o trecho que escolhi como inicial é ilustrativo de boa parte da história): um apaixonado por livros chamado A.J. Fikry vive na pequena e afastada cidade de Alice Island, onde é proprietário da única livraria dos arredores. Uma livraria que anda abandonada e extremamente sem graça. Isso porque reflete a personalidade de Fikry: é um homem de meia-idade (39 anos), amargurado pela morte de sua linda, alegre e amigável esposa em um acidente pouco tempo antes, e sem tato social. Ou melhor, faz questão de ser antissocial. Uma representante de editora, Amelia, sente isso na pele em seu primeiro encontro profissional com Fikry, mas não desiste.

Certo dia, A.J. embebeda-se em sua própria casa e, no dia seguinte, encontra tudo arrumado e um valioso livro, sumido – é o Tamerlane citado no trecho inicial, uma obra rara e que poderia ser vendida por algumas centenas de milhares de dólares, e que o livreiro contava como sua aposentadoria. Vai à delegacia relatar o roubo e ali conhece o policial e delegado Lambiase, que se tornará seu amigo. Dias depois, outra surpresa: ao voltar para a livraria depois de um pouco de exercício, encontra entre as escassas estantes de livros infantis ilustrados uma garotinha de dois anos, chamada Maya, juntamente com um bilhete de sua mãe. Abandonada, Maya é acolhida temporariamente por Fikry, mas ele se apega à garotinha, que é bonita e muito esperta (esperta demais para o meu gosto! Sabe a ordem alfabética aos dois anos, é possível isso?).

Aos poucos, as vidas dos personagens vão se entrelaçando, e a história se desenvolvendo. Descobrimos o que acontece a Maya, ao Tamerlane, a Fikry.

A escrita é bem fácil de se entender e o livro é curto; os trechos iniciais de cada capítulo (como se fossem anotações de A.J. sobre algum livro), entendemos melhor quando terminamos o dado capítulo, e ainda mais quando acaba o livro.

Apesar de a diagramação ser bonita (páginas amareladas, grossinhas, e com margens de bom tamanho), tem grandes problemas de revisão, palavras em tempo verbal errado, etc., coisas que incomodam bastante.

Sendo muito sincera, achei a obra um pouco boba. Tem mais potencial do que realizou; houve momentos em que pensei que a história daria uma reviravolta, mas nada que tenha me empolgado, infelizmente. Faltou explorar mais os personagens, além de Fikry: a excêntrica e encantadora Amelia e a inteligentíssima Maya, por exemplo, ficaram de lado, apenas orbitando a vida do livreiro. Sei que este é o título do livro, mas ser apenas a vida do livreiro tornou o texto pobre, em minha opinião.

Sinto não ter muito a falar sobre a obra (rasinha demais na minha opinião); talvez este seja o primeiro livro do ano com o qual me decepcionei.

+ info:
A vida do livreiro A. J. Fikry / Gabrielle Zevin; tradução Flávia Yacubian.
– São Paulo: Paralela, 2014.
186 páginas.

classificação:  2 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Hoje tenho um blog literário para indicar, chama-se Livro Arbítrio (http://livroarbitriodotco.wordpress.com/)! Tem boas indicações, boas resenhas, e não tem foco em literatura infanto-juvenil ou jovem adulta, coisa rara hoje em dia! 🙂

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2014, Companhia das Letras, Crônica, Resenha

