Distopia, Ficção, Filme, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Trilogia Divergente

 Trilogia Divergente, de Veronica Roth

 

*ATENÇÃO: esta é uma resenha longa pois fala sobre três livros e no final, faço um comentário sobre o filme Divergente.

Veronica Roth é uma escritora norte-americana nascida em Nova Iorque em 1988. Iniciou o lançamento da série de livros em 2011, os quais se revelaram um sucesso imediato (best-seller do NY Times e o primeiro lugar entre os mais vendidos).

 

As sinopses de cada livro serão descritas a seguir, separadamente. Ao final, faço um apanhado com comentários e minha opinião sobre a série em geral.

Volume 1:  Divergente

Este primeiro volume da trilogia nos situa no mundo pós-apocalíptico de Chicago, em algum período não especificado (como acontece nas distopias, no futuro): uma cidade cheia de prédios de tijolos, concreto, cabos de energia elétrica, mas parcialmente abandonada. Esta sociedade dividiu-se, em algum momento do passado, em cinco facções, cada qual com seu papel social e suas características (qualidades e defeitos):

A Abnegação valoriza o altruísmo e condena o egoísmo. É a facção responsável por governar e organizar a cidade (teoricamente, pensam no bem comum, e não em proveito próprio). Cuidam dos sem-facção. Seus membros se vestem da cor cinza.
A Franqueza é a facção que valoriza a honestidade acima de tudo, ali a mentira é banida. Cuidam da justiça e seus membros se vestem de preto e branco.
A Amizade desgosta de disputas e evita confrontos; cuida da alimentação da população, vive em fazendas além dos muros da cidade. Na Amizade, as pessoas se vestem de vermelho e amarelo (no filme, é laranja).
Erudição é a facção do conhecimento, onde a ignorância é considerada a origem de todo o mal. Os eruditos vestem-se de azul claro (no filme, qualquer tom de azul).
A Audácia é responsável pelo policiamento da cidade, seus membros são destemidos, e não raro, bem sem noção. Vestem-se de preto.
Existem também os sem-facção, que são pessoas que não completaram seus treinamentos dentro de uma facção ou foram expulsas de lá. São párias da sociedade, e fazem os trabalhos mais indesejados por aqueles que têm facção: motoristas, faxineiros, etc.

As facções se organizam geograficamente como se fossem bairros, e cada uma delas reflete seus valores: a Abnegação possui prédios simples, cinzentos, quadrados e sem adornos; a Erudição, prédios envidraçados, iluminados e repletos de livros e computadores; a Audácia, um local subterrâneo, cheio de irregularidades, e assim por diante.
(Isso se parece muito com Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, em que a sociedade é dividida em castas para que possa haver uma harmonia social, e cada uma delas se veste de uma cor e tem uma função dentro do corpo social. Em 1984, de George Orwell, existem também os “sem-facção”, são os proletas.)

O início do livro gira em torno de uma escolha que todo adolescente deve fazer aos 16 anos: em qual facção quer ficar para o resto de sua vida. Para facilitar, antes da escolha há um teste que direciona suas habilidades e encaixa sua maneira de pensar em alguma das cinco facções.

A protagonista do livro chama-se Beatrice, tem 16 anos e vai participar da cerimônia de escolha em breve. Vive com sua família (pai, mãe, irmão) na Abnegação e, portanto, seus valores sempre foram ligados ao altruísmo, ajudar os outros, nunca pensar em si mesmo. Mas Beatrice sente-se diferente. Ela não tem certeza de que é tão altruísta assim, às vezes se preocupa com ela mesma mais do que deveria e sente não pertencer totalmente à sua facção.

Ao fazer o teste, que consiste numa simulação em que ela deve fazer algumas escolhas, seus testes são inconclusivos. Isto é alarmante, uma vez que raramente acontece. Significa que Beatrice tem tendências para mais de uma facção (é uma divergente), e isso é considerado perigoso por alguns líderes – é, de certa maneira, uma fuga da ordem estabelecida. Portanto, ela deve manter essa informação em segredo, e fazer sua escolha (em qual facção deve ficar para o resto de sua vida?) baseada em seus instintos.

O que eu contei é só o início do livro. Beatrice passará por muitas provações ao longo da história. Se você não quiser saber o que acontece, não leia a seguir. Pule para o final (minhas impressões da série). Não acho que o que vou contar seja spoiler, mas pode ter gente que considere. Vou contar o que acontece, em linhas gerais, no livro; o legal mesmo é saber como tudo acontece.

+ info:
Divergente / Veronica Roth; trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
502 páginas.

 Ainda sobre o livro 1 (SPOILERS): Beatrice acaba por escolher a facção Audácia, o que surpreende a todos, inclusive sua família. Ela é a única transferida da Abnegação para a Audácia, os outros transferidos vêm de outras facções (Erudição e Franqueza). A partir de sua escolha, ela deve se adaptar a um modo de vida completamente diferente (em alguns sentidos, oposto ao que estava acostumada): extrovertido, agressivo, de grande resistência física e psicológica, e sem seus pais e irmão. Para ser aceitos na Audácia, os novatos devem passar por um treinamento muito duro que envolve combate, manejo de armas, enfrentamento de medos; se não forem aprovados, se tornarão sem-facção. Nesse meio-tempo, Tris (o novo nome de Beatrice) faz amizades e envolve-se amorosamente com Quatro, um dos instrutores do treinamento. Juntos, eles descobrem que a facção Erudição se associou aos líderes da Audácia, e desenvolveu um “soro da obediência” o qual é injetado em todos os membros da Audácia, a fim de criar um exército obediente (praticamente zumbi!) para combater sua ex-facção, a Abnegação (onde ainda estão seus pais) e tomar o poder. Tris não é atingida pelo soro por ser uma divergente, e fica consciente durante todo o processo. Ela não pode revelar que não está sob o efeito do soro, se não, saberão que é uma divergente e com certeza ela não sobreviverá.

Volume 2: Insurgente

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro livro.

Após uma dura batalha contra Jeanine, a líder da Erudição, Tris, Quatro e algumas outras pessoas fogem para se esconder na Amizade, as fazendas no entorno da cidade, cuja atitude é de aparente neutralidade. Ali, descobrem algumas informações sobre a guerra que está por vir envolvendo as facções, enquanto cada uma escolhe um lado e Tris e Quatro são foragidos da Erudição e da Audácia.

Neste volume, conhecemos melhor as outras facções (Amizade, Franqueza), e a trama toda corre em torno de descobertas a respeito dos planos da Erudição (por que atacaram a Abnegação tão impiedosamente? O que eles pretendem? Como realizarão tudo isso? Qual será o futuro da sociedade de facções?) e da caça a Tris e Quatro. O romance entre os dois fica mais real neste volume, com brigas, irritações, dúvidas e grandes dilemas. O perigo de morte e traição está sempre próximo.

