2014, Favoritos, Ficção, L&PM, Resenha

Frankenstein

Frankenstein, de Mary Shelley

 “Um dos fenômenos que havia atraído particularmente minha atenção era a estrutura do corpo humano e, na verdade, de qualquer ser dotado de vida. Muitas vezes eu me perguntava de onde provinha o princípio da vida. Era uma questão ousada e que sempre foi considerada um mistério; no entanto, com quantas coisas não poderíamos nos familiarizar se a covardia ou a displicência não impedissem nossas pesquisas? […] Familiarizei-me com a anatomia, mas isso não era o suficiente; eu deveria observar a desintegração e a corrupção naturais do corpo humano. […] Eu via como a bela forma do homem se degradava e se decompunha; eu assistia a corrupção da morte suceder à florescência da vida; contemplava como os vermes herdavam as maravilhas do olho e do cérebro. Eu parava, examinando minuciosamente as causas como, por exemplo, a transformação da vida em morte, e da morte em vida, até que, do meio dessas trevas, se fez uma luz súbita sobre mim – uma luz tão brilhante e maravilhosa, e no entanto tão simples que, enquanto eu tonteava com a intensidade da perspectiva que ela oferecia, surpreendi-me de que, entre tantos homens de gênio que se dedicaram aos mesmos estudos, a mim apenas estivesse reservada a descoberta de um segredo tão poderoso.” (p. 58 e 59)

Frankenstein virou uma história tão famosa, que praticamente todos já a conhecem por cima: um certo doutor cria um monstro que aterroriza uma cidade.

Em verdade, o original Frankenstein não é exatamente o que o senso comum diz sobre ele: para começar, Frankenstein é o nome do criador, e não do “monstro”. Segundo, o livro não é tão de terror assim na minha opinião, tudo depende do ponto de vista. Mais pra frente explico.

A história de como Mary Shelley escreveu o livro é muito interessante. Casada com  o poeta Percy Shelley, foram passar umas férias em 1816 na mansão de Lord Byron, poeta bastante famoso. Um clima chuvoso propiciou que ficassem dentro de casa contando histórias de terror, e lançaram entre si um desafio de escrever algum conto assustador. Ninguém levou muito a sério, até que a ideia veio à mente de Mary e, incentivada pelo marido, estendeu-a até que virasse um romance. O fato de ideia ter sido tão genialmente aproveitada (justamente por quem não era escritor!) faz com que a narrativa seja ainda mais interessante. Ah, ela tinha 19 anos quando escreveu esse livro. DEZENOVE ANOS.

O início da narrativa parece um pouco confuso, pois não trata de nenhum dos personagens propriamente ditos, mas sim de uma expedição à Antártida, a qual encontra um homem à beira da morte e muito deprimido o qual, descobrimos, vem a ser Victor Frankenstein. Após ganhar a confiança do náufrago, o capitão do navio da expedição, passa a nos contar a história de Frankenstein como se vinda da boca do próprio: ou seja, o narrador é Victor Frankenstein, e quem registra sua história é o capitão do navio em expedição no polo Norte.

Para começar, os acontecimentos do livro passam-se no século das Luzes (XVIII), em que a elite europeia buscava um ideal de razão e ciência, em oposição aos resquícios de superstição atribuídos à Idade Média. “Buscava-se um conhecimento apurado da natureza com o objetivo de torná-la útil ao homem moderno e progressista”. Victor não foge desse cenário: é o típico amante de Ciências Naturais da época, desde sua adolescência. Sai de sua pequena vila na Suíça para uma universidade, onde desenvolve ainda mais seu amor sua obsessão principalmente pela Química, e começa a perseguir um ideal aparentemente impossível: descobrir o princípio da vida – o qual, sabemos, ele conseguirá. Mais do que isso, ele ultrapassará o “limite” e, de fato, criará uma nova vida: um grande cadáver masculino “montado” por ele. Porém, Frankenstein não sabe lidar com isso. Surta, fica doente, e a criatura desaparece.

