Companhia das Letras, Ficção, Resenha

O último voo do flamingo

O último voo do flamingo, de Mia Couto

“Saímos. Na rua, o italiano pareceu ficar vencido pela frescura do fim de tarde. As vendedoras do bazar já arrumavam as suas mercadorias e uma imensa paz parecia regressar à interioridade das coisas. Risi sentou-se no único bar da vila. Parecia querer estar só e eu respeitei esse desejo. Me arrumei mais longe, tomando minha dose de fresco. As pessoas passavam e saudavam o estrangeiro com simpatia. Decorreram, inúmeros, os momentos e lhe perguntei se desejava regressar à pensão. Não queria. Apetecia-lhe nada, simplesmente ficar ali, longe do quarto, distante das obrigações. Sentei-me a seu lado. Ele me olhou, como se fosse por primeira vez:
– Você quem é?
– Sou seu tradutor.
– Eu posso falar e entender. Problema não é a língua. O que eu não entendo é este mundo daqui.
Um peso invisível lhe fez descair a cabeça. Parecia derrotado, sem esperança.
– Tenho que cumprir esta missão. Eu queria só receber a promoção que há tanto espero.
– O senhor vai conseguir.
– Acha que vou saber quem fez explodir os soldados?” (p. 40)

Mia Couto é um renomado escritor moçambicano (é também biólogo), cuja obra abarca além de romances ficcionais (como este que analisarei), também poemas, contos e crônicas. Foi ganhador de alguns prêmios e é reconhecido como um dos melhores romancistas africanos.

A história de O último voo do flamingo passa-se em Moçambique, mais precisamente em um vilarejo (fictício) de Tizangara. Tizangara é um daqueles locais que se tornam um personagem próprio: bem como a Pagford e a Hogwarts de J. K. Rowling, ou a Macondo de García Marquez. Ali, coisas estranhas acontecem.

O evento que impulsiona a trama é a explosão de um soldado da força de paz da ONU que se encontra em Tizangara (e com outros acontece o mesmo, posteriormente). Tem mais um detalhe: o que resta dessa explosão é simplesmente um pênis decepado e o “boné” azul claro das Nações Unidas. A multidão se aglomera à sua volta, e autoridades do país e da ONU vão até o vilarejo investigar o acontecido e tomar providências. Um deles é o italiano Massimo Risi, que coleta depoimentos dos moradores da vila para tentar desvendar o caso. Mesmo Risi compreendendo português e falando também, lhe é designado pelo administrador de Tizangara um tradutor, que é precisamente o narrador da história.

Capacetes azuis da ONU

Os personagens são absolutamente curiosos: o administrador fanfarrão e corrupto, sua mulher vaidosíssima, auto-nomeada “Primeira-Dama” (pensa ter um poder infinitamente maior do que o que tem de fato), a atrevida prostituta Ana Deusqueira, Temporina, uma anciã quase centenária com corpo perfeito de moça jovem e bem torneada, e assim por diante.