+ info:
Insurgente / Veronica Roth, trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
511 páginas.

Volume 3: Convergente

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro e ao segundo livros.

Neste terceiro volume, alguns personagens descobrem a verdade sobre sua sociedade e todo o sistema de facções. Digamos que eles saem da Matrix e passam a conhecer o propósito e a intenção de tudo aquilo, o que obviamente bagunça suas crenças e certezas.

Achei um pouco esquisita uma mudança que a autora fez neste livro: ela intercala capítulos na visão de Tris e na visão de Quatro, coisa que ela nunca havia feito nos livros anteriores, por isso achei estranha. Mas é fácil nos acostumamos a esse sistema, e tal escolha faz sentido no final das contas.

Convergente é mais lento que os outros, porque tem um volume maior de informações e menor de ações (não se engane, ainda assim tem muita coisa acontecendo!), demorei mais para terminar que os demais. Ainda assim, o final é eletrizante, vale muito a pena! Quando terminei de lê-lo, até fiquei em dúvida se este não foi o volume mais interessante. Talvez não, por conta da originalidade da narrativa do primeiro, mas ainda não me decidi.

+ info:
Convergente / Veronica Roth, trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
526 páginas.

O que achei da série:

Distopia é um gênero que vem tomando volume nos últimos anos, especialmente entre jovens. A distopia é, na realidade, a antítese da utopia (uma sociedade ideal, com um governo incorruptível e que resolve os problemas visando sempre o bem comum, como ocorre em A República, de Platão, ou em Utopia, de Thomas Morus). Segundo a Wikipedia, as distopias são “geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, ‘caem as cortinas’, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.” A mesma página da Wikipedia lista características que comumente encontramos na literatura distópica (como 1984, de George Orwell, ou Admirável mundo novo, de Aldous Huxley), que aqui reproduzo:

  • Tem conteúdo moral, projetando o modo como os nossos dilemas morais presentes figurariam no futuro;
  • Oferecem crítica social e apresentam as simpatias políticas do autor; [frequentemente isso ocorre por oposição, ou seja, o autor apresenta uma sociedade da qual ele discorda politicamente*]
  • Exploram a estupidez coletiva; [ou a fácil manipulação da população]
  • O poder é mantido por uma elite, mediante a somatização e consequente alívio de certas carências e privações do indivíduo;
  • Discurso pessimista, raramente “flertando” com a esperança; [geralmente, o discurso da elite que governa está pautado na felicidade calma e estável, ou seja, em como a sociedade está boa agora, controlada, em ordem, a fim de não incitar grandes convulsões sociais. A liberdade é um valor temido por esses governantes]
  • Violência banalizada e generalizada.

* Os comentários em itálico e entre colchetes são acréscimos meus.

Particularmente, sou muito fã de distopias, pois acredito que elas escancaram falhas de nossa própria sociedade (ao ler 1984, minha cabeça “explodiu” com a questão da vigilância permanente, falta de privacidade, controle total; em Admirável mundo novo, temos uma política do pão e circo levada ao extremo, com drogas “da felicidade” sendo distribuídas à população a fim de que, drogada, ela seja manipulável e acrítica).

Um exemplo atual de distopia que fez muito sucesso foi a trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, a qual também traz essa questão do pão e circo muito ampliada pelo reality show que é a arena dos Jogos.

Divergente se encaixa nesse molde, e ainda pertence ao gênero chamado de “jovem adulto” (ou young adult em inglês), livros que tratam da transição entre a adolescência e a vida adulta dos personagens principais, e que têm tido enorme aceitação no mercado editorial brasileiro.

Gostei bastante da ideia da autora das facções e, principalmente, do processo de seleção / escolha que os jovens têm que enfrentar aos 16 anos – uma escolha permanente e irreparável. Me fez pensar em uma versão mais extrema dos vestibulares, por conta de toda pressão, da sensação que temos ao prestá-lo de que aquela é a nossa única chance e não podemos falhar, etc.

De escrita MUITO fácil, a leitura é rápida. O tempo todo na série tem alguma coisa acontecendo, e ficamos curiosos para saber do que se trata. A narrativa é em primeira pessoa, pelos olhos de Tris – exceto no terceiro volume, onde se intercalam as visões de Tris e de Quatro como narradores. Os mistérios do primeiro livro não são tão misteriosos assim (é possível encaixar as peças do quebra-cabeça da trama bem antes que a protagonista o faça, o que inevitavelmente nos faz pensar que ela é um pouco lerdinha de vez em quando). Em Insurgente e Convergente, parece que melhora um pouco nesse sentido.

Sobre Tris, ou Beatrice, nossa protagonista, ela é bem “real”: cheia de dúvidas (assim como Katniss de Jogos Vorazes, mas menos chata e insegura), baixinha, não muito bonita (seu próprio par romântico admite isso!), e ainda assim uma heroína nos moldes tradicionais (no final deste post falo um pouco sobre a jornada do herói proposta por Campbell), pois é corajosa, segura e tem princípios e caráter fortes. Uma personagem bem construída.

Essa foi uma heroína que não me irritou (diferentemente de Ayla!), com exceção dos momentos pseudorromânticos do primeiro livro, em que ela não percebe que o cara gosta dela nem quando ele põe a mão em sua cintura, ou aproxima o rosto de seu queixo e fica olhando-a nos olhos e coisas do tipo. Aí achei ela tapada mesmo. Ainda sobre o romance em Divergente, tirou um pouco o foco da parte interessante (a percepção da manipulação, a tensão dos treinamentos, etc.), mas entendo que é algo que adolescentes gostam de ler (eu é que estou lendo na época errada da vida!). Se não acrescenta muita coisa (uns dramas de vez em quando), também não é algo que atrapalhe a história. A partir do segundo livro, o romance toma um papel mais crucial na história, deixando de ser dispensável.

A violência está presente: armas, lutas, guerras e sangue são constantes na trilogia, e por isso não é muito recomendável para crianças. Adolescentes e adultos com certeza já viram coisas piores nos telejornais.

É uma trilogia que intercala questões mais internas (dúvidas, decisões, dor, morte, culpa) e faz pensar sobre nosso mundo – questões como vigilância e (falta de) privacidade, manipulação, governo, confiança, ordem e tensão social, pobreza, poder.

