2014, Ficção, Nova Fronteira, Resenha

O caçador de pipas

O caçador de pipas, de Khaled Hosseini

“O campeonato de pipas era uma velha tradição de inverno no Afeganistão. O torneio começava de manhã cedo e só acabava quando a pipa vencedora fosse a única ainda voando no céu — lembro de uma vez que a competição terminou quando já era noite fechada. As pessoas se amontoavam pelas calçadas e pelos telhados, torcendo pelos filhos. As ruas ficavam repletas de competidores dando sacudidelas e puxões nas linhas, com os olhos fixos no céu, tentando se pôr em condições de cortar a pipa do adversário. Todo pipeiro tinha um assistente — no meu caso, Hassan —, que ficava segurando o carretel e controlando a linha. […]
Só que isso não era tudo. A brincadeira começava mesmo depois que uma pipa era cortada. Era aí que entravam em cena os caçadores de pipas, aquelas crianças que corriam atrás das pipas levadas pelo vento, até que elas começassem a rodopiar e acabassem caindo no quintal de alguém, em uma árvore ou em cima de um telhado. Essa perseguição podia se tornar bastante feroz; bandos de meninos saíam correndo desabalados pelas ruas, uns empurrando os outros como aquela gente da Espanha sobre quem li alguma coisa, aqueles que correm dos touros. Uma vez, um garoto da vizinhança subiu em um pinheiro para apanhar uma pipa. O galho quebrou com o seu peso e ele caiu de mais de dez metros de altura. Quebrou a espinha e nunca mais voltou a andar. Mas caiu segurando a pipa. E quando um desses caçadores põe a mão em uma pipa, ninguém pode tirá-la dele. Isso não é uma regra. É o costume.” (p. 40)

Apesar de ter escolhido um trecho sobre pipas, O caçador de pipas não é essencialmente sobre isso. Quero dizer, é claro que a competição de pipas é um dos cenários da narrativa (e também uma metáfora), e é ela, juntamente com outros eventos, que desencadeia o nó dramático da história.

Este ano parece que estou atraindo livros com uma temática bem mais oriental do que estava acostumada (Os versos satânicos, que mistura um pouco das culturas indiana e islâmica, entre outras; Eu sou Malala, do Paquistão; Persépolis, do Irã). Como já comentei em outra resenha, tive a impressão de que tais livros escritos por “orientais”, carregam em si uma boa dose de revolta (contrariando algumas imagens comuns que se têm do Oriente, da paciência e da submissão). Os versos satânicos menos; Malala e Persépolis mais. Acho que O caçador de pipas contém algo diferente, menos revoltado com acontecimentos externos (como a mudança de regime político no Afeganistão de monarquia para República, o regime Talibã) e mais preocupado com questões internas.

A história se passa no Afeganistão, na casa de uma família de classe média. É contada em primeira pessoa por Amir, um adulto que mora nos Estados Unidos, mas que nasceu e passou toda a sua infância no Afeganistão. E grande parte da narrativa é sobre a infância de Amir. Ele é o garoto que mora com o pai na casa de classe média (sua mãe morreu em decorrência do parto), e eles têm dois empregados, Ali (pai, da idade do pai de Amir) e Hassan (filho, da idade do próprio Amir). Na verdade, além de empregados, os dois fazem parte de uma dualidade: são considerados parte da família, mas devem servi-la. Vale destacar que são de uma etnia diferente dos donos da casa (considerada inferior), e também de uma corrente religiosa diferente.

Amir e Hassan eram muito amigos: brincavam juntos todos os dias, passeavam, contavam histórias (o menino mais pobre não sabia ler nem escrever, pois “afinal, para que um criado precisaria da palavra escrita?” [p. 25]), pegavam frutas, empinavam pipas, conversavam.