Após recuperar sua saúde, e sem conseguir contar a ninguém o absurdo que é sua história, um crime acontece em sua cidade natal, e Victor volta a ela, reencontrando a origem de seus pesadelos, o gigante criado por ele. O doutor Frankenstein fica muito perturbado com o fato de ser ele próprio o criador daquele ser horroroso, o qual (em sua visão) só pode fazer o mal a todos à sua volta. Em minha opinião, o ponto alto do livro é o encontro entre criador e criatura, no meio da obra, e seu diálogo, a partir do qual compreendemos muita coisa.

Li pela primeira vez este livro no Ensino Médio (acredito que em 2003 – obrigada à professora Esther Rosado, pela indicação), e entrou para minha lista de favoritos. Nesta releitura, as impressões mais fortes que eu tinha da obra foram retomadas, falo sobre elas a seguir.

Para mim, Victor Frankenstein é um homem extremamente dramático e que não soube lidar com as circunstâncias e as consequências de seus atos. O ar de terror que caracteriza o gênero da história reside na mente do doutor-narrador, e por isso eu não o considero um livro de terror propriamente dito. Não fiquei com medo do “monstro”. Nos encontros entre criador e criatura, temos um criador vingativo, amargo, magoado – e, acima de tudo, culpado por ter criado uma abominação, segundo ele mesmo – e uma criatura angustiada mas sensata, desesperada por coisas que nos fazem mais humanos (companhia, reconhecimento, carinho). É mais um romance sobre crime, aventura, natureza humana e ética.

É inevitável pensarmos na situação entre “divino” e “terreno”, intenção ou não de criação, arrependimento ou não. A partir do momento em que Shelley nos coloca um ser humano como criador, questões como essas vêm com toda força à nossa mente: e se fosse eu o criador? E se fosse eu a criatura? Por isso é difícil julgar Frankenstein por seus sentimentos tão carregados: ainda acho que ele seja covarde, egoísta e esteja errado em suas posturas, mas será que eu não agiria da mesma forma? E, em relação à criatura, este também é o perigo: suas ações são extremamente condenáveis, mas compreensíveis, dado o contexto.

Na edição da L&PM, a qual li, existe um posfácio escrito por Harold Bloom, que traz à luz muitas questões interessantes, sendo que as que mais chamaram minha atenção foram:

O nome original da novela é Frankenstein: ou o moderno Prometeu. Segundo a Wikipedia, na mitologia grega, Prometeu foi um semideus (algumas versões o tratam como titã) “defensor da humanidade, conhecido por sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Zeus e o dar aos mortais. Zeus teria então punido-o por este crime, deixando-o amarrado a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado – que crescia novamente no dia seguinte”. Isso realmente se encaixa com perfeição no papel do dr. Victor Frankenstein – ainda mais se considerarmos o fogo de Zeus como sendo o conhecimento, ou o “fruto proibido” da Bíblia. Como sabemos, quem prova do fruto proibido (ou rouba o fogo sagrado) não sai impune. Para os gregos antigos, o castigo de Prometeu foi um sofrimento eterno: o de ter uma águia comendo seu fígado todos os dias (o fígado é um órgão que possui de fato um grande poder de regeneração, e sua simbologia se associa à raiva, à amargura, e até à “sede de poder divino”). Nada se encaixaria melhor ao personagem Frankenstein, um ser atormentado pelas consequências de sua mais ambiciosa tarefa: a de descobrir os segredos (considerados divinos) da vida e da morte, e pô-los em prática (desobediência). Ou seja, o doutor tornou-se um deus para sua criatura, e isso foi um fardo quase maior do que ele pôde carregar, e por isso seu sofrimento constante e eterno. Inclusive, o fogo aparecerá no finalzinho do romance, retomando o mito de Prometeu.