Valeu a pena ler. Fiquei com uma baita “ressaca” depois desse livro (coisa que não é tão comum para mim), pensando no ambiente deles, nos personagens, etc… :/ Precisei de, tipo, um dia para me recuperar.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público adolescente e jovem adulto)

Divergente, filme, 2014

Para falar a verdade, assisti ao filme antes de ler o livro, e foi ele que me despertou a curiosidade para a história. Achei um filme divertido, embora algumas coisas fiquem no ar (é claro, não dá para incluir tudo que tem num livro de 500 páginas em um filme de duas horas).

Depois que li, percebi que algumas coisas foram modificadas para se encaixarem no filme, mas nada que comprometa muito a história. A questão do romance também me incomodou um pouquinho, mas provavelmente seja porque esse não é o tipo de cena que eu mais valorize. Como é de se esperar, alguns personagens são mais parecidos com as descrições do livro do que outros: me chamaram muito a atenção Quatro e a mãe de Tris. A própria protagonista está bem parecida.

Se está em dúvida se deve ler o livro ou não, veja o filme. Mas saiba que o livro será muito parecido (então se você assistir ao filme antes, já descobrirá o que acontece no livro; as cenas ficam na cabeça na hora de ler). Abaixo, no “+ info”, há um link para o trailer.

+ info:
Divergente / Direção: Neil Burger.
– Estados Unidos, 2014.
Ficção científica, aventura.
2h19min.
Trailer (legendado)

classificação: 4 estrelas

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2014, Favoritos, Ficção, L&PM, Resenha

Frankenstein

Frankenstein, de Mary Shelley

 “Um dos fenômenos que havia atraído particularmente minha atenção era a estrutura do corpo humano e, na verdade, de qualquer ser dotado de vida. Muitas vezes eu me perguntava de onde provinha o princípio da vida. Era uma questão ousada e que sempre foi considerada um mistério; no entanto, com quantas coisas não poderíamos nos familiarizar se a covardia ou a displicência não impedissem nossas pesquisas? […] Familiarizei-me com a anatomia, mas isso não era o suficiente; eu deveria observar a desintegração e a corrupção naturais do corpo humano. […] Eu via como a bela forma do homem se degradava e se decompunha; eu assistia a corrupção da morte suceder à florescência da vida; contemplava como os vermes herdavam as maravilhas do olho e do cérebro. Eu parava, examinando minuciosamente as causas como, por exemplo, a transformação da vida em morte, e da morte em vida, até que, do meio dessas trevas, se fez uma luz súbita sobre mim – uma luz tão brilhante e maravilhosa, e no entanto tão simples que, enquanto eu tonteava com a intensidade da perspectiva que ela oferecia, surpreendi-me de que, entre tantos homens de gênio que se dedicaram aos mesmos estudos, a mim apenas estivesse reservada a descoberta de um segredo tão poderoso.” (p. 58 e 59)

Frankenstein virou uma história tão famosa, que praticamente todos já a conhecem por cima: um certo doutor cria um monstro que aterroriza uma cidade.

Em verdade, o original Frankenstein não é exatamente o que o senso comum diz sobre ele: para começar, Frankenstein é o nome do criador, e não do “monstro”. Segundo, o livro não é tão de terror assim na minha opinião, tudo depende do ponto de vista. Mais pra frente explico.

A história de como Mary Shelley escreveu o livro é muito interessante. Casada com  o poeta Percy Shelley, foram passar umas férias em 1816 na mansão de Lord Byron, poeta bastante famoso. Um clima chuvoso propiciou que ficassem dentro de casa contando histórias de terror, e lançaram entre si um desafio de escrever algum conto assustador. Ninguém levou muito a sério, até que a ideia veio à mente de Mary e, incentivada pelo marido, estendeu-a até que virasse um romance. O fato de ideia ter sido tão genialmente aproveitada (justamente por quem não era escritor!) faz com que a narrativa seja ainda mais interessante. Ah, ela tinha 19 anos quando escreveu esse livro. DEZENOVE ANOS.

O início da narrativa parece um pouco confuso, pois não trata de nenhum dos personagens propriamente ditos, mas sim de uma expedição à Antártida, a qual encontra um homem à beira da morte e muito deprimido o qual, descobrimos, vem a ser Victor Frankenstein. Após ganhar a confiança do náufrago, o capitão do navio da expedição, passa a nos contar a história de Frankenstein como se vinda da boca do próprio: ou seja, o narrador é Victor Frankenstein, e quem registra sua história é o capitão do navio em expedição no polo Norte.

Para começar, os acontecimentos do livro passam-se no século das Luzes (XVIII), em que a elite europeia buscava um ideal de razão e ciência, em oposição aos resquícios de superstição atribuídos à Idade Média. “Buscava-se um conhecimento apurado da natureza com o objetivo de torná-la útil ao homem moderno e progressista”. Victor não foge desse cenário: é o típico amante de Ciências Naturais da época, desde sua adolescência. Sai de sua pequena vila na Suíça para uma universidade, onde desenvolve ainda mais seu amor sua obsessão principalmente pela Química, e começa a perseguir um ideal aparentemente impossível: descobrir o princípio da vida – o qual, sabemos, ele conseguirá. Mais do que isso, ele ultrapassará o “limite” e, de fato, criará uma nova vida: um grande cadáver masculino “montado” por ele. Porém, Frankenstein não sabe lidar com isso. Surta, fica doente, e a criatura desaparece.

Após recuperar sua saúde, e sem conseguir contar a ninguém o absurdo que é sua história, um crime acontece em sua cidade natal, e Victor volta a ela, reencontrando a origem de seus pesadelos, o gigante criado por ele. O doutor Frankenstein fica muito perturbado com o fato de ser ele próprio o criador daquele ser horroroso, o qual (em sua visão) só pode fazer o mal a todos à sua volta. Em minha opinião, o ponto alto do livro é o encontro entre criador e criatura, no meio da obra, e seu diálogo, a partir do qual compreendemos muita coisa.

Li pela primeira vez este livro no Ensino Médio (acredito que em 2003 – obrigada à professora Esther Rosado, pela indicação), e entrou para minha lista de favoritos. Nesta releitura, as impressões mais fortes que eu tinha da obra foram retomadas, falo sobre elas a seguir.

Para mim, Victor Frankenstein é um homem extremamente dramático e que não soube lidar com as circunstâncias e as consequências de seus atos. O ar de terror que caracteriza o gênero da história reside na mente do doutor-narrador, e por isso eu não o considero um livro de terror propriamente dito. Não fiquei com medo do “monstro”. Nos encontros entre criador e criatura, temos um criador vingativo, amargo, magoado – e, acima de tudo, culpado por ter criado uma abominação, segundo ele mesmo – e uma criatura angustiada mas sensata, desesperada por coisas que nos fazem mais humanos (companhia, reconhecimento, carinho). É mais um romance sobre crime, aventura, natureza humana e ética.