Hassan é um personagem bem interessante – ainda mais se considerarmos que o vemos através do olhar de Amir -: fisicamente, tinha um lábio leporino, rosto bem redondo e olhos “rasgados”, e moralmente, nos parece impecável: uma criança pura, extremamente leal a seu amigo e amo Amir (tão leal que chega a dar raiva*). Amir não se descreve, mas alguns traços de sua personalidade são extremamente transparentes: seu desejo de agradar ao pai, o qual não tem orgulho dele e considera seu filho fraco e diametralmente diferente de si próprio, sua culpa pela morte da mãe e por sua covardia. Tais traços (dos dois garotos) são fundamentais para que a história aconteça.

(*Atualização: tenho mais raiva de Amir que de Hassan, talvez tenha me expressado mal. Hassan é um personagem lindo. Acho que tudo tem a ver com a ótica de Amir, que é a única que possuímos, já que é uma narrativa em primeira pessoa. Talvez por isso tenha falado em “raiva” pela lealdade cega de Hassan. A agonia na verdade é em relação às atitudes de Amir, e não de Hassan. A “raiva” é porque Hassan não merece Amir naquele momento. Portanto, ele não deveria ser leal a esse ponto!)

Apesar de toda essa amizade aparentemente inquebrantável, algo acontece que a abala (não posso contar o que é, seria o maior de todos os spoilers!). Um evento específico que decorre dos traços psicológicos dos dois amigos e das circunstâncias. Algo extremamente violento – aliás, acho que posso dizer que a violência (física) é algo recorrente no livro. Seja entre vizinhos, seja entre o Talibã e o povo afegão.

Pensei que a obra seria baseada na infância dos dois meninos, mas ela evolui. Eles crescem (continuamos a acompanhar a narrativa de Amir, que vai para os Estados Unidos com o pai, e ficamos sem grandes notícias de Hassan, apenas convivendo com os pensamentos que aquele tem deste). É a vida que segue: casamentos, doenças, mortes, e, enfim, um telefonema vindo do Paquistão (onde muitos afegãos se refugiaram para escapar dos talibãs), que novamente muda todo o curso da história de Amir.

Ele retorna para sua terra, e lá, recebe uma série de revelações bastante surpreendentes (que difícil escrever sem dar spoilers!!!), sobre seu pai, sobre Hassan, sobre sua infância e sobre o presente. Precisa encarar suas feridas do passado e tenta consertá-las de alguma maneira, em busca de reduzir a culpa que o corrói desde sempre.

Devo dizer que o enredo é bem interessante, vários momentos “prendem” a leitura. A linguagem é bem simples, o que facilita que voltemos a atenção para a narrativa, os personagens, etc. Mas o que realmente gostei no livro é a sensação de “viagem” que ele dá: parece que passei a conhecer bem mais o Afeganistão agora que terminei de lê-lo. E eu amo esse sentimento (também está acontecendo isso com a coleção Os filhos da Terra, em que tenho a impressão de que realmente conheço partes da Pré-História, apesar de todos esses livros serem romances ficcionais).

Mesmo assim, não entra na minha lista de favoritos. Particularmente, prefiro textos com uma linguagem mais densa, em que forma e conteúdo se fundem (Saramago, Guimarães Rosa, García Márquez). E alguns momentos da narrativa chegam a ser melodramáticos.

Achei um livro interessante para visualizar partes de algumas culturas mais distantes da nossa: a afegã, a islâmica. E tem também algumas qualidades narrativas, mas senti falta de outros elementos, que não sei exatamente especificar. Provavelmente a falta de alguma marca de linguagem do autor (quem sabe isso não se perdeu um pouco com a tradução), e também de problematizações mais profundas. O Talibã e seus horrores são mostrados com clareza, mas não com olhar crítico. Acho que isso também me incomodou um pouco.