“Prometheus Bound”, pintura a óleo de Rubens (1611-1612)

Outro ponto interessante trazido por Bloom foi que o criador e a criatura são duas metades antitéticas do mesmo ser. Talvez o monstro seja justamente uma ampliação de seu criador:

“Embora mais odiado do que amado, o monstro é a representação total do poder criador de Frankenstein e mais imaginativo do que seu criador. O monstro é, ao mesmo tempo, mais intelectual e mais emocional que seu criador; com efeito, excede de muito Frankenstein (e do mesmo modo) como o Adão de Milton excede o Deus de Milton n´O Paraíso Perdido. O maior paradoxo e a mais espantosa realização da novela de Mary Shelley é que o monstro é mais humano do que seu criador. Este ser sem nome, tanto um Moderno Adão quando seu criador um Moderno Prometeu, é mais digno de amor que seu criador e mais odioso, mais digno de pena e quem mais se deve temer (…)”. (Harold Bloom, p. 265)

As primeiras 100 páginas do livro são carregadas das preocupações de Frankenstein, que se amaldiçoa constantemente por ter criado um ente tão horrendo aos seus olhos, por isso a leitura torna-se um pouco cansativa, repetitiva. Mas essas partes são compensadas nos momentos de diálogo entre criador e criatura. Reproduzo um trecho a seguir, que acredito que exemplifique muito do que argumentei acima (SPOILER ALERT!!! – mas não acho que vá estragar a história). Nesta parte, Victor encontra-se com sua criatura (a qual não tem nome) e fala com ela pela primeira vez:

[Victor Frankenstein]* – Vai-te! Não quero ouvir-te. Não há qualquer ligação entre nós. Somos inimigos. Afasta-te, ou vamos medir nossas forças numa luta em que um de nós dois deve morrer.

[Criatura] – Como poderei sensibilizar-te? Será que nenhuma súplica faz com que olhes com benevolência para a tua criatura que implora tua bondade e compreensão? Acredita-me, Frankenstein, eu era bom; minha alma estava cheia de amor pela humanidade; mas não estou só, miseravelmente só? Tu, meu criador, me detestas; que posso, pois, esperar de teus semelhantes, que nada me devem? Eles me desprezam e me odeiam. As montanhas desérticas e as geleiras lúgubres são o meu refúgio. Vagueio por aqui há muitos dias; as cavernas geladas, que eu não temo, me servem de abrigo, o único que o homem não me disputa. Eu saúdo esses céus desolados, pois eles são melhores para mim do que os teus semelhantes. Se toda a humanidade soubesse da minha existência, faria como tu, armar-se-ia para a minha destruição. Não devo, pois, odiar aqueles que me detestam? Não terei contemplação para com os meus inimigos. Eu sou um miserável, e eles devem compartilhar da minha desgraça. No entanto, está em tuas mãos, recompensar-me, e livrá-los de um demônio que poderás fazer tão grande que não somente tu e tua família, mas milhares de muitos outros serão envolvidos no furacão de sua raiva. Sê compassivo e não me desprezes. Escuta a minha estória; depois, então, abandona-me, ou tem pena de mim, conforme achares que eu mereço. Escuta-me, porém. Os culpados, por mais sanguinários que sejam, têm, pelas leis humanas, o direito de se defender, antes de serem condenados. Escuta-me, Frankenstein. Tu me acusas de ser um assassino e, no entanto, tu, com a consciência satisfeita, me destruirias, a mim que sou tua criatura. Oh, viva a eterna justiça dos homens! No entanto, eu não te peço para me poupares; escuta-me e, depois, se puderes, ou se quiseres, destrói a obra de tuas mãos.

[Victor Frankenstein] – Por que insistes em recordar esses fatos – respondi eu – dos quais sou origem e autor, e que só de pensar me dão calafrios? Maldito seja o dia em que viste a luz pela primeira vez! Malditas (embora eu amaldiçoe a mim mesmo) as mãos que te criaram. Tu me desgraçaste além do que se possa imaginar. Não me deixaste o poder de pensar se sou ou não justo. Vai-te! Livra-me da visão de tua forma odiosa.” (p. 116 e 117)

*Os trechos entre colchetes são acréscimos meus.

Em relação à linguagem, é mesmo típica do século XIX, e bem internalizada, o que caracteriza o estilo romântico – perseguido claramente por Mary Shelley, influenciada por seu marido Percy Shelley e seu amigo Lord Byron. Victor Frankenstein é ego puro.

