2014, Companhia das Letras, Favoritos, Ficção, Resenha

As virgens suicidas

As virgens suicidas, de Jeffrey Eugenides

“Na manhã em que a última filha dos Lisbon resolveu que tinha chegado a sua hora de se suicidar – foi Mary desta vez, e remédios para dormir, como Therese – os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficava a gaveta de facas, o forno a gás e a viga no porão, na qual era possível atar uma corda. […] Cecília, a mais jovem, com apenas treze anos, foi a primeira, cortando os pulsos dentro da banheira como um estoico, e quando a encontraram, flutuando na piscina rosada com os olhos amarelos de uma possuída e o corpinho exalando um cheiro de mulher madura, os paramédicos ficaram tão assustados com sua tranquilidade que congelaram, hipnotizados. Mas então a sra. Lisbon entrou correndo e gritando no banheiro e a realidade se restabeleceu: sangue no tapete; a navalha do sr. Lisbon mergulhada no vaso sanitário, marmorizando a água. Os paramédicos retiraram Cecília da água morna, que acelerava o sangramento, e aplicaram um torniquete em seus braços. O cabelo molhado escorria pelas costas, e as extremidades da menina já estavam azuis. Ela não disse coisa alguma, mas quando separaram suas mãos encontraram o santinho laminado da Virgem Maria que ela segurava contra os seios em botão.” (p. 7-8)

As cinco garotas Lisbon, família de classe média dos Estados Unidos na década de 1970, são jovens moças (uma “escadinha” que vai dos 13 aos 17 anos) que despertam a curiosidade dos rapazes da região. Bonitas, misteriosas e no auge da adolescência, suicidam-se por motivos desconhecidos.

O narrador se apresenta na primeira pessoa do plural; portanto, os acontecimentos são contados justamente por esses garotos dos arredores, com todo o seu interesse envolvido. Como o(s) narrador(es) não é(são) onisciente(s), é bastante inteligente a maneira como ficamos sabendo de detalhes das vidas das irmãs: depoimentos de alguns garotos que tiveram um pouco mais de contato com uma delas, ou foi convidado para jantar na casa dos Lisbon e fuçou o andar de cima (quartos e banheiro); o diário de uma delas; opiniões diversas de vizinhos. Ou seja, nada que seja extremamente confiável (inclusive, muitas vezes, o narrador mesmo conta alguma coisa e põe em dúvida o que contou).

Primeiro conhecemos Cecília (os trechos que escolhi para o início do post estão nas duas primeiras páginas do livro), a mais nova de todas, com seus 13 anos, mal entrando na puberdade. Mas sua alma é antiga, sua voz é madura e algo a aflige profundamente. Usa o tempo todo um vestido de noiva surrado, sujo e mal cortado. É esquisita, mas através dela percebemos coisas muito relevantes, como o fato de as cinco irmãs, apesar de personalidades únicas, na verdade serem praticamente uma única entidade (o que só aumenta nosso assombro em relação à história).

Cecília é estranha, mas toda a família Lisbon o é. Viviam sobre rígidas regras de costumes as quais, inclusive, o psicoterapeuta recomendou que fossem afrouxadas assim que a onda de suicídios começou, de maneira que as garotas vivenciassem experiências de descobertas sexuais, necessidade de contato com o sexo oposto e privacidade. Para o profissional, o clima de tensão e opressão sexual afetava muito negativamente a autoestima e, portanto, os pensamentos das meninas Lisbon. Este é mais um elemento que contribui para acender a imaginação dos garotos-narradores, sempre com uma curiosidade salivante em relação às adolescentes. Sério, quase dá para vê-los babando.

Não é apenas o comportamento puritano da família que intriga, mas também o clima de negação em que entram com relação aos suicídios; recusam-se a falar do assunto com vizinhos e amigos, desaparecem na escuridão do lar assim que o sol se põe, negligenciam afazeres domésticos. Quando encontram alguém, fingem que está tudo bem, embora fique claro que não está. Tudo isso contribui para o mistério que envolve a família e a história toda, prendendo o leitor pela curiosidade. A casa da família simboliza toda essa profunda negação, sendo esquecida durante meses. Suja, descascada, sombria, escura. Praticamente uma casa mal-assombrada.