A linguagem de Couto é um show à parte: seu vocabulário derrete em nossa boca como se cada palavra fosse um torrão de açúcar. Aqui vai uma compilação das minhas favoritas (isso pode demorar um pouco): “vocabuliam-se”, “instantaneavam-se”, “bazarinhando”, “murmuração”, “labirintoar”, “metafisicou”, “atrapalhaço”, “manteigoso”, “olhos que cuspiam”, “nenhumarias”, “enlividecer”, “despoeirados”, “nhenhenhou-se”, “maisculino”, “ocavidades”, “cancromida”, “sotaque de nuvem”, “leito desconjugal”, “desilusionista”, “moribundição”, “desmundasse”, “A pálpebra já se desenhava em estalactite”, “barco-íris”, “ondarilhando”, “eu viajara mais lembranças que quilômetros”, “vento pontiagudo”, “olhou mais longe que seu olhar”, “cabisbruto”, “cabritroteava”, “nestes silêncios africanos”, “pãodemônio”, “coitadeza”, “maltrapilhoso”, “passaritos”, “administratriz”, “apalpita”, “conversa afilhada”, “arrependente”, “extralinhas”, “contratemporal”, “recintilou”, “berlindaram”, “pendurico”, “sucedência”, “saltinhar”, “trombiricalho”, “tomatear-me”, “ensombrou”, “contadeirices”, “belzeburro”, “excelenciosos”, “ruássemos”, “ninguém era prisioneiro senão de seu próprio destino”, “empedrecidos”, “zuezuado”, “desmodos”, “levado da broca”, “a fronteira da vida, para além do nunca mais”, “a lágrima plagia o oceano”, “tantíssima”, “o azul desse céu era tão intenso que se vertia líquido”, “matabichava”, “açucaroso”, “atabaralhou”, “testemunhas miloculares”, “ziguezangado”, “plantação de nuvem, rabisco de pássaro”, “antigamentes”, “prateleirado”, “outroísmos”, “estremunho”, “redesistiu”, “iluaminados”, “má-vidista”, “direitos desumanos”, “panicar”, “pontapeado”, “descargo de inconsciência”, “adiantosamente”, “minusculado”, “neblinar-se”, “pernaltaria”, “se derradeirava”, “mulherado”, “fidamãe”, “palavroso”, “desacontecimento”, “satanhoco”, “esparramorto”, “suspirosa”, “inesquelético”, “minhocava”, “infernezas”.

Talvez algumas sejam parte de algum dialeto moçambicano, ou mesmo do português!, mas a maioria é neologismo dos bons. Sobre sua linguagem, o próprio autor a comenta em seu discurso por ocasião do recebimento do Prêmio Mário Antônio (2001):

“A terra, a árvore, o céu: é na margem desses mundos que tento a ilusão de uma costura. É uma escrita que aspira ganhar sotaques do chão, fazer-se seiva vegetal e, de quando em quando, sonhar o voo da asa rubra. É uma resposta pouca perante os fazedores de guerra e construtores da miséria. Mas é aquela que sei e posso, aquela em que apostei a minha vida e o meu tempo de viver”.

Apesar de ter um enredo bem definido, O último voo do flamingo é muito mais profundo que apenas a história das explosões. Traz um gosto de africanidade com o qual não temos contato muito constante; as questões de magia, crenças, antepassados, palavras, ausências, colonização, imperialismo, má administração, corrupção, vida e morte, velhice, sabedoria, autonomia, são todas muito presentes e de maneira extremamente poética. Fora que é interessantíssimo ver uma narrativa da África feita por um africano.

Geralmente, o realismo fantástico é tido como uma prerrogativa latino-americana por excelência (Alejo Carpentier em Reino deste mundo; García Márquez em Cem anos de solidão, Jorge Luis Borges em diversos escritos, talvez sendo A biblioteca de Babel um dos mais conhecidos). Um tipo de narrativa literária (considerado uma resposta à literatura fantástica europeia) em que se misturam elementos tecnológicos, naturais, mágicos e de superstição popular. Mais do que isso, percebemos um trânsito muito fluido de uma coisa para outra: os eventos fantásticos são algo corriqueiro nesses mundos. Achei este livro de Mia Couto um exemplo-máximo de realismo fantástico. Não sei se os círculos acadêmicos que classificam os gêneros e tipos dos livros concordam comigo, mas estou convicta de tal caracterização. O tempo todo oscilamos entre eventos naturais (explosões, mortes, boatos) e um mundo mágico o qual não compreendemos bem (não podemos compreender bem, por não sermos parte da vila). Somos o italiano, perdido em depoimentos, acontecimentos estranhos, no não-entendimento. O intuitivo se sobrepõe à lógica, e por isso não nos é plenamente compreensível.

Apesar de tudo isso, é uma obra muito leve e com passagens engraçadas, de agradabilíssima leitura. Entrou para minha lista de livros favoritos; recomendo demais.

Um último comentário: o início do capítulo 4, “apresentação do falador da história”, é um dos mais lindos que já li. É sobre a mãe do tradutor-narrador, de uma sensibilidade infinita. O último capítulo também é poesia pura.

+ info:
O último voo do flamingo / Mia Couto.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
225 páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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