Distopia, Ficção, Filme, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Trilogia Divergente

 Trilogia Divergente, de Veronica Roth

 

*ATENÇÃO: esta é uma resenha longa pois fala sobre três livros e no final, faço um comentário sobre o filme Divergente.

Veronica Roth é uma escritora norte-americana nascida em Nova Iorque em 1988. Iniciou o lançamento da série de livros em 2011, os quais se revelaram um sucesso imediato (best-seller do NY Times e o primeiro lugar entre os mais vendidos).

 

As sinopses de cada livro serão descritas a seguir, separadamente. Ao final, faço um apanhado com comentários e minha opinião sobre a série em geral.

Volume 1:  Divergente

Este primeiro volume da trilogia nos situa no mundo pós-apocalíptico de Chicago, em algum período não especificado (como acontece nas distopias, no futuro): uma cidade cheia de prédios de tijolos, concreto, cabos de energia elétrica, mas parcialmente abandonada. Esta sociedade dividiu-se, em algum momento do passado, em cinco facções, cada qual com seu papel social e suas características (qualidades e defeitos):

A Abnegação valoriza o altruísmo e condena o egoísmo. É a facção responsável por governar e organizar a cidade (teoricamente, pensam no bem comum, e não em proveito próprio). Cuidam dos sem-facção. Seus membros se vestem da cor cinza.
A Franqueza é a facção que valoriza a honestidade acima de tudo, ali a mentira é banida. Cuidam da justiça e seus membros se vestem de preto e branco.
A Amizade desgosta de disputas e evita confrontos; cuida da alimentação da população, vive em fazendas além dos muros da cidade. Na Amizade, as pessoas se vestem de vermelho e amarelo (no filme, é laranja).
Erudição é a facção do conhecimento, onde a ignorância é considerada a origem de todo o mal. Os eruditos vestem-se de azul claro (no filme, qualquer tom de azul).
A Audácia é responsável pelo policiamento da cidade, seus membros são destemidos, e não raro, bem sem noção. Vestem-se de preto.
Existem também os sem-facção, que são pessoas que não completaram seus treinamentos dentro de uma facção ou foram expulsas de lá. São párias da sociedade, e fazem os trabalhos mais indesejados por aqueles que têm facção: motoristas, faxineiros, etc.

As facções se organizam geograficamente como se fossem bairros, e cada uma delas reflete seus valores: a Abnegação possui prédios simples, cinzentos, quadrados e sem adornos; a Erudição, prédios envidraçados, iluminados e repletos de livros e computadores; a Audácia, um local subterrâneo, cheio de irregularidades, e assim por diante.
(Isso se parece muito com Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, em que a sociedade é dividida em castas para que possa haver uma harmonia social, e cada uma delas se veste de uma cor e tem uma função dentro do corpo social. Em 1984, de George Orwell, existem também os “sem-facção”, são os proletas.)

O início do livro gira em torno de uma escolha que todo adolescente deve fazer aos 16 anos: em qual facção quer ficar para o resto de sua vida. Para facilitar, antes da escolha há um teste que direciona suas habilidades e encaixa sua maneira de pensar em alguma das cinco facções.

A protagonista do livro chama-se Beatrice, tem 16 anos e vai participar da cerimônia de escolha em breve. Vive com sua família (pai, mãe, irmão) na Abnegação e, portanto, seus valores sempre foram ligados ao altruísmo, ajudar os outros, nunca pensar em si mesmo. Mas Beatrice sente-se diferente. Ela não tem certeza de que é tão altruísta assim, às vezes se preocupa com ela mesma mais do que deveria e sente não pertencer totalmente à sua facção.

Ao fazer o teste, que consiste numa simulação em que ela deve fazer algumas escolhas, seus testes são inconclusivos. Isto é alarmante, uma vez que raramente acontece. Significa que Beatrice tem tendências para mais de uma facção (é uma divergente), e isso é considerado perigoso por alguns líderes – é, de certa maneira, uma fuga da ordem estabelecida. Portanto, ela deve manter essa informação em segredo, e fazer sua escolha (em qual facção deve ficar para o resto de sua vida?) baseada em seus instintos.