É inevitável pensarmos na situação entre “divino” e “terreno”, intenção ou não de criação, arrependimento ou não. A partir do momento em que Shelley nos coloca um ser humano como criador, questões como essas vêm com toda força à nossa mente: e se fosse eu o criador? E se fosse eu a criatura? Por isso é difícil julgar Frankenstein por seus sentimentos tão carregados: ainda acho que ele seja covarde, egoísta e esteja errado em suas posturas, mas será que eu não agiria da mesma forma? E, em relação à criatura, este também é o perigo: suas ações são extremamente condenáveis, mas compreensíveis, dado o contexto.

Na edição da L&PM, a qual li, existe um posfácio escrito por Harold Bloom, que traz à luz muitas questões interessantes, sendo que as que mais chamaram minha atenção foram:

O nome original da novela é Frankenstein: ou o moderno Prometeu. Segundo a Wikipedia, na mitologia grega, Prometeu foi um semideus (algumas versões o tratam como titã) “defensor da humanidade, conhecido por sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Zeus e o dar aos mortais. Zeus teria então punido-o por este crime, deixando-o amarrado a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado – que crescia novamente no dia seguinte”. Isso realmente se encaixa com perfeição no papel do dr. Victor Frankenstein – ainda mais se considerarmos o fogo de Zeus como sendo o conhecimento, ou o “fruto proibido” da Bíblia. Como sabemos, quem prova do fruto proibido (ou rouba o fogo sagrado) não sai impune. Para os gregos antigos, o castigo de Prometeu foi um sofrimento eterno: o de ter uma águia comendo seu fígado todos os dias (o fígado é um órgão que possui de fato um grande poder de regeneração, e sua simbologia se associa à raiva, à amargura, e até à “sede de poder divino”). Nada se encaixaria melhor ao personagem Frankenstein, um ser atormentado pelas consequências de sua mais ambiciosa tarefa: a de descobrir os segredos (considerados divinos) da vida e da morte, e pô-los em prática (desobediência). Ou seja, o doutor tornou-se um deus para sua criatura, e isso foi um fardo quase maior do que ele pôde carregar, e por isso seu sofrimento constante e eterno. Inclusive, o fogo aparecerá no finalzinho do romance, retomando o mito de Prometeu.

“Prometheus Bound”, pintura a óleo de Rubens (1611-1612)

Outro ponto interessante trazido por Bloom foi que o criador e a criatura são duas metades antitéticas do mesmo ser. Talvez o monstro seja justamente uma ampliação de seu criador:

“Embora mais odiado do que amado, o monstro é a representação total do poder criador de Frankenstein e mais imaginativo do que seu criador. O monstro é, ao mesmo tempo, mais intelectual e mais emocional que seu criador; com efeito, excede de muito Frankenstein (e do mesmo modo) como o Adão de Milton excede o Deus de Milton n´O Paraíso Perdido. O maior paradoxo e a mais espantosa realização da novela de Mary Shelley é que o monstro é mais humano do que seu criador. Este ser sem nome, tanto um Moderno Adão quando seu criador um Moderno Prometeu, é mais digno de amor que seu criador e mais odioso, mais digno de pena e quem mais se deve temer (…)”. (Harold Bloom, p. 265)

As primeiras 100 páginas do livro são carregadas das preocupações de Frankenstein, que se amaldiçoa constantemente por ter criado um ente tão horrendo aos seus olhos, por isso a leitura torna-se um pouco cansativa, repetitiva. Mas essas partes são compensadas nos momentos de diálogo entre criador e criatura. Reproduzo um trecho a seguir, que acredito que exemplifique muito do que argumentei acima (SPOILER ALERT!!! – mas não acho que vá estragar a história). Nesta parte, Victor encontra-se com sua criatura (a qual não tem nome) e fala com ela pela primeira vez:

[Victor Frankenstein]* – Vai-te! Não quero ouvir-te. Não há qualquer ligação entre nós. Somos inimigos. Afasta-te, ou vamos medir nossas forças numa luta em que um de nós dois deve morrer.

[Criatura] – Como poderei sensibilizar-te? Será que nenhuma súplica faz com que olhes com benevolência para a tua criatura que implora tua bondade e compreensão? Acredita-me, Frankenstein, eu era bom; minha alma estava cheia de amor pela humanidade; mas não estou só, miseravelmente só? Tu, meu criador, me detestas; que posso, pois, esperar de teus semelhantes, que nada me devem? Eles me desprezam e me odeiam. As montanhas desérticas e as geleiras lúgubres são o meu refúgio. Vagueio por aqui há muitos dias; as cavernas geladas, que eu não temo, me servem de abrigo, o único que o homem não me disputa. Eu saúdo esses céus desolados, pois eles são melhores para mim do que os teus semelhantes. Se toda a humanidade soubesse da minha existência, faria como tu, armar-se-ia para a minha destruição. Não devo, pois, odiar aqueles que me detestam? Não terei contemplação para com os meus inimigos. Eu sou um miserável, e eles devem compartilhar da minha desgraça. No entanto, está em tuas mãos, recompensar-me, e livrá-los de um demônio que poderás fazer tão grande que não somente tu e tua família, mas milhares de muitos outros serão envolvidos no furacão de sua raiva. Sê compassivo e não me desprezes. Escuta a minha estória; depois, então, abandona-me, ou tem pena de mim, conforme achares que eu mereço. Escuta-me, porém. Os culpados, por mais sanguinários que sejam, têm, pelas leis humanas, o direito de se defender, antes de serem condenados. Escuta-me, Frankenstein. Tu me acusas de ser um assassino e, no entanto, tu, com a consciência satisfeita, me destruirias, a mim que sou tua criatura. Oh, viva a eterna justiça dos homens! No entanto, eu não te peço para me poupares; escuta-me e, depois, se puderes, ou se quiseres, destrói a obra de tuas mãos.

[Victor Frankenstein] – Por que insistes em recordar esses fatos – respondi eu – dos quais sou origem e autor, e que só de pensar me dão calafrios? Maldito seja o dia em que viste a luz pela primeira vez! Malditas (embora eu amaldiçoe a mim mesmo) as mãos que te criaram. Tu me desgraçaste além do que se possa imaginar. Não me deixaste o poder de pensar se sou ou não justo. Vai-te! Livra-me da visão de tua forma odiosa.” (p. 116 e 117)

*Os trechos entre colchetes são acréscimos meus.

