2014, Companhia das Letras, História, Não ficção, Persépolis, Quadrinhos, Resenha

Persépolis

Persépolis, de Marjane Satrapi

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É impressionante o quanto ando atraindo livros com temática mais oriental (veja Os versos satânicos) e/ou feminista (veja Eu sou Malala). Ok, não parecem muitos, mas dos que eu li em 2014 (que foi quando iniciei o blog), até que formam uma bela porcentagem. Todos trazem em si um pouco muito de rebelião, seja ela em forma de protestos, seja uma rebelião interna.

Persépolis segue nessa linha. Narrado em primeira pessoa, conta a história da autora, Marjane Satrapi, uma (nos anos 1980) garota iraniana que se vê metida em plena “revolução”.

No início do livro até tem uma “introdução” que conta um pouco da história da Pérsia, constantemente invadida, e mais tarde convertida pelos árabes em nação islâmica. Vemos que o Irã é um país assolado por golpes de Estado, sendo alguns governos mais liberais, outros mais conservadores (digamos a verdade: retrógrados).

De classe média, sua família é bem escolada e seus pais, bastante progressistas. A mãe não usa véu (até que se vê obrigada a fazê-lo), a própria Marji quer tornar-se química, entre muitos outros exemplos. Ou seja, nada parecido com o estereótipo que temos das “mulheres do islã”, como também não o é Malala (as duas têm muitos paralelos). Pelo menos não até que fundamentalistas religiosos chegam ao poder no Irã, tornando algumas regras obrigatórias: o uso obrigatório do véu para mulheres (e meninas), a separação de meninos e meninas nas escolas, o fechamento de universidades, a condenação de tudo que fosse Ocidental, entre várias outras coisas.

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Apesar de todo o seu amor por ciência e livros, Marjane também é religiosa. No começo do livro ela conta, de maneira divertida, que acreditava ser a última dos profetas de deus quando era pequena. Ela até escreveu um “livro sagrado”, o qual só mostrou para a avó. Acho importante que contemos histórias de mulheres que possuem várias facetas (às vezes até contraditórias!): iraniana, religiosa, apaixonada por livros e ciências, rebelde, escritora e desenhista, profeta (!). Como também seria muito válido contar sobre uma norte-americana que sonha em casar-se e ter 10 filhos e é adepta do Partido Republicano. O problema é “o perigo de uma história única (por favor, se você nunca viu este vídeo, VEJA – está em inglês. Eu o cito em praticamente todo post.). Se lemos SOMENTE sobre mulheres iranianas submissas, vamos generalizar o pensamento e assumir que toda mulher iraniana é submissa.

Os grandes vilões da história são mesmo os governantes violentos e obscurantistas que tomam conta do país a partir de 1979 com a chamada “Revolução Iraniana“. Os quadrinhos mostram casos de torturas, prisões, mortes e exílios de opositores do regime. Parece que algumas coisas são comuns, sejam em ditaduras no Paquistão, no Brasil ou no Irã.

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Marji é mandada para a Europa com seus pais, já que ela não é a garota mais obediente do mundo (“obediente” para o regime, o que a colocava em perigo). Lá, passa por poucas e boas (amigos esquisitos, tráfico de drogas, a questão do sexo, moradia). Mas não quero revelar mais muito do enredo.

Eu gosto muito de quadrinhos, mas ultimamente mais vejo tirinhas do que qualquer coisa (alguns de meus favoritos são Laerte, André Dahmer, Galvão Bertazzi, além dos clássicos Charles Schulz, Quino e Bill Watterson). Não estou tão acostumada assim com o formato de quadrinhos (ok, eu apenas era a fã número 1 dos quadrinhos da turma da Mônica, mas isso já faz alguns aninhos…) em livros, como uma grande história. E confesso que fiquei com receio de acabar meio perdida, porque pensei que fosse ter uns quadrinhos circulares, finos, e isso fosse me confundir (o que ficou confusa foi minha explicação então vão alguns exemplos aí embaixo). Aliás, estou tentando me aventurar por livros / autores / temáticas / formatos que não são tão a minha praia. Ainda mais depois que li este texto e concordei em grande parte com ele. Porém, Persepolis são quadrinhos bem fáceis de serem seguidos, lineares mesmo, e inclusive divididos em capítulos, cada um com um título próprio.

Não entendi nada do que aconteceu aqui… só que o Homem Aranha tá arrasando.

Esse dá pra entender tranquilamente, mas é só um exemplo dos tais “quadrinhos circulares” de que falei.

Aliás, me chamou muito a atenção o fato de os quadrinhos de Marjane se parecerem com xilogravuras de literatura de cordel! Não achei nenhuma referência a isso, nem sei se existe essa influência mesmo, mas é parecido demais!

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Marjane e sua família pulando fogueiras de São Joã… OPS!

Iranianos protestand… OPS! Este é um cordel sobre a lei da Ficha Limpa!

Além disso, é sempre bom aprender mais sobre História, Geopolítica e outros temas em HQ! Mesmo com um tema sério, o formato de quadrinhos dá um tom mais leve ao assunto e, por que não, mais palatável.

Por último, um aspecto que não é linear é o tempo da narrativa: não é exatamente cronológico, existem muitos flashbacks. Portanto, o capítulo seguinte pode ser sequência do anterior ou não – tive que voltar algumas vezes na história para me situar por conta disso.

É um bom livro, leve e pesado ao mesmo tempo. Leve por conta do formato, e pesado, por conta da temática. Em muitos momentos misturam-se o cômico e o trágico na história de Marjane.

Obrigada à linda e querida Safiri, que me deu o livro de aniversário em janeiro!!!

+ info:
Persépolis / Marjane Satrapi; tradução Paulo Werneck.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Várias páginas, mas elas não são numeradas…

classificação: 3 estrelas
(Três estrelas só porque sou chata, o livro é legal)

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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