O que eu contei é só o início do livro. Beatrice passará por muitas provações ao longo da história. Se você não quiser saber o que acontece, não leia a seguir. Pule para o final (minhas impressões da série). Não acho que o que vou contar seja spoiler, mas pode ter gente que considere. Vou contar o que acontece, em linhas gerais, no livro; o legal mesmo é saber como tudo acontece.

+ info:
Divergente / Veronica Roth; trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
502 páginas.

 Ainda sobre o livro 1 (SPOILERS): Beatrice acaba por escolher a facção Audácia, o que surpreende a todos, inclusive sua família. Ela é a única transferida da Abnegação para a Audácia, os outros transferidos vêm de outras facções (Erudição e Franqueza). A partir de sua escolha, ela deve se adaptar a um modo de vida completamente diferente (em alguns sentidos, oposto ao que estava acostumada): extrovertido, agressivo, de grande resistência física e psicológica, e sem seus pais e irmão. Para ser aceitos na Audácia, os novatos devem passar por um treinamento muito duro que envolve combate, manejo de armas, enfrentamento de medos; se não forem aprovados, se tornarão sem-facção. Nesse meio-tempo, Tris (o novo nome de Beatrice) faz amizades e envolve-se amorosamente com Quatro, um dos instrutores do treinamento. Juntos, eles descobrem que a facção Erudição se associou aos líderes da Audácia, e desenvolveu um “soro da obediência” o qual é injetado em todos os membros da Audácia, a fim de criar um exército obediente (praticamente zumbi!) para combater sua ex-facção, a Abnegação (onde ainda estão seus pais) e tomar o poder. Tris não é atingida pelo soro por ser uma divergente, e fica consciente durante todo o processo. Ela não pode revelar que não está sob o efeito do soro, se não, saberão que é uma divergente e com certeza ela não sobreviverá.

Volume 2: Insurgente

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro livro.

Após uma dura batalha contra Jeanine, a líder da Erudição, Tris, Quatro e algumas outras pessoas fogem para se esconder na Amizade, as fazendas no entorno da cidade, cuja atitude é de aparente neutralidade. Ali, descobrem algumas informações sobre a guerra que está por vir envolvendo as facções, enquanto cada uma escolhe um lado e Tris e Quatro são foragidos da Erudição e da Audácia.

Neste volume, conhecemos melhor as outras facções (Amizade, Franqueza), e a trama toda corre em torno de descobertas a respeito dos planos da Erudição (por que atacaram a Abnegação tão impiedosamente? O que eles pretendem? Como realizarão tudo isso? Qual será o futuro da sociedade de facções?) e da caça a Tris e Quatro. O romance entre os dois fica mais real neste volume, com brigas, irritações, dúvidas e grandes dilemas. O perigo de morte e traição está sempre próximo.

+ info:
Insurgente / Veronica Roth, trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
511 páginas.

Volume 3: Convergente

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro e ao segundo livros.

Neste terceiro volume, alguns personagens descobrem a verdade sobre sua sociedade e todo o sistema de facções. Digamos que eles saem da Matrix e passam a conhecer o propósito e a intenção de tudo aquilo, o que obviamente bagunça suas crenças e certezas.

Achei um pouco esquisita uma mudança que a autora fez neste livro: ela intercala capítulos na visão de Tris e na visão de Quatro, coisa que ela nunca havia feito nos livros anteriores, por isso achei estranha. Mas é fácil nos acostumamos a esse sistema, e tal escolha faz sentido no final das contas.

Convergente é mais lento que os outros, porque tem um volume maior de informações e menor de ações (não se engane, ainda assim tem muita coisa acontecendo!), demorei mais para terminar que os demais. Ainda assim, o final é eletrizante, vale muito a pena! Quando terminei de lê-lo, até fiquei em dúvida se este não foi o volume mais interessante. Talvez não, por conta da originalidade da narrativa do primeiro, mas ainda não me decidi.

+ info:
Convergente / Veronica Roth, trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
526 páginas.