Em relação à linguagem, é mesmo típica do século XIX, e bem internalizada, o que caracteriza o estilo romântico – perseguido claramente por Mary Shelley, influenciada por seu marido Percy Shelley e seu amigo Lord Byron. Victor Frankenstein é ego puro.

É considerado um livro de terror porque: 1) a criatura é descrita como horrenda, o que assustaria qualquer um; 2) a criatura torna-se extremamente má, mas somente para seu criador. Dessa maneira, Frankenstein, sim, é aterrorizado pelo “demônio”. Não sei os demais leitores, mas eu sinto muito mais compaixão pela criatura (que foi, de certa forma, sensata) do que pelo criador, que não soube lidar com as circunstâncias. O que chama a atenção são algumas reflexões extremamente interessantes provocadas pelo livro – as quais são a real força dessa narrativa: a questão do criador e da criatura; o poder da ciência para o “bem” e para o “mal”; o conflito por falta de compreensão do outro; nossos demônios internos.

A edição da L&PM tem alguns errinhos (falta de vírgula ou de acento), mas nada que prejudique grandemente a leitura. Só faltou revisão.

Enfim, obra muito recomendada para quem gosta de existencialismos (eu adoro!). Diria que é quase obrigatória.

 

+ info:
Frankenstein / Mary Shelley [Wedstonecraft]; tradução de Mécio Araujo Jorge Honkins.
– Porto Alegre: L&PM, 1997.
276 páginas.

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2014, Ficção, Filme, Objetiva, Resenha, Séries e trilogias

Trilogia Fronteiras do Universo

 Trilogia Fronteiras do universo, de Philip Pullman

 

*ATENÇÃO: esta é uma resenha longa pois fala sobre três livros e no final, faço um comentário sobre o filme A bússola de ouro. E tem várias ilustrações bonitas.

Mantive a grafia apresentada na edição do livro, que contém muitas palavras com letra maiúscula.

Philip Pullman é um escritor britânico que nasceu em 1967 e continua vivo até hoje (agosto de 2014). Sua história está ligada à Universidade de Exeter em Oxford, onde ia para ler e prestar serviços temporários, e depois veio a tornar-se professor de crianças e na Universidade de Westminster (Londres). Ele eventualmente deixou o magistério para tornar-se escritor em tempo integral. Ganhou diversos prêmios e escreveu esta série de que tratarei, chamada Fronteiras do universo (no original em inglês, His dark materials). A trilogia fantástica fez muito sucesso pelo mundo e Pullman recebeu prêmios importantes por ela. Existem outros livros, além da trilogia, que seguem sua mesma lógica, cujos títulos em inglês são: Lyra´s Oxford (2003), Once upon a time in the North (2008) e The Book of Dust (ainda não lançado). Este último contará também com Lyra como protagonista e tratará da origem do Pó, a história da Faca Sutil e esclarecimento sobre alguns personagens da trilogia e seus relacionamentos [as informações sobre os demais livros foram retiradas do blog Epílogo].

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As sinopses de cada livro serão descritas a seguir, separadamente. Ao final, faço um apanhado com comentários e minha opinião sobre a série em geral.

Volume 1: A bússola dourada

Este primeiro volume se passa em um mundo parecido com o nosso (inclusive geograficamente), mas não igual. Conta a história de Lyra, uma garota curiosa e corajosa que cresceu na Universidade de Oxford, mais precisamente na faculdade de Jordan. Cercada de eruditos homens Catedráticos e política, Lyra cresceu sob a tutela desses homens – especialmente do Reitor -; seu tio Lorde Asriel a vinha visitar de vez em quando, e também tratar de política. Lyra é moleca, vive brincando pelos telhados e porões da Jordan, mesmo isso não sendo permitido, com seu amigo e ajudante de Cozinha, Roger. Tem rivalidades com crianças de outras vizinhanças e não foge de uma briga (não raro, provoca-a). A garota, que ainda não atingiu a puberdade, está mais preocupada em brincar do que com a política que a rodeia no mundo dos adultos – mas logo ela se verá envolvida em uma trama complexa envolvendo tudo isso.

Lyra e Roger brincando pelos telhados da Jordan

Neste mundo descrito por Pullman, todas as pessoas são acompanhadas por daemons, seres que assumem a forma de animais. Os daemons representam a “alma” de cada pessoa, um pouco de sua personalidade, a sua consciência (podemos dizer que o daemon de Pinocchio é o Grilo Falante!). Sendo assim, os daemons das crianças são ainda indefinidos; podem modificar sua forma. Por exemplo, Pan (Pantalaimon, daemon de Lyra) inicia o livro com um formato de mariposa, para melhor poder se camuflar numa sala na penumbra (já que ele e Lyra estão explorando um local proibido); depois, transforma-se em arminho para dormir confortavelmente. Dependendo inclusive da sua profissão (dom?), seu daemon toma alguma forma. Sabemos que os daemons de criados (mordomos, empregados domésticos) tendem a ser cães – dependendo da “categoria” de servente, o cão seria também “superior”, de uma raça mais valorizada. Esses seres falam e têm expressões corporais muito transparentes, de modo que podemos ver reações internas das pessoas pelos comportamentos de seus daemons, nem sempre controláveis.

Algo interessante que me chamou atenção foi a denominação dada a muitos adultos no início do primeiro livro: o Administrador, o Reitor, o Capelão, o Bibliotecário, a Governanta. Quase como se não tivessem rostos, fossem entidades (aos poucos, sim, vamos sabendo um bocadinho sobre cada um desses adulto e alguns ganham nomes próprios). Um pouco como desenhos animados em que não conseguimos ver os rostos dos adultos, somente suas pernas (desenhos que levam em conta a perspectiva infantil).

Desenhos animados que mostram o ponto de vista infantil: os adultos são apenas corpos – geralmente, nem nome têm: são apenas “pai”, “mãe”, etc.

Neste mundo apresentado por Pullman, a Igreja é a instituição máxima (não fica claro qual Igreja, mas parece uma mistura de catolicismo com protestantismo: cita-se João Calvino, a Inglaterra já era oficialmente anglicana à época da escrita do livro, mas também a estrutura eclesiástica se parece muito com a da Igreja católica em certos momentos de sua história) que controla a vida de todos através de seus tentáculos, órgãos descentralizados com nomes um tanto quanto misteriosos como Magisterium, Colegiado dos Bispos, Tribunal Consistorial de Disciplina, Conselho de Oblação. Esses órgãos nem sempre são unidos; aliás, muitas vezes eram mesmo rivais. A faculdade Jordan, lar inicial de Lyra, é a instituição de maior autoridade em estudos teológicos experimentais (algo como física) – e, portanto, possui enorme poder político e prestígio num mundo comandado pela Igreja. Muitos estudos ali financiados e conduzidos são considerados de alta importância e, não raro, são secretos.

