2014, Contexto, História, Não ficção, Resenha

1964: História do Regime Militar Brasileiro

1964: História do Regime Militar Brasileiro, de Marcos Napolitano

1964

“Hoje em dia, nenhum historiador, não importa suas simpatias ideológicas, duvida que o regime militar foi um regime conservador de direita. Mas o teor conservadorismo pode até ser discutido, pois ele se combinou com a tradição do reformismo autoritário da história republicana brasileira. Em linhas gerais, essa tradição de pensamento tinha uma vocação modernizadora que nem sempre se conciliava com outros grupos historicamente conservadores, como os católicos e as oligarquias liberais. Os militares de 1964 eram anticomunistas e contra o reformismo democratizante da esquerda trabalhista, mas tinham uma leitura própria do que deveriam ser as reformas modernizantes da sociedade brasileira, na direção de um capitalismo industrial desenvolvido e de uma democracia institucionalizada e sem conflitos, com as classes populares sob tutela. Os militares golpistas se apresentaram como ‘revolucionários’ ao mesmo tempo em que defendiam a ordem, pois pretendiam modernizar o capitalismo no país sem alterar sua estrutura social. Eram antirreformistas, mas falavam em reformas. Falavam na defesa da pátria, mas criticavam o nacionalismo econômico das esquerdas. Prometiam democracia, enquanto construíam uma ditadura. O viés conservador anticomunista era o único cimento da coalizão golpista de 1964 liderada pelos militares, que reunia desde grandes liberais hesitantes até reacionários assumidos, golpistas históricos e golpistas de ocasião, anticomunistas fanáticos e ‘antipopulistas’ pragmáticos, empresários modernizantes e latifundiários conservadores.” (p. 314)

politizado

O historiador Marcos Napolitano é professor de História do Brasil Independente no departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). Tive o prazer de tê-lo como professor durante a graduação e por pouco não fui pedir para ser orientanda dele. Faltou coragem. Especialista em cultura na época da ditadura militar no Brasil, Napolitano tem um jeito muito calmo de dar aula, e tenho boas lembranças de seu curso. Confesso que História do Brasil nunca foi meu assunto preferido (quanto mais República!!!), até começar a efetivamente a dar aula sobre o assunto. Foi quando atentei para detalhes que não dei importância antes e que fazem toda a diferença na análise presente do nosso país. Agora, passei a adorar História do Brasil República, e procuro passar esse entusiasmo para meus alunos.

Posso fazer outra confissão? Não gosto de livros técnicos. Acredito que historiadores são muito acadêmicos em sua escrita – são poucos os que escapam desse vício -, o que acaba tornando os livros de História muito maçantes, cheios de dados e análises com palavras difíceis. Por isso é que muito jornalista por aí vende (pra caramba!) livro de História. Eles escrevem de um jeito palatável para o público em geral e, neste sentido, nós historiadores temos muito a aprender. Porém, nada substitui um bom livro de História, com fontes primárias e análises metódicas. O problema desses livros de jornalistas que escrevem sobre História é que, por não terem estudado sobre isso, não possuem um método de análise de fontes, e tendem a ser muito anacrônicos. Ou seja, aplicam conceitos atuais em acontecimentos do passado, coisa que não pode ser feita (já que o conceito não existia, ou era diferente!). Ou então julgam o passado por esses conceitos. Por exemplo, há quem afirme que Hitler e o nazismo eram de esquerda (por conta da alta intervenção estatal e do nome “nacional-socialismo”, entre outras coisas). Mas Hitler queria manter o capitalismo e perseguia sistematicamente comunistas (quem quiser ler mais argumentos contra isso, veja este texto). O anacronismo é o primeiro pecado do historiador. De qualquer maneira, não é sobre isso que vim falar.

[Só mais dois adendos:
1) apontaram em um grupo do facebook e é verdade: a capa de 1964 é muito parecida com a capa de 1889, do jornalista Laurentino Gomes.

1964

Claro que é uma jogada de marketing da editora do livro sobre o regime militar, já que os livros de Gomes vendem muito.

2) Amigos, por favor, se vocês não forem historiadores, não me deem livros de História de presente. É raro alguém acertar. Geralmente pegam livros que estão entre os mais vendidos e que têm um assunto histórico, mas essas tendem a não ser leituras de boa qualidade. Eu amo ganhar livros, podem continuar me presenteando com eles, mas escolham um que vocês gostaram de ler, de preferência algo mais literário. Nada de coisas técnicos. Mesmo assim, agradeço a todos os que já me deram livros de História até hoje, alguns foram bons!]

Pronto. Vamos ao livro?

O título remete ao ano do golpe civil-militar no país, provavelmente porque em 2014 completam-se 50 anos do evento. E ainda tem quem o chame de “contrarrevolução”.