O que achei da série:

Distopia é um gênero que vem tomando volume nos últimos anos, especialmente entre jovens. A distopia é, na realidade, a antítese da utopia (uma sociedade ideal, com um governo incorruptível e que resolve os problemas visando sempre o bem comum, como ocorre em A República, de Platão, ou em Utopia, de Thomas Morus). Segundo a Wikipedia, as distopias são “geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, ‘caem as cortinas’, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.” A mesma página da Wikipedia lista características que comumente encontramos na literatura distópica (como 1984, de George Orwell, ou Admirável mundo novo, de Aldous Huxley), que aqui reproduzo:

  • Tem conteúdo moral, projetando o modo como os nossos dilemas morais presentes figurariam no futuro;
  • Oferecem crítica social e apresentam as simpatias políticas do autor; [frequentemente isso ocorre por oposição, ou seja, o autor apresenta uma sociedade da qual ele discorda politicamente*]
  • Exploram a estupidez coletiva; [ou a fácil manipulação da população]
  • O poder é mantido por uma elite, mediante a somatização e consequente alívio de certas carências e privações do indivíduo;
  • Discurso pessimista, raramente “flertando” com a esperança; [geralmente, o discurso da elite que governa está pautado na felicidade calma e estável, ou seja, em como a sociedade está boa agora, controlada, em ordem, a fim de não incitar grandes convulsões sociais. A liberdade é um valor temido por esses governantes]
  • Violência banalizada e generalizada.

* Os comentários em itálico e entre colchetes são acréscimos meus.

Particularmente, sou muito fã de distopias, pois acredito que elas escancaram falhas de nossa própria sociedade (ao ler 1984, minha cabeça “explodiu” com a questão da vigilância permanente, falta de privacidade, controle total; em Admirável mundo novo, temos uma política do pão e circo levada ao extremo, com drogas “da felicidade” sendo distribuídas à população a fim de que, drogada, ela seja manipulável e acrítica).

Um exemplo atual de distopia que fez muito sucesso foi a trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, a qual também traz essa questão do pão e circo muito ampliada pelo reality show que é a arena dos Jogos.

Divergente se encaixa nesse molde, e ainda pertence ao gênero chamado de “jovem adulto” (ou young adult em inglês), livros que tratam da transição entre a adolescência e a vida adulta dos personagens principais, e que têm tido enorme aceitação no mercado editorial brasileiro.

Gostei bastante da ideia da autora das facções e, principalmente, do processo de seleção / escolha que os jovens têm que enfrentar aos 16 anos – uma escolha permanente e irreparável. Me fez pensar em uma versão mais extrema dos vestibulares, por conta de toda pressão, da sensação que temos ao prestá-lo de que aquela é a nossa única chance e não podemos falhar, etc.

De escrita MUITO fácil, a leitura é rápida. O tempo todo na série tem alguma coisa acontecendo, e ficamos curiosos para saber do que se trata. A narrativa é em primeira pessoa, pelos olhos de Tris – exceto no terceiro volume, onde se intercalam as visões de Tris e de Quatro como narradores. Os mistérios do primeiro livro não são tão misteriosos assim (é possível encaixar as peças do quebra-cabeça da trama bem antes que a protagonista o faça, o que inevitavelmente nos faz pensar que ela é um pouco lerdinha de vez em quando). Em Insurgente e Convergente, parece que melhora um pouco nesse sentido.

Sobre Tris, ou Beatrice, nossa protagonista, ela é bem “real”: cheia de dúvidas (assim como Katniss de Jogos Vorazes, mas menos chata e insegura), baixinha, não muito bonita (seu próprio par romântico admite isso!), e ainda assim uma heroína nos moldes tradicionais (no final deste post falo um pouco sobre a jornada do herói proposta por Campbell), pois é corajosa, segura e tem princípios e caráter fortes. Uma personagem bem construída.