Nu, de botas

Nu, de botas, de Antonio Prata

 “Minha mãe não gostava que nos referíssemos a Vanda como ‘empregada’, preferia ‘a moça que trabalha lá em casa’. Eu estranhava: por que dizer ‘a moça que trabalha lá em casa’, se a todas as moças que trabalhavam nas casas dos outros, os vizinhos chamavam ‘empregadas’?
***
Um dia, descobri que minha mãe trabalhava numa revista. Revistas, para mim, eram as da Turma da Mônica, que eu folheava avidamente, desde muito antes de aprender a ler. Minha mãe me explicou que a dela era diferente, uma revista para gente grande, mas que era feita no mesmo prédio que as da Mônica. Animado, imaginei pilhas de Cascão, Cebolinha, Mônica e Magali de graça. Pedi que me trouxesse algumas no dia seguinte. Não dava, ela me explicou. Infelizmente, não era a dona da editora, apenas empregada.
Que revelação! Imaginei-a fazendo almoço e café numa enorme cozinha. Vislumbrei seu quarto, no fundo de um quintal. Teria ela, também, uma TV preto e branco? Pintaria as unhas sentada na cama, de bobes na cabeça, cantarolando músicas da novela? Como seria sua vida, depois que saía de casa na Brasília branca e ia ser ‘a moça que trabalha lá na editora’? Que empresa incrível devia ser aquela, que se dava ao luxo de ter minha mãe como empregada.” (p. 13 e 14)

Por favor, por favor, POR FAVOR, se você não conhece Antonio Prata, leia isto, isto e veja isto (este documentário é longo, mas JURO que vale a pena!).

Esse cara é um dos melhores cronistas do país, por seu humor brilhante e senso crítico afinadíssimo. Atualmente, é colunista do jornal Folha de S. Paulo (veja no final do post uma observação sobre uma de suas colunas).

Sou fã. Não adianta nem esconder. Essa pessoa sabe contar histórias de maneira leve, singela, mas sem perder a compostura: tem riso, tem acidez, tem elemento-surpresa. Não é humor bobo nem ofensivo; é humor inteligente.

Nu, de botas traz o que Prata sabe fazer de melhor: crônicas. Mas não são quaisquer crônicas. A temática que as une é a infância do autor. É o adulto que conta, mas sob a perspectiva da criança – um pouco difícil de explicar, talvez o trecho no início da resenha ajude a entender. São quase relatos de suas lembranças infantis, pequenas pérolas de estranhamento do mundo adulto, e de vez em quando, maravilhamento e frustração.

Teve uma crônica em que chorei de rir, literalmente. Não conseguia parar. A sorte é que estava em casa, se não, todo mundo ia me achar maluca. Como testemunha Gregório Duvivier na contracapa, “Ler o livro de Antonio Prata me fez rir e chorar e depois rir de novo do ridículo que foi chorar no aeroporto e chorar pelo ridículo que é ficar rindo e chorando no aeroporto e acabar perdendo o voo e pensar: que bom, vou poder rir e chorar mais um pouquinho”. Bem isso.

Esta é uma obra que dá pra ler em um dia, ou em vários (já que é dividida em crônicas, praticamente capítulos da hilária infância de Prata), e aborda temas como: palavrão, bichos de estimação, uma inusitada viagem à África, dilemas morais (fazer xixi fora do penico pela adrenalina ou fazer xixi no penico e ter como prêmio o sorriso satisfeito da mãe?), gente velha, aversão a cuecas, dúvidas, mulheres peladas, tédio de férias e de viagens de carro, algumas descobertas sobre sexo (apenas descobertas mesmo, como o formato do órgão sexual feminino através de fotos de revistas, etc. Nada físico).

Enfim, acho que deu pra entender. Essa resenha vai ficar curtinha mesmo, sem grandes análises, já que o livro é simples. Só mais um adendo: achei a primeira metade, quando Antonio é menorzinho, mais engraçada que a segunda. Vale a pena!

 

+ info:
Nu, de botas / Antonio Prata.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
140páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

OBS.: Atualização: minha amiga Patrícia me chamou atenção para um texto do Prata em sua coluna na Folha de S. Paulo do dia 31/08/2014, chamado Dupla personalidade. Nele, fala sobre os “tipos” de mulher que a cabeça dele prefere e que o pinto (sic) dele prefere. O texto parece realmente machista, dividindo os tipos de mulher (quase como “mulher pra casar” X “mulher pra pegar”). Não vi repercussão nenhuma sobre isso, mas estou sendo otimista e esperando que seja um texto irônico, como ele já fez brilhantemente.

