2014, Estatística, Pesquisa

Estatísticas da Literatura brasileira

Olá, meu povo!

Ando um pouco sumida, pois estou absorta no livro A terra das cavernas pintadas, o sexto volume da série Os filhos da Terra. Resenhei o quinto volume (O abrigo de pedra), e o sexto ainda não tinha sido lançado. Quando acabar, provavelmente farei uma nota no post, já que nele também comentei sobre a série como um todo. De qualquer maneira, estou lendo já faz um tempo (a leitura está mais lenta desta vez – mais por minha culpa do que do livro), e o livro é grande (671 páginas).

Mas não é disso que vim falar. Hoje não tem resenha. Vim para divulgar uma pesquisa muito interessante sobre romances brasileiros atuais.

Como boa feminista* (eu tento!), procuro destacar em diversos posts papéis femininos na literatura e em filmes (como fiz com Malala neste, Sandra neste, Ayla neste, Bela neste e Marjane neste, por exemplo). Não porque acho que as mulheres são ou devem ser superiores aos homens (esta é a definição errada de feminismo!!!). Mas pelo simples fato de que todos merecem ser representados nas artes. Por isso tendo a destacar (e às vezes defender) os papeis considerados “minoritários” na população (não em número, já que as chamadas “minorias” costumam ser maioria!): mulheres, negros, pobres. Faço isso porque é mais raro vermos um personagem gay em comparação a um heterossexual. Ou um negro em comparação a um branco. Ou uma mulher em relação a um homem. Pelo menos em personagens “importantes” ou principais.

E esta manhã meu grande amigo Pedro Menchik (visitem o excelente blog dele, sobre alimentos. Ele investiga mitos relacionados a este assunto com grande competência e autoridade, já que é formado em Engenharia de Alimentos) me presenteou com uma pesquisa que nos brinda com algumas estatísticas sobre a Literatura brasileira contemporânea (1990-2004). Veja o infográfico (retirado deste site, o qual também nos apresenta os links com as pesquisas em pdf).

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Acredito que os dados falam por si sós. Não significa que queiramos que homens brancos, graduados, de meia-idade e do eixo Rio-SP parem de escrever. É ÓBVIO que não. Também seria simplista pensar em fazer “cotas” para que personagens negros, femininos, etc., apareçam na literatura nacional contemporânea (acreditem, isso já foi sugerido em tom de brincadeira. Sempre em tom de brincadeira). A grande questão (literária) a ser levantada é: provavelmente ignoramos um número quase infinito de histórias interessantes por nos focarmos em pouquíssimos tipos de personagens. Me parece que, neste sentido, autores como Jorge Amado, Clarice Lispector e João Guimarães Rosa (para não citar outros) são realmente geniais, ainda mais considerando o período em que escreveram. Não que eles sejam gênios por retratarem mulheres e pobres, mas sim por “pensarem fora da caixa” em épocas em que esses números eram provavelmente ainda mais concentrados.

E, obviamente, caímos no problema de representatividade da população – mais especificamente da população brasileira. Estamos falando de livros, um item de luxo para a grande maioria da nossa população (não só pelo preço, mas principalmente pelo analfabetismo funcional e nossa falta de educação em estimular a leitura). E se fizéssemos estatísticas parecidas para personagens de novelas e programas de tevê? Filmes? Anúncios de revistas e jornais? QUANDO aparecem na mídia (o que inclui redes sociais), como são retratados? O que se destaca das mulheres? E dos negros? E dos gays?

Provocações:

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Algumas propagandas (de antigamente e de hoje):

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Para complementar, mais uma indicação do Pedro Menchik (ao mesmo tempo hilária e preocupante – em inglês): tabloides falando sobre celebridades (majoritariamente mulheres) e destacando coisas ridículas e/ou absurdas, tais como a falta de maquiagem, o tipo de roupa (em tom de censura), relacionamentos amorosos. Ah! Ao lado, existem as respectivas “correções” das manchetes (como essas coisas deveriam ter sido noticiadas, retirando o sexismo), muito bom. Sem esse tipo de ridicularização, muitas delas nos passariam despercebidas, pois somos todos sexistas (alguns mais, outros menos).

E aí, qual é a sua opinião? Parece exagero se revoltar contra este tipo de coisa? Esse tipo de crítica é babaquice dos chatos “politicamente corretos”? Anúncios e pesquisas como esses refletem aspectos da nossa sociedade?

 

+ textos complementares:

*Se você não sabe o que é feminismo (a maioria das pessoas tem uma ideia errada), recomendo a leitura deste texto. Não é acadêmico, mas dá um bom panorama de algumas ideias feministas. Provavelmente você também é feminista! 🙂

E, como sempre, recomendo este vídeo: Os perigos de uma história única. Se ainda não viu, veja por favor!

 

Obrigada pela leitura!
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6 comentários sobre “Estatísticas da Literatura brasileira

  1. Realmente, você arrasa quando escreve amiga! Gostaria de enfatizar essa questão da nomeação ou categorização das “minorias”. Concordo em pensar que não são minorias, mas sim maiorias. Negros, mulheres, gays fazem parte da diversidade cultural do nosso país. Inúmeros pesquisadores afirmam que a nomeação é a maior arma usada pela mídia para separar os bonzinhos dos bandidos é, por meio, da nomeação que ratifico valores sociais constantemente disseminados em nossa sociedade e reafirmo esteriótipos e ajudo na segregação dos grupos sociais. Seu texto deixa claro, do ponto de vista dialógico que a linguagem é o grande arame farpado da sociedade e que dificilmente acabaremos com preconceito, mas acredito que podemos fazer com que as pessoas reflitam sobre estas questões e se posicionem criticamente frente a esses assuntos de interesse social.

  2. Tatiana disse:

    Imagino que a porcentagem de pessoas que leem livros (e ainda mais romances brasileiros) seja muito menor do que a que vê novelas no Brasil. Se os livros estão refletindo uma sociedade homogênea assim, imagina só como não estamos perdidos (o próprio post faz referência a essa mídia). Para mim é um pouco um círculo vicioso: a mídia e literatura reflete a mentalidade da sociedade (e não a sociedade em si) e alimenta essa mentalidade “simplificando” de um jeito ruim coisas. Mudar isso apenas se for com gênios como você citou.

    Ah! Todos os posts quase tem referência a um dos melhores TEDs (o da história única), mas nunca coube tão literalmente como neste!

  3. Maria Clara disse:

    Nossa, eu nunca adivinharia que na literatura os números são tão gritantes… Muito interessante e curioso. E, como você bem colocou, imagine as estatísticas dos personagens da mídia…

    P.S. Seu post me deu vontade de reler ‘Ana Terra’… É uma bela exceção nessas estatísticas excludentes, né? =)

  4. Pingback: Estatísticas da Literatura brasileira – LAB Mulher Negra – Três gerações. Uma narrativa

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