É considerado um livro de terror porque: 1) a criatura é descrita como horrenda, o que assustaria qualquer um; 2) a criatura torna-se extremamente má, mas somente para seu criador. Dessa maneira, Frankenstein, sim, é aterrorizado pelo “demônio”. Não sei os demais leitores, mas eu sinto muito mais compaixão pela criatura (que foi, de certa forma, sensata) do que pelo criador, que não soube lidar com as circunstâncias. O que chama a atenção são algumas reflexões extremamente interessantes provocadas pelo livro – as quais são a real força dessa narrativa: a questão do criador e da criatura; o poder da ciência para o “bem” e para o “mal”; o conflito por falta de compreensão do outro; nossos demônios internos.

A edição da L&PM tem alguns errinhos (falta de vírgula ou de acento), mas nada que prejudique grandemente a leitura. Só faltou revisão.

Enfim, obra muito recomendada para quem gosta de existencialismos (eu adoro!). Diria que é quase obrigatória.

 

+ info:
Frankenstein / Mary Shelley [Wedstonecraft]; tradução de Mécio Araujo Jorge Honkins.
– Porto Alegre: L&PM, 1997.
276 páginas.

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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11 comentários sobre “Frankenstein

  1. Nossa, que puta análise! Parabéns 🙂
    Apesar de não ser o maior fã de existencialismo, lembro que gostei muito quando li esse livro no colegial. Concordo que não é exatamente uma obra de terror

  2. Não faço ideia do grau de consciência de Mary Shalley e seu incentivador e marido Percy Shalley, quanto ao alcance de sua obra. Afinal eram intelectuais que, pelo que contou e acabei de saber, deviam estudar a psique humana na fonte da mitologia. Só sei dizer que nunca foi me recomendado seu livro, e aos 19 anos, e muitos anos mais além, a única coisa que me vinha a mente quando se falava em Frankstein, era a figura caricata do “monstro”, até meio bobo, com um parafuso na cabeça ou pescoço. Nada que me fizesse filosofar. Foi através do cinema, que “descobri”, inicialmente de uma forma tímida, a relevância desta obra. Como filme, talvez não o enquadrasse como terror, porque não se parece em nada com os que assim são classificados, mas como literatura não duvidaria em dizer que não há nada mais aterrorizante do que a questão “Criador X Criatura” e tudo que ela envolve. Vou ler com certeza!!

  3. Oi Nati!!!
    Análise maravilhosa!

    Muito profundo o diálogo citado, ele me lembra alguns salmos de Davi, poemas que apresentam falas sinceras, às vezes até chocantes, de criatura para Criador.

    Estamos estudando nesta semana um pouco da obra, também não citei Frankenstein como terror, coloquei na categoria ficção científica. É claro, uma ficção que não serve apenas para entreter, tem profundidade. Aliás, tenho ficado espantada com certas obras de ficção científica e a profundidade que apresentam, elas derrubam algumas reservas minhas.

    O blog está cada vez melhor! Obrigada 🙂

    • Ziiiiiii, MUITO obrigada pelo comentário, vc é uma linda! 🙂
      Frankenstein acaba sendo um dos meus livros favoritos, apesar de não se encaixar em nenhum dos meus gêneros preferidos, o que é muito curioso! E é justamente por conta dessa profundidade, e dos personagens criador e criatura! Inevitável não pensar nas relações de homem com Deus (dúvidas, confiança, etc.).
      Beijos!

  4. Cezar disse:

    Olá, gostei demais, concordo contigo de que a criatura é sensata e também carente de amor humano. O criador sim, “Frankenstein”, é o monstro por causa dos sentimentos repulsivos dele para com a criatura. E outra, em breve, vou tatuar o rosto da criatura em meu corpo, rsrs.

    • Oi, Cezar!!!
      Obrigada, também adoro este livro, e a releitura me fez sentir várias coisas parecidas com o que havia sentido na leitura anterior (feita há uns 10 anos!). Me deu uma angústia ver a questão existencial da criatura, e concordo que há uma inversão quanto ao papel de “monstro” nesse caso! Foi o Dr. Frankenstein quem causou a revolta e violência de sua criatura, e ele poderia ter acabado com ela também e não o fez.
      Jura que vc vai tatuar?! Que demais! Depois posta uma foto pra eu ver!
      Muito obrigada pela sua visita e comentário! 🙂
      Abraços!
      Nati

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