Obrigada pela leitura!
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2014, Companhia das Letras, Crônica, Não ficção, Paralela, Política, Resenha

Tempo bom, tempo ruim

Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos, de Jean Wyllys

“Pensamos, logo, existimos. O pensamento é, então, o fundamento singular do ser humano: aquilo que nos distingue dos demais seres vivos. Todos nascemos com a capacidade de pensar: raciocinar, abstrair, perceber, experimentar o belo, distinguir o bem do mal conforme as circunstâncias, lidar com as pulsões e as emoções, reconhecer e dar nomes às angústias, dialogar consigo e com os outros – todos nascemos com essa capacidade, mas nem todos a desenvolvemos. Consequentemente, nem todos nos humanizamos. Só nos tornamos humanos de fato quando exercitamos a capacidade de pensar, quando encontramos as condições necessárias para o exercício dessa capacidade.
Parafraseando um verso da poeta Adélia Prado, digo que é preciso que se mate a fome de pão para que nasçam outras fomes. E quais poderiam ser essas fomes? A fome de beleza, de justiça, de amor, enfim, a fome de humanidade. Sem dispor dos meios para satisfazer suas necessidades básicas (matar sua fome de comida e sua sede de água e ter um abrigo para si mesmo e para os seus), a pessoa não pode começar a pensar; logo, não pode começar a existir plenamente – a pessoa não vive, sobrevive. Entretanto, depois de saciadas essas fomes básicas, uma das condições fundamentais para o exercício da capacidade de pensar é a educação de qualidade inclusiva e voltada para a cidadania – e aqui me refiro à educação formal, oferecida pelos sistemas público e privado de ensino, em consonância com a educação informal, aquela proporcionada por outras instituições que não a escola (a família, a religião, a comunidade de que se faz parte e os meios de comunicação.
Sim, a educação é sempre disciplinadora naquele sentido que o filósofo Michel Foucault dá ao termo, ou seja, a educação forma ‘sujeitos’, nos dois sentidos desta palavra: ‘sujeitados’ (às normas da sociedade que engendrou o sistema educacional) e ‘subjetividades’ (identidades, individualidades). Mas ao construir nossa subjetividade, ou seja, ao forjar nossas percepções de nós mesmos, dos outros e do mundo, a educação nos dá o material e nos proporciona o exercício da (re)invenção de nós mesmos e do mundo à nossa volta – dá-nos aquilo que a filósofa alemã Hannah Arendt chama de ‘vida com pensamento’.” (p. 186-187)

 

Jean Wyllys é atualmente deputado federal pelo Rio de Janeiro (PSOL) e luta em defesa de minorias no Congresso Nacional, com destaque para a comunidade LGBT, mas também pessoas com deficiência, tratamento de doenças raras no SUS, profissionais do sexo, entre outras (é possível consultar seu rol de projetos de lei aqui). Talvez alguns o conheçam mais por conta de sua participação no Big Brother Brasil, do qual saiu vencedor, em 2005.

Particularmente, gosto muito da sua maneira de fazer política (pena que não voto no RJ); em terra de bancadas ruralistas, evangélicas, bolsonarísticas, quem tem noção é rei. Wyllys sabe priorizar o que é importante: os seres humanos e suas escolhas e individualidades.

Dito isto (deixando claro que o que foi dito expressa minha visão política pessoal), vamos ao livro. Não é tão fácil classificar o gênero dos textos, eu os colocaria entre a crônica e o artigo de opinião. Formado em jornalismo, Jean Wyllys tem um modo direto de escrever, sem enrolação e sem picuinhas. Há dois tipos básicos de temáticas propostas no livro: a pessoal (biográfica) e a política (em geral, mais polêmica por natureza). Mas a maioria dos textos mistura os dois aspectos – afinal de contas, o homem é um animal político! Nossa vida pessoal inevitavelmente se mistura às vivências de outras pessoas – não necessariamente de maneira harmoniosa -, por isso a existência da sociedade e do Estado.