Mas o recorte temporal do livro é do governo João Goulart (1961-64) até a reabertura política (1985, com a entrada de José Sarney na presidência). Por vezes, esse recorte é extrapolado e o autor recorre tanto a tempos prévios (governo Jânio Quadros, Getúlio Vargas) quanto a discussões extremamente atuais.

Como todo bom historiador, Napolitano parte de perguntas sobre o tema. Por exemplo: “Jango foi o responsável pela crise de 1964?”, “O golpe foi puramente militar ou civil-militar?”, “A ditadura para valer só começou com o AI-5, em 1968?”, “A esquerda armada foi a principal responsável pelo acirramento da violência de Estado?”, “As artes e a cultura de esquerda estavam inseridas na indústria cultural ou foram meras concessões episódicas por parte desta?”, “A sociedade, predominantemente, resistiu ou apoiou a ditadura?”, “A abertura do regime foi um movimento consciente dos militares, que preparavam a sua saída do poder sem hesitações?” (p.8-9), etc.

Vamos por capítulos (são doze no total):

Em “Utopia e agonia do governo Jango”, ele analisa rapidamente a figura desse político controverso (às vezes tido como vilão, às vezes como vítima do processo histórico) com grande lucidez, levando em conta o jogo político em que estava inserido e as forças de apoio e oposição a ele. Chama atenção a (des)organização das instituições e movimentos de direita e esquerda, e também o contexto da Guerra Fria, o qual não pode ser desprezado. Mesmo sem julgamento histórico, o autor não tem medo de expor sua visão (claramente de esquerda e com algumas ressalvas) – que é justamente o que me incomoda nos “jornalistas que escrevem sobre História”: eles inserem sua opinião no assunto, sem expô-la explicitamente, e acabam por condenar ou absolver fatos e personagens do passado. Para um leitor menos treinado, essa opinião implícita torna-se verdade, e é aí que mora o perigo.

No capítulo “O carnaval das direitas: o golpe civil-militar”, o papel da imprensa como veículo de propagação de um alarmismo crescente é bastante destacado, algo extremamente válido e atual. Por aí, podemos questionar a nossa própria grande imprensa, sempre comprometida com alguém (pessoas / países / governos / empresas). Ressalta-se que o golpe de 64 foi contra um projeto de sociedade (aquele calcado nas reformas, algumas de cunho notadamente social), e não apenas contra um homem (Jango) e seu governo.

“O mito da ‘ditabranda'” é um capítulo referente à ideia de que o início da ditadura foi algo “brando” (conforme sugerido por um colunista do jornal Folha de S. Paulo). Realmente, existem linhas que dizem que o governo de Castelo Branco foi “leve” em termos de repressão, ideia que o historiador não hesita em rechaçar. Napolitano mostra com números o autoritarismo no início da ditadura – autoritarismo que “blindou” o Estado e preparou-o para endurecer ainda mais a partir de 1968. Analisa, ainda os principais objetivos políticos dos militares no poder no início da ditadura e cita leis que corroboram suas palavras.

No quarto capítulo, “No entanto é preciso cantar: a cultura entre 1964 e 1968”, tratando ainda sobre o início do período do regime militar, o autor conta como neste começo, a cultura não sofria censura (o que certamente reforça o mito da “ditabranda”) – seja porque reprimir essa cultura questionadora ceifaria grande parte de um mercado lucrativo (produzido e consumido pela classe média brasileira), seja porque as atenções do governo estavam mais voltadas neste momento para a desestruturação de movimentos sociais, sindicais e mais institucionalizados em detrimento de indivíduos (no caso, artistas). O limite desta “tolerância” dos militares foi o encontro da cultura engajada de esquerda com as guerrilhas, as quais não podiam ser ignoradas por seu grau de ameaça para o regime.

“‘O martelo de matar moscas’: os anos de chumbo” é o capítulo que conta a história dos movimentos armados de esquerda e da máquina repressiva montada pelo Estado para acabar com eles, máquina esta baseada num tripé: vigilância, censura e repressão, cada um dos pontos minuciosamente analisado (desaparecimentos, torturas, DOI-CODI). Neste capítulo, algo muito interessante acontece: Napolitano fala sobre as raízes da Polícia Militar de hoje, claramente herança dos tempos ditatoriais, onde qualquer um era (é!) considerado suspeito até que se provasse o contrário.

“Nunca fomos tão felizes: o milagre econômico e seus limites” desmente muitos dos mitos que existem por aí sobre o “milagre econômico”, porque relativiza essas conquistas econômicas (trazendo dados como a explosão da dívida externa, usada para financiar o “milagre”; o agravamento da má distribuição de renda; a inflação decorrente disso, cujos efeitos muitos de nós nos lembramos). É um capítulo que versa muito sobre economia mesmo (tema que não me agrada particularmente, então me ative às linhas gerais). Aqui, é duramente criticada a ideia de que a ditadura foi “civil-militar”, da mesma maneira como foi o golpe de 1964 para o autor; ele defende que, estando sob a tutela militar, a ditadura no Brasil foi qualitativamente “militar”.