A narrativa ocorre em terceira pessoa (ou seja, o narrador é onisciente). Tal escolha do autor permite que o leitor transite entre núcleos da história e acumule informações diversas, as quais nem sempre todos os personagens têm acesso. Por exemplo, ora estamos vendo Lyra conversando com as crianças pelas ruas de Oxford; ora vemos uma conversa entre o Reitor e o Bibliotecário – conversa esta que outros personagens não ouvem, e nos dá ideia da história total.

Não conseguimos distinguir o tempo em que se passa a história, já que se passa em um universo paralelo; parece uma mistura passado e futuro. Explico: existem diversas tecnologias (instrumentos sofisticados) que se misturam com elementos como lamparinas e velas para iluminação, prédios de pedra, zepelins e tinas de madeira para tomar banho.

Após explicar todo esse contexto, podemos falar do enredo: Lyra presencia reuniões proibidas para ela (entre Catedráticos e seu tio), o que lhe abre os olhos a respeito de diversas coisas no mundo adulto: expedições para o Norte, a cabeça decepada de um explorador que investigava assuntos considerados perigosos, uma substância chamada Pó e evidências de cidades invisíveis.

Lyra e Pan escondendo-se no armário numa das primeiras cenas do livro. É aí que eles tomam contato com parte da verdade do “mundo adulto”.

Repentinamente, crianças – geralmente pobres e negligenciadas por suas famílias – começam a desaparecer da vizinhança. O boato é de que alguém as está sequestrando, e essas pessoas são apelidadas de Papões. Sabemos que (isso não é um spoiler, ok?) quem sequestra as crianças é uma jovem muito atraente, perfumada e irresistivelmente sedutora, que tem por daemon um macaco de pelagem dourada. Sua suavidade, carisma e (aparente) bondade “enfeitiça” as crianças a seguirem-na e a se conformarem à situação de prisioneiras. É neste momento que Roger, o grande amigo de Lyra, some da mesma maneira que outras crianças.

Lyra toma como missão encontrar seu amigo Roger de qualquer maneira, enquanto diversas coisas acontecem com ela. Nesse meio-tempo, o Reitor entrega à garota um instrumento chamado aletômetro, que é a tal bússola dourada, com a incumbência de descobrir o que é, como funciona e de manter o objeto protegido. É na realidade um objeto que mostra respostas, caso seu portador saiba fazer as perguntas corretas e interpretar seus simbolismos.

O aletômetro

Com a ajuda do aletômetro e de diversos aliados inusitados (gípcios, bruxas, um urso de armadura, um aeróstata), Lyra vai atrás de Roger, ao mesmo tempo em que tem que fugir de diversos perigos e descobre cada vez mais peças do quebra-cabeça.

(O final do livro é bem interessante! 🙂 )

Ah! Fiz um teste em um site (em inglês) para ver qual seria o meu daemon (são vááárias perguntas!), vou deixar no final do post.

 

+ info:
A bússola dourada / Philip Pullman.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
417 páginas.

 

Volume 2: A faca sutil

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro livro.

Em A faca sutil, Lyra atravessou a fronteira que existe entre dois mundos, e descobre um terceiro (o nosso). Cada mundo tem suas especificidades (como os daemons, no de Lyra; os carros, no nosso; ou os Espectros, no mundo em que Lyra inicia o livro), mas pode haver trânsito de um para o outro (embora não saibamos tudo a respeito disso)

Juntamente com um amigo, chamado Will (proveniente da Oxford que conhecemos, da Inglaterra do nosso mundo), Lyra agora está em busca de mais respostas sobre o Pó, os universos paralelos e também em busca de pessoas: Lorde Asriel, Dr. Stanislaus Grumman (o explorador cuja cabeça aparece decepada no primeiro livro!), John Parry (pai de Will). Com a ajuda do aletômetro, da faca sutil, outro objeto com propriedades importantes para a história, e de antigos e novos amigos, Lyra enfrenta mais uma série de desafios.

Lyra e Will

Portal entre dois mundos

É uma narrativa muito viva o tempo todo, dificilmente ficamos entediados. Tive a impressão de que neste segundo volume os capítulos são maiores.

+ info:
A faca sutil / Philip Pullman.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
370 páginas.

 

Volume 3: A luneta âmbar

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro e ao segundo livros.

O maior dos três volumes, A luneta âmbar vai ainda mais fundo nos temas que permeiam a série toda: o Pó, os diferentes mundos, a Igreja.

Agora, haverá uma grande guerra (a maior de todas), envolvendo todas os seres conscientes de todos os mundos (já que os portais de um para o outro podem ser abertos): pessoas, pessoas com daemons, anjos, bruxas, ursos de armadura, galivespianos, fantasmas, Espectros. É claro que Lyra terá papel fundamental nessa guerra; ela será o elemento definidor. Os lados que batalharão serão basicamente o lado da Autoridade (Deus) e a Igreja, os quais defendem que é importante que as populações mantenham-se submissas e obedientes; e do outro lado, aqueles seres (humanos, anjos, bruxas, etc.) que acreditam que o livre-pensamento é mais importante que a fé absoluta.

Aqui, teremos Lyra e Will o tempo todo transitando entre mundos – dos mais familiares aos mais diferentes: o mundo dos mortos, o mundo dos mulefas, e seus próprios mundos também. De uma imaginação fascinante.

As temidas harpias, no mundo dos mortos

+ info:
A luneta âmbar / Philip Pullman.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
572 páginas.

 

O que achei da série:

É um texto bastante ágil, rápido de ser lido. O tempo todo acontecem coisas, a história realmente não fica entediante. Um elemento formal que certamente colabora com isso é o discurso direto: a utilização de travessões para construir diálogos torna a narrativa mais dinâmica.

Lyra é uma personagem muito interessante,  e não podemos nos esquecer que, como protagonista da trama, é uma heroína, e cumpre seu papel como tal (para ser um herói, em quase qualquer história, existe um roteiro – “a jornada do heroi”, descrita por Joseph Campbell -, e Lyra se encaixa muito bem nisso). Ela é corajosa, curiosa e muito fiel; conta com a ajuda de elementos importantes (objetos como o aletômetro, por exemplo, ou personagens como o urso Iorek Byrnison, o menino Will, a bruxa Serafina Pekkala), mas no final das contas, quem tem que resolver mesmo é ela.