Lux, a irmã de 14 anos, parece ser a mais “solta” de todas, e é sobre quem mais sabemos coisas: gosta de rock, fica com vários meninos da escola, fuma. Aliás, destaque para sua liberdade sexual, o que a faz de certa maneira o centro das atenções dos narradores. Bonnie, de 15, era bastante insegura. Mary era controladora e vaidosa e Therese, a mais velha, tinha uma característica cerebral, ligada ao aprendizado (biologia, química, idiomas, etc.). Mesmo com personalidades tão diferentes sabemos pelo desenrolar da história que algo as une como se fossem um ser único e inseparável.

O livro transita entre opostos: inocência e malícia, mistério e esclarecimento, luz e sombra, sobrenatural e cotidiano, anjos e demônios. Mas não o faz de maneira extrema, e sim é um passeio pelos limites de tudo isso, o que nos leva a perguntar onde termina um e se inicia outro? Onde termina a consciência das meninas e começa sua ingenuidade? E assim por diante, infinitamente.

Arrisco até dizer que é um livro de mistério, mas daqueles que fogem da fórmula tradicional “detetive-assassino-crime”; assim como em Crônicas de uma morte anunciada, temos que ir juntando as peças de um quebra-cabeças que talvez nunca seja resolvido (e isso é fascinante!). É claro que aqui se inclui uma grande dose de drama, também necessário. É uma narrativa preenchida com neblina.

A linguagem do autor é facílima e muito agradável de ler (acredito que a língua inglesa seja bastante objetiva se comparada com o português. Não sei nem justificar isso, é mesmo uma impressão). Por isso, a leitura voa. E, ainda assim, ele mescla a prosa com elementos poéticos que eu tanto gosto – o que não significa que o faça de maneira óbvia. É na descrição das sensações e dos acontecimentos que ficamos impressionados com as palavras escolhidas por Eugenides, nada forçado.

É um livro realmente muito muito muito bom. Só não recomendo para pessoas muito sensíveis ou muito novas. Apesar de ser uma bela novela, é um tanto melancólica e, por tratar de suicídio, também é comovente e brutal.

OBS.: Pura coincidência, o Hypeness acabou de publicar um post que cai como uma luva ao clima da adolescência nos anos 1970 nos EUA: Série fotográfica sem tabus mostra como era ser jovem nos anos 70. Belas fotos que têm tudo a ver com o livro.

+ info:

As virgens suicidas / Jeffrey Eugenides; tradução Daniel Pellizzari.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
231 páginas.

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Não recomendável para crianças ou adolescentes, nem para pessoas muito sensíveis, por conta da temática)

As virgens suicidas, filme, 1999 (breve comentário)

Conhecido por ser o filme que revelou a diretora Sofia Coppola, o filme As virgens suicidas é realmente muito fiel ao livro (com exceção de detalhes, como uma pequena parte no final). Me impressionei não só com o grau de fidelidade, mas também com a delicadeza e cuidado com que a diretora e os atores trataram o texto e a história como um todo. A fotografia remete mesmo ao período dos anos 1970, e a trilha sonora é linda. Recomendo muito!!!

+ info:
As virgens suicidas / Direção: Sofia Coppola.
– Estados Unidos, 1999.
Drama.
1h37min.
Trailer (em inglês)

classificação: 5 estrelas

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5 comentários sobre “As virgens suicidas

  1. Nai disse:

    Toka! Fiquei muuuuito interessada. Normalmente, fico reticente com leituras mais pesadas, confesso que fico com medo! ahhaha Mas realmente fiquei curiosa com a história das irmãs e você contou de um jeito que realmente deu vontade de ler. O livro não parece ser aquele suspense clichê. Já vou comprar nesta semana. Parabéns! Seu blog está maravilhoso.

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