“‘A primavera nos dentes’: a vida cultural sob o AI-5” e “Letras em rebeldia: intelectuais, jornalistas e escritores de oposição”, respectivamente o sétimo e o oitavo capítulos do livro, procuram esclarecer as questões cultural e intelectual no auge da repressão (cerca de 1968). Eles perpassam a convivência entre a arte engajada de esquerda e o entretenimento em florescimento (possibilitado pela difusão de produtos como a música popular e a televisão), as várias correntes musicais que faziam sucesso na época (em especial o samba, a MPB e o rock), teatro e cinema. Marcos Napolitano enfatiza a contradição que havia no regime: ao mesmo tempo em que impunha a censura prévia aos meios de comunicação (estabelecido pelo AI-5), também possuía uma política de incentivo à cultura. Quanto aos intelectuais, fala-se mais do jornalismo e da literatura nacionais, e também do papel que esses intelectuais assumiam no regime: tanto como base do regime quanto como diversos matizes de oposição a ele. Ao tratar de temas culturais, especialidade do autor, o texto fica mais detalhado e, por isso, mais lento. Obviamente que os detalhes são importantes, mas a leitura me pareceu menos fluida nesse ponto da obra.

Em “‘A democracia relativa’: os anos Geisel”, mais um mito é duramente questionado: o de que Geisel era um “liberal”, alguém que retomou o caminho da “linha branda” da ditadura (quase como se ele fosse “bondoso”). Essa imagem é muito comum de se ver, assim como a de que Castelo Branco seguia também esta linha. O historiador mostra-nos como o jogo de “abertura” e “distensão” do regime foi altamente estratégico, procurando não isolar o governo de sua cada vez mais frágil base de apoio “popular” (setores da classe média e empresariado, entre outros). Tal base estava frágil por conta do fim do “milagre econômico”, insustentável por um longo período de tempo, que levou os setores anteriormente coniventes com o regime a criticá-lo cada vez mais. Em suma, a estratégia de “distensão” política do governo Geisel é descrita:

“[…] abrindo espaços institucionais e canais de diálogo com vozes seletivas e autorizadas, sem necessariamente abrandar a repressão à esquerda e aos movimentos sociais como um todo.” (p. 251-252)

(Calma, está acabando!!!)

O décimo capítulo chama-se “A sociedade contra o Estado”, e trata do aumento da mobilização pública da sociedade civil, dando destaque à reorganização do movimento estudantil e seu retorno às ruas (além de outras organizações, como CNBB, ABI, OAB, MDB, movimento operário, Movimento do Custo de Vida, pequenos movimentos iniciados nas periferias das grandes cidades, etc.).

“Tempos de caos e esperança” é o momento final do recorte temporal do livro: fala das greves no ABC paulista (emergência de Lula como líder sindical), da fragmentação das esquerdas no momento em que perdem a “bandeira única” da democracia (novamente, a fragmentação das esquerdas, bastante falada ao longo do livro), a campanha das Diretas Já! e, finalmente, a eleição de Tancredo Neves para a presidência da República em 1985.

O último capítulo, “A ditadura entre a memória e a História” retoma alguns pontos importantes, resumindo-os (como o trecho no início da resenha), em especial as contradições maiores do regime. Além disso, discute a questão da memória e da verdade, da solução para desaparecimentos políticos e da escrita de uma história oficial para a ditadura, temas extremamente atuais, ainda mais se levarmos em consideração o momento de lembrança dos 50 anos do golpe.

Acho que deu para perceber o quão embasada a pesquisa deste historiador é. Com uma linguagem muito tranquila, Napolitano trata de analisar conjunturas e expor dados para ratificar suas posições, sempre claras. Trata-se de um manual sobre a ditadura militar – o qual sublinhei exaustivamente para futuras consultas para elaboração de aulas – altamente recomendável, em especial para quem se interessa pelo tema e para quem dá aula sobre isso. E conta com interessantíssimas discussões sobre o cenário atual do Brasil, o que, afinal de contas, é uma das funções da História. O livro é muito bom em apontar nuances difíceis de serem enxergadas, tais como as diferenças dentro de um pensamento de direita ou de esquerda, e também contradições e ambiguidades inerentes a esse período histórico (tanto do regime militar quanto das oposições).

Em tempos de refundação da Arena e reencenação da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, quem tem um mínimo de consciência histórica e espírito crítico sai na frente. A ignorância não pode vencer a memória. Espero que tenhamos aprendido alguma coisa