A trilogia certamente conta sobre a transição da vida infantil para a vida adulta, a saudade da infância mais simples e cheia de brincadeiras para a “adultez” complexa e lotada de responsabilidades e inseguranças. Percebemos a oscilação de Lyra entre a imaginação e confiança infantis e as desilusões adultas. Ou, como contam na história, a transição da inocência para a experiência faz toda a diferença.

É interessantíssima a crítica feita à Igreja da história como instituição, que impõe comportamentos, proíbe avanços em nome de uma moral questionável e age com violência contra quem discorda. Inclusive, essa trilogia já foi apontada como uma resposta às Crônicas de Nárnia, do autor C. S. Lewis, obra que já foi criticada por Pullman como sendo propaganda religiosa, além de sexista e racista (segundo a Wikipedia). Nesse sentido, Fronteiras do universo é uma clara crítica à Igreja como instituição que atravanca avanços científicos e pensamentos questionadores.

Tentei ler a trilogia quando era mais nova, mas parei na metade do primeiro livro; desta vez, fui até o final. E devo dizer que, quanto mais avancei nos volumes, mais gostei da história: aos poucos tudo vai se encaixando, e tudo que parecia “solto” no primeiro livro tem um porquê nos demais, e assim por diante. Não costumo gostar tanto de tramas que misturam criaturas (vampiros, lobisomens, bruxas, etc. etc. etc.) – A EXCEÇÃO É HARRY POTTER, OK?! -, mas este o faz de maneira extremamente bem encaixada, de modo que nem é possível criticar. Cada ser tem seu papel na história, nenhum deles está ali por acaso.

De maneira geral, achei um livro muito bom, com uma proposta rica e diferente; não é uma história infantil, mas também não é literatura adulta.

Se você se interessou pelas sinopses que fiz anteriormente, provavelmente vai adorar os livros! Se gosta de livros de fantasia, estes são altamente recomendáveis!

classificação:  4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Esta, sim, é uma obra recomendada para público infanto-juvenil e jovem adulto)

A bússola de ouro, filme, 2007

http://calibrecultural.files.wordpress.com/2012/01/bdo-capa2.jpg

Lançado em 2007, o filme A bússola de ouro não foi um sucesso de bilheteria, e as críticas foram bem divididas. Acredito que seja por isso que não haja continuação.

Eu o assisti na época (e detestei, aliás), e assisti recentemente, depois de ler o livro. Devo dizer que agora entendi bem melhor a história (obviamente), e por isso, achei o filme melhor do que da primeira vez que o vi. Os personagens estão bastante fiéis às descrições do livro (Lyra é mesmo bem parecida), apesar de detalhes como a cor do cabelo da srta. Coulter serem diferentes, sua essência foi mantida (suas maneiras doces e suaves, o maldito macaco de pelagem dourada).

Três coisas me incomodaram bastante: a primeira é a ausência da menção da Igreja. Fala-se apenas em Magisterium, que é um dos órgãos da Igreja do mundo de Lyra, não deixando explícita qual é a instituição criticada. Isso claramente deve ter sido feito para não irritar os ânimos de pessoas religiosas e conseguir uma boa bilheteria, o que não foi atingido. Parece que teve gente da Igreja católica que se sentiu ofendida mesmo assim. Sendo esse um dos aspectos essenciais do livro, o filme deixou a desejar nesse sentido. A segunda coisa que não me agradou foi que mudaram bastante a ordem de alguns acontecimentos. Inclusive, uma das coisas mais legais do primeiro livro (Lyra e as crianças em Bolvangar, à mercê das experiências realizadas pelo Conselho de Oblação) quase não aconteceu no filme! E a terceira foi, é claro, o final. O primeiro livro termina de maneira estarrecedora, e o filme acaba antes disso (era possível completar a história com o acréscimo de apenas duas cenas, e considerando que o filme tem menos de 2 horas de duração, achei um ultraje não colocarem o final da história).

Relevando essas considerações, os efeitos especiais são muito bem feitos (se você está lendo isso em 2050, ignore este comentário, porque você deve achá-los ridículos), e mesmo tendo muita gente criticando as atuações, eu achei que foram bem satisfatórias. Lembrando sempre que o público recomendado para esse filme é mais infanto-juvenil, é um filme de fantasia e aventura. O trailer do filme está linkado logo abaixo, no + info. Vale a pena ver porque dá um resumo da história e uma ideia do filme.

Entre o filme e os livros, com certeza, leia os livros – até porque o filme não tem final e nem continuação.

+ info:
A bússola de ouro / Direção: Chris Weitz.
– Estados Unidos e Reino Unido, 2007.
Fantasia, aventura, ficção.
1h53min.
Trailer (legendado)

classificação: 3 estrelas

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Meu daemon

Your result for The Golden Compass Daemon Test…
Open Sensitive Soul

You are an open, emotional person and very sensitive to the things going on around you. You are empathetic and make an excellent listener, but you also like to share your thoughts, feelings, and opinions with the world. You are not particularly extroverted, preferring time at home with a group of friends than a busy and stressful night out among strangers and acquaintances.

You wear your heart on your sleeve, and probably become upset when someone tries to give you constructive criticism. Your loved ones tend to accidentally hurt your feelings with their insensitive, off-hand remarks, and then accuse you of being too sensitive.

You are open and honest, and you do not do well at hiding your feelings, even when you try. You prefer to get things out in the open and resolve them, rather than leaving them to fester. Other people might sometimes frustrate you by hiding their feelings, shrugging and saying “oh well” instead of standing up for themselves, like you try to do.

Your daemon’s form would represent highly sensitive nature, your frank honesty, and your devotion to friends and family. He or she would stick close to you and whisper comfort and advice in your ear most of the time. When you or your loved ones needed defending, however, he or she would become as openly vocal as you, and help you in your protestations.

Suggested forms:
Songbird, Dove, Swan, Domestic cat, Border Collie.

Take The Golden Compass Daemon Test at HelloQuizzy

Padrão
2014, Companhia das Letras, Favoritos, Ficção, Resenha

As virgens suicidas

As virgens suicidas, de Jeffrey Eugenides

“Na manhã em que a última filha dos Lisbon resolveu que tinha chegado a sua hora de se suicidar – foi Mary desta vez, e remédios para dormir, como Therese – os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficava a gaveta de facas, o forno a gás e a viga no porão, na qual era possível atar uma corda. […] Cecília, a mais jovem, com apenas treze anos, foi a primeira, cortando os pulsos dentro da banheira como um estoico, e quando a encontraram, flutuando na piscina rosada com os olhos amarelos de uma possuída e o corpinho exalando um cheiro de mulher madura, os paramédicos ficaram tão assustados com sua tranquilidade que congelaram, hipnotizados. Mas então a sra. Lisbon entrou correndo e gritando no banheiro e a realidade se restabeleceu: sangue no tapete; a navalha do sr. Lisbon mergulhada no vaso sanitário, marmorizando a água. Os paramédicos retiraram Cecília da água morna, que acelerava o sangramento, e aplicaram um torniquete em seus braços. O cabelo molhado escorria pelas costas, e as extremidades da menina já estavam azuis. Ela não disse coisa alguma, mas quando separaram suas mãos encontraram o santinho laminado da Virgem Maria que ela segurava contra os seios em botão.” (p. 7-8)

As cinco garotas Lisbon, família de classe média dos Estados Unidos na década de 1970, são jovens moças (uma “escadinha” que vai dos 13 aos 17 anos) que despertam a curiosidade dos rapazes da região. Bonitas, misteriosas e no auge da adolescência, suicidam-se por motivos desconhecidos.