Obrigada ao querido amigo Edmar pela recomendação! 🙂

 

+ info:
O caçador de pipas / Khaled Hosseini; tradução Maria Helena Rouanet.
– Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
365 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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7 comentários sobre “O caçador de pipas

  1. Li “A Cidade do Sol”, do mesmo autor (Khaled Hosseini), que fala mais da condição feminina no Afeganistão. É bastante forte, como dá p/ imaginar e ensina muito sobre este país. Acredito que ” O caçador de Pipas” deva ser nesta mesma linha, com a grande diferença de se tratar de uma estória essencialmente masculina, o que, de certa forma, a torna mais amena, pelas razões conhecidas, com relação ao tratamento das mulheres, que desde a infância sofrem com a intolerância, a violência e o machismo. Sei que os dramas masculinos também podem ser enormes, numa sociedade repressora e radical, mas não chegam perto do inferno feminino…

  2. Aí amiga, como comentar essa sua resenha incrível sobre o livro que marcou a minha vida enquanto leitor e até hoje me emociona quando retomo a leitura ou quando assisto ao filme. O comentário que mais gostei foi “tão leal que chega a dar raiva” não esperava esse seu sentimento, pois eu nunca o senti. Sinto na realidade um turbilhão de emoções que se desmancham na imensidão da minha alma. A cultura afegã, seus valores, seus costumes marcam boa parte da narrativa e, isso pra mim, é o que mais mexe comigo. Fora a parte da feirinha de artesanatos que é o cenário ideal para se conhecer um grande amor. Dou pulos de alegria e fico eufórico quando ele descreve Soraia. Nossa quem me dera viver um grande amor assim. A linguagem realmente é fácil e chego a me perguntar se conseguirei ler obras tão profundas as quais você mencionou. Espero que sim! Concordo com o comentário do Ítalo em que a voz do autor se dissipa durante toda a trama e acredito que é isso que faz do livro ser único e, particularmente, o melhor da minha vida. Acho que me identifico muito com o livro porque a minha vida sempre foi marcada por grandes amizades e que hoje se dissiparam no percurso da minha vida, mas que lembro sempre como feridas ou cicatrizes da minha formação sócio-histórica. Por eles faria mil vezes! Nati, obrigado mais uma vez por se lembrar de mim! Mais uma vez maravilhosa resenha!

  3. Eu li O Caçador de Pipas faz muito tempo… Lembro que me surpreendeu o foco primário numa trama tão individual, familiar. Mas achei isso legal. Me encantou o cenário do país ser um pano de fundo dessa história, com o contraste temporal tão demarcado do ambiente entre sua infância e seu retorno. É o mesmo lugar, mas há um infinito entre as duas realidades.

    Ainda não li Cidade do Sol, mas discordo que a história seja amena por ser focada em um personagem masculino. Tire o zoom do Amir e coloque no Hassan e a conversa muda completamente.

    A propósito, pessoalmente tinha mais raiva da fraqueza de Amir que da lealdade cega de Hassan. Sua Jornada do Herói é lerda demais! Mas, talvez seja como você diz, personagens imperfeitos são mais interessantes, marcantes.

  4. Achei perfeito o que vc falou aqui, Mau: “Me encantou o cenário do país ser um pano de fundo dessa história, com o contraste temporal tão demarcado do ambiente entre sua infância e seu retorno. É o mesmo lugar, mas há um infinito entre as duas realidades.”
    E concordo também quando diz que o fato de serem personagens masculinos não ameniza em nada nesse caso (o comentário acima é da minha mãe – ela usou meu computador e estava logada como eu -, e ela não leu “O caçador de pipas”). Hassan sofre demais.
    Eu também tenho mais raiva de Amir que de Hassan, talvez tenha me expressado mal (até que bastante gente falou nessa raiva que eu coloquei no texto :P). Hassan é um personagem lindo. Acho que tudo tem a ver com a ótica de Amir, que é a única que possuímos, já que é uma narrativa em primeira pessoa. Talvez por isso tenha falado em “raiva” pela lealdade cega de Hassan. A agonia na verdade é em relação às atitudes de Amir, e não de Hassan. A “raiva” é porque Hassan não merece Amir naquele momento. Portanto, ele não deveria ser leal a esse ponto! Hahaha não sei se deu pra entender.

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