Essas duas abordagens estão divididas fisicamente no livro em duas partes: “tempos de vida” e “tempos de luta”. Ou seja, em alguns dos capítulos / artigos / crônicas / relatos, conta um pouco de sua vida, infância, adolescência, família, fé, telenovelas. Na segunda parte do livro, o autor tem uma proposta mais dissertativa do que narrativa, e comenta assuntos como a criminalização da homofobia, direitos humanos, cultura digital, conservadorismo político, educação (como o trecho inicial da resenha. Na verdade, queria postar a “crônica” inteira, mas ficaria muito grande. Educação me é um tema muito caro).

Como são textos reunidos, temas e alguns argumentos são repetidos em diferentes “capítulos”, mas nada que atrapalhe a leitura. São artigos curtos, que vão de duas a umas seis páginas, então é ótimo para ler no ônibus ou antes de dormir.

Particularmente, me agradaram bastante:

  • “Oriente-se, rapaz”, em que Wyllys explica a diferença entre sexo biológico (masculino / feminino), identidade de gênero (com qual gênero você se identifica) e orientação sexual (homossexual / heterossexual – neste texto especificamente ele não fala de bissexuais);

  • “Lado esquerdo”, em que ele esclarece alguns pontos sobre (o que ele considera) ser politicamente “de esquerda” em poucas palavras;
  • “A palavra dos mortos”, que trata das mortes por homofobia no Brasil e no mundo (e como a nossa cultura como um todo “justifica” essas mortes, legitimando, desta maneira, a homofobia);
  • “O retorno do fascismo”, sobre racismo, elitismo e a preservação de privilégios no país (ele usa como trampolim para tal discussão o caso dos rolezinhos de jovens de periferias em shoppings de São Paulo em 2013 e 2014);
  • “O começo do fim da guerra”, texto argumentativo favorável à legalização das drogas. Gostei porque me apresentou pontos que eu nunca tinha pensado a respeito desse assunto, sobre o qual não tenho uma opinião muito sólida;
  • “Casamento igualitário” e “Casamento ou criminalização?”: o primeiro fala sobre a proposta de legalização do casamento (civil) gay nos mesmos moldes que o casamento heterossexual, bem interessante a maneira como Jean Wyllys fala sobre o porquê de rejeitar propostas que apenas “concedem” “união civil” a homossexuais. No segundo, ele conta qual proposta considera que seja mais urgente a aprovação: o casamento gay ou a criminalização da homofobia. Argumentação cristalina.
  • “Orgulho de quê?”, sobre o absurdo que seria o “Dia do Orgulho Heterossexual” proposto por um vereador de São Paulo.
  • “A vida como pensamento”, texto que advoga a necessidade de educação formal ser oferecida a crianças e jovens (cujo trecho inicial está no topo do post).

O bonito desse tipo de livro é que com certeza cada pessoa achará alguns textos mais interessantes que outros, e obviamente eles serão diferentes, dependendo do leitor. Lembrando que o autor é muito lúcido ao escrever, e justifica suas opiniões o tempo todo.

Me fez pensar no quão absurdo e ridículo é que nossa sociedade ainda não tenha percebido a normalidade de tratar pessoas de maneira igualitária (ou de acordo com os princípios de equidade): a aprovação do casamento gay é uma necessidade. E um direito. É inconcebível que isso ainda não tenha sido devidamente discutido. Não faz sentido algum.

Recomendado para quem procura uma boa introdução em alguns assuntos, como questões ligadas à homossexualidade (casamento, homofobia, preconceito, estereótipos), desigualdades de gênero, direitos humanos. Nada muito aprofundado – e, por isso, de leitura leve e acessível -, mas também sem frescura e com bastante clareza.

 

+ info:
Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos / Jean Wyllys.
– São Paulo: Paralela, 2014.
189 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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