Essa foi uma heroína que não me irritou (diferentemente de Ayla!), com exceção dos momentos pseudorromânticos do primeiro livro, em que ela não percebe que o cara gosta dela nem quando ele põe a mão em sua cintura, ou aproxima o rosto de seu queixo e fica olhando-a nos olhos e coisas do tipo. Aí achei ela tapada mesmo. Ainda sobre o romance em Divergente, tirou um pouco o foco da parte interessante (a percepção da manipulação, a tensão dos treinamentos, etc.), mas entendo que é algo que adolescentes gostam de ler (eu é que estou lendo na época errada da vida!). Se não acrescenta muita coisa (uns dramas de vez em quando), também não é algo que atrapalhe a história. A partir do segundo livro, o romance toma um papel mais crucial na história, deixando de ser dispensável.

A violência está presente: armas, lutas, guerras e sangue são constantes na trilogia, e por isso não é muito recomendável para crianças. Adolescentes e adultos com certeza já viram coisas piores nos telejornais.

É uma trilogia que intercala questões mais internas (dúvidas, decisões, dor, morte, culpa) e faz pensar sobre nosso mundo – questões como vigilância e (falta de) privacidade, manipulação, governo, confiança, ordem e tensão social, pobreza, poder.

Valeu a pena ler. Fiquei com uma baita “ressaca” depois desse livro (coisa que não é tão comum para mim), pensando no ambiente deles, nos personagens, etc… :/ Precisei de, tipo, um dia para me recuperar.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público adolescente e jovem adulto)

Divergente, filme, 2014

Para falar a verdade, assisti ao filme antes de ler o livro, e foi ele que me despertou a curiosidade para a história. Achei um filme divertido, embora algumas coisas fiquem no ar (é claro, não dá para incluir tudo que tem num livro de 500 páginas em um filme de duas horas).

Depois que li, percebi que algumas coisas foram modificadas para se encaixarem no filme, mas nada que comprometa muito a história. A questão do romance também me incomodou um pouquinho, mas provavelmente seja porque esse não é o tipo de cena que eu mais valorize. Como é de se esperar, alguns personagens são mais parecidos com as descrições do livro do que outros: me chamaram muito a atenção Quatro e a mãe de Tris. A própria protagonista está bem parecida.

Se está em dúvida se deve ler o livro ou não, veja o filme. Mas saiba que o livro será muito parecido (então se você assistir ao filme antes, já descobrirá o que acontece no livro; as cenas ficam na cabeça na hora de ler). Abaixo, no “+ info”, há um link para o trailer.

+ info:
Divergente / Direção: Neil Burger.
– Estados Unidos, 2014.
Ficção científica, aventura.
2h19min.
Trailer (legendado)

classificação: 4 estrelas

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5 comentários sobre “Trilogia Divergente

  1. Carol disse:

    ADOREI a resenha! Já vi omfilme e também fiquei curiosa em relação ao livro… fiquei com medo de ser muito infantil, mas possivelmente darei uma chance 😉 BJs.

  2. É o tipo de livro que não costumo ler (salvo Jogos Vorazes, e msm assim, só gostei mais do primeiro), mas vc tem um jeitinho tão bom de escrever que a gente pensa, pô, quero ler agora! rsrssr Adoro seu blog, é td lindo, letra grande, cool, nossa… gosto tanto dele que vou recomendar para o pessoal lá no Livro Arbítrio! Bjus!

  3. Infantil que sou, acho que vou amar!!! Hahahaha sua resenha ficou excelente, Toka! O ponto central da história já tinha me interessado pelo filme, mas não sabia bem o que esperar da série de livros, mas seus comentários me animaram muito! Já estou curiosa para saber tudo que acontece. Suas resenhas são tão cativantes que até os spoilers são bem vindos, já que ao invés de estragar a leitura, nos deixam mais ansiosos. Você realmente sabe fazer isso e sabe inspirar a ler, toka! Parabens muito obrigada!

    • Muitooooooo obrigada, Nai!!! Na verdade, acho que esse tipo de livro agradaria a muita gente, se não houvesse o preconceito com livros infantis, infanto-juvenis ou, nesse caso, jovens adultos. 🙂
      Só tem que ver se vc curte distopias, tem gente que não gosta. Se vc gostar, recomendo MUITO.
      Beijooooooooos

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