2014, Favoritos, Ficção, Resenha

Crônica de uma morte anunciada

Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez

“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5:30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Havia sonhado que atravessava um bosque de figueiras-bravas onde caía uma garoa suave, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao despertar se sentiu por completo salpicado de merda de pássaros. ‘Sempre sonhava com árvores’, me disse Plácida Linero, sua mãe, evocando vinte e sete anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. ‘Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avião de papel de estanho que voava sem tropeçar nas amendoeiras’, me disse. Tinha uma reputação muito bem ganha de intérprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas não descobrira qualquer augúrio aziago nesses dois sonhos de seu filho, nem nos outros sonhos com árvores que ele lhe havia contado nas manhãs que precederam sua morte.” (p. 9, tradução livre)

Gabriel García Márquez foi um escritor (entre muitas outras coisas) colombiano que morreu em abril deste ano (2014). Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, e é um autor muito admirado e traduzido no mundo.

Conhecido por seu apelido, Gabo é um dos expoentes da literatura de realismo fantástico da América Latina (falei algo sobre isso no post dO último voo do flamingo), em que misturam-se elementos cotidianos e típicos de vilas latino-americanas com aspectos mágicos; a cultura da tecnologia e a cultura da superstição, ambas contraditoriamente presentes em peso na América Latina, denunciando a especificidade desse ambiente – ao mesmo tempo passado, presente e futuro; dependência e busca de autonomia; etc.

Até este mês (junho de 2014), eu havia lido uma única obra de García Márquez: Cem anos de solidão. Foi um presente do Éder, um amigo querido que anda muito sumido, a quem serei eternamente grata pela indicação e pelo livro, o qual ganhei dele por ocasião do meu aniversário em 2013. Cem anos de solidão deve ser uma das maiores obras-primas de todos os tempos. Como publiquei uma vez no facebook, minha vontade é dar um jeito de apagar a memória para que eu seja capaz de ler novamente o Cem anos como se fosse a primeira vez. Mas terei que me contentar em relê-lo qualquer dia desses e procurar fazer um texto que comente o livro minimamente à altura. Não fiz resenha dele porque quando o li (ano passado), ainda não tinha o blog. E faço questão de passar minhas impressões sobre esse livro assim que o ler de novo. Isso porque prefiro escrever a resenha enquanto leio, para não perder detalhes demais.

Vamos ao Crônica de uma morte anunciada. Encomendei o livro com meu primo Mauricio (valeu, Mau!) diretamente da Colômbia assim que o autor faleceu. Quis experimentar a linguagem de Márquez no original, e não me arrependi. Fora algumas palavras estranhas para mim, o texto se mostrou bastante fluido, como aconteceu também na tradução para o português que li de Cem anos de solidão. Devo acrescentar que tive aulas de espanhol durante o Ensino Fundamental na escola, sem as quais eu provavelmente não teria um entendimento bom do idioma.

Segundo a professora de literatura Sílvia (não sei o sobrenome dela, infelizmente), que tive o prazer de conhecer durante minha mais recente viagem a Buenos Aires, em junho deste ano, as obras de García Márquez carregam uma peculiaridade interessantíssima e para a qual eu não havia atentado antes: a primeira frase da narrativa é um resumo dela. Mais do que isso, acho que o primeiro parágrafo reflete muito bem a obra toda, como vocês podem ler no início da resenha. Aquele é o primeiro parágrafo, que resume a história e o mistério que encontraremos no texto.

Ou seja, o livro é, literalmente, a crônica de uma morte anunciada: “crônica” porque o narrador está na verdade relatando depoimentos de pessoas envolvidas no assassinato do protagonista Santiago Nasar quase trinta anos depois do ocorrido. A “morte anunciada” explica-se porque praticamente todos do vilarejo já sabiam que o assassinato aconteceria, ele estava anunciado. E é aí que reside o grande trunfo da obra: o protagonista é o único que não sabe que será assassinado, mesmo com tentativas de avisos. Vemos o nó se apertando contra sua garganta à medida em que os minutos avançam.

O livro funciona como uma espécie de quebra-cabeças, um jogo de pistas em que o mais curioso é descobrir como essa morte acontece, por quê, quais são suas causas e consequências, quem se viu implicado na trama. Mais do que isso, quem está realmente falando a verdade. Uma história formada por depoimentos (e ainda com a mediação de um narrador), é sempre de se desconfiar. Vide Bento Santiago em Dom Casmurro.

A narrativa passa-se toda em um único dia, precisamente o dia da morte de Santiago Nasar, e de forma não necessariamente linear. Aos poucos, pela boca do narrador, recebemos informações dadas pelos conhecidos, amigos e familiares da vítima, e vamos montando o contexto e a “linha do tempo” do crime em nossa cabeça.

O narrador não sabemos quem é exatamente, a não ser por suas ligações familiares e fraternais citadas ao longo da história; só sabemos que é homem e conheceu Santiago.

O crime é extremamente interessante: às claras, os assassinos se preparam, anunciam suas intenções, e ainda assim, nada nem ninguém os impede de cometê-lo. Não por falta de tentativas de avisar a vítima, mas parece que o destino é sempre mais forte que os avisos. Coincidências, más intenções e ingenuidades acabam por esconder de Santiago que está condenado a morrer naquele dia – por um motivo que conhecemos, mas ele talvez não. Um motivo justo para alguns e desnecessário para outros (desculpem o mistério, não quero contar muita coisa).

Neste livro, não há quase nada do “realismo mágico”, mas a essência do escritor está ali.

Um livro curto e de linguagem simples com uma maneira de contar histórias que só Gabo tem. Apesar de parecer uma história comum, García Márquez tem um poder de torná-la interessante e misteriosa, de dar-lhe qualidades humanas e que nos fazem questionar e reagir. É ideal para quem quer ter um contato inicial com esse magnífico escritor. O porquê de sua narrativa ser tão boa ainda é inexplicável para mim, Márquez tem algo de fascinante em sua maneira de contar histórias.

Ángel Rama escreveu a respeito de Gabriel García Márquez e sua Crônica de uma morte anunciada (em tradução livre): “E quando comecei a lê-lo [o manuscrito da Crônica], repentinamente voltei a entrar em contato com o que, para mim é o mais autêntico e persuasivo de sua arte [de García Márquez]: seu entranhamento na fascinante e absurda aventura dos homens, essa concentração admirada e aterrada nos destinos ingovernáveis, fatais e maravilhosos”. É, é bem por aí.

Como eu me sinto quando… leio algo de García Márquez.

 

 

+ info:
Crónica de una muerte anunciada / Gabriel García Márquez.
– Bogotá: Grupo Editorial Norma, 1994.
158 páginas.

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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4 comentários sobre “Crônica de uma morte anunciada

  1. tatiana disse:

    Acabei de ler esse em espanhol também. Achei bem fácil e adorei e leitura. A questão de não cronologia, mas envolvendo e não deixa confuso. Gostei de não saber no final se o motivo era verdade ou não. Também gostei de que o narrador se prende o tempo todo a um detalhe pequeno: se no dia da morte chovia ou não! Várias pessoas falam com convicção que sim e que não, o que nos deixa com dúvidas em relação à credibilidade dos entrevistados. Beijos! !

    • Perfeitooooo, Tatá!!! Amei seus comentários!!!!!!! Vc tem toda razão!
      Também gostei de não saber se o motivo era ou não verdade. E a questão dos personagens, cada um falando uma coisa sobre o tempo nos leva a desconfiar o tempo todo! Muito genial, né? Amo García Márquez! ❤
      Beijoooo!

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