O narrador se apresenta na primeira pessoa do plural; portanto, os acontecimentos são contados justamente por esses garotos dos arredores, com todo o seu interesse envolvido. Como o(s) narrador(es) não é(são) onisciente(s), é bastante inteligente a maneira como ficamos sabendo de detalhes das vidas das irmãs: depoimentos de alguns garotos que tiveram um pouco mais de contato com uma delas, ou foi convidado para jantar na casa dos Lisbon e fuçou o andar de cima (quartos e banheiro); o diário de uma delas; opiniões diversas de vizinhos. Ou seja, nada que seja extremamente confiável (inclusive, muitas vezes, o narrador mesmo conta alguma coisa e põe em dúvida o que contou).

Primeiro conhecemos Cecília (os trechos que escolhi para o início do post estão nas duas primeiras páginas do livro), a mais nova de todas, com seus 13 anos, mal entrando na puberdade. Mas sua alma é antiga, sua voz é madura e algo a aflige profundamente. Usa o tempo todo um vestido de noiva surrado, sujo e mal cortado. É esquisita, mas através dela percebemos coisas muito relevantes, como o fato de as cinco irmãs, apesar de personalidades únicas, na verdade serem praticamente uma única entidade (o que só aumenta nosso assombro em relação à história).

Cecília é estranha, mas toda a família Lisbon o é. Viviam sobre rígidas regras de costumes as quais, inclusive, o psicoterapeuta recomendou que fossem afrouxadas assim que a onda de suicídios começou, de maneira que as garotas vivenciassem experiências de descobertas sexuais, necessidade de contato com o sexo oposto e privacidade. Para o profissional, o clima de tensão e opressão sexual afetava muito negativamente a autoestima e, portanto, os pensamentos das meninas Lisbon. Este é mais um elemento que contribui para acender a imaginação dos garotos-narradores, sempre com uma curiosidade salivante em relação às adolescentes. Sério, quase dá para vê-los babando.

Não é apenas o comportamento puritano da família que intriga, mas também o clima de negação em que entram com relação aos suicídios; recusam-se a falar do assunto com vizinhos e amigos, desaparecem na escuridão do lar assim que o sol se põe, negligenciam afazeres domésticos. Quando encontram alguém, fingem que está tudo bem, embora fique claro que não está. Tudo isso contribui para o mistério que envolve a família e a história toda, prendendo o leitor pela curiosidade. A casa da família simboliza toda essa profunda negação, sendo esquecida durante meses. Suja, descascada, sombria, escura. Praticamente uma casa mal-assombrada.

Lux, a irmã de 14 anos, parece ser a mais “solta” de todas, e é sobre quem mais sabemos coisas: gosta de rock, fica com vários meninos da escola, fuma. Aliás, destaque para sua liberdade sexual, o que a faz de certa maneira o centro das atenções dos narradores. Bonnie, de 15, era bastante insegura. Mary era controladora e vaidosa e Therese, a mais velha, tinha uma característica cerebral, ligada ao aprendizado (biologia, química, idiomas, etc.). Mesmo com personalidades tão diferentes sabemos pelo desenrolar da história que algo as une como se fossem um ser único e inseparável.

O livro transita entre opostos: inocência e malícia, mistério e esclarecimento, luz e sombra, sobrenatural e cotidiano, anjos e demônios. Mas não o faz de maneira extrema, e sim é um passeio pelos limites de tudo isso, o que nos leva a perguntar onde termina um e se inicia outro? Onde termina a consciência das meninas e começa sua ingenuidade? E assim por diante, infinitamente.

Arrisco até dizer que é um livro de mistério, mas daqueles que fogem da fórmula tradicional “detetive-assassino-crime”; assim como em Crônicas de uma morte anunciada, temos que ir juntando as peças de um quebra-cabeças que talvez nunca seja resolvido (e isso é fascinante!). É claro que aqui se inclui uma grande dose de drama, também necessário. É uma narrativa preenchida com neblina.

A linguagem do autor é facílima e muito agradável de ler (acredito que a língua inglesa seja bastante objetiva se comparada com o português. Não sei nem justificar isso, é mesmo uma impressão). Por isso, a leitura voa. E, ainda assim, ele mescla a prosa com elementos poéticos que eu tanto gosto – o que não significa que o faça de maneira óbvia. É na descrição das sensações e dos acontecimentos que ficamos impressionados com as palavras escolhidas por Eugenides, nada forçado.

É um livro realmente muito muito muito bom. Só não recomendo para pessoas muito sensíveis ou muito novas. Apesar de ser uma bela novela, é um tanto melancólica e, por tratar de suicídio, também é comovente e brutal.

OBS.: Pura coincidência, o Hypeness acabou de publicar um post que cai como uma luva ao clima da adolescência nos anos 1970 nos EUA: Série fotográfica sem tabus mostra como era ser jovem nos anos 70. Belas fotos que têm tudo a ver com o livro.

+ info:

As virgens suicidas / Jeffrey Eugenides; tradução Daniel Pellizzari.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
231 páginas.

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Não recomendável para crianças ou adolescentes, nem para pessoas muito sensíveis, por conta da temática)

As virgens suicidas, filme, 1999 (breve comentário)

Conhecido por ser o filme que revelou a diretora Sofia Coppola, o filme As virgens suicidas é realmente muito fiel ao livro (com exceção de detalhes, como uma pequena parte no final). Me impressionei não só com o grau de fidelidade, mas também com a delicadeza e cuidado com que a diretora e os atores trataram o texto e a história como um todo. A fotografia remete mesmo ao período dos anos 1970, e a trilha sonora é linda. Recomendo muito!!!

+ info:
As virgens suicidas / Direção: Sofia Coppola.
– Estados Unidos, 1999.
Drama.
1h37min.
Trailer (em inglês)

classificação: 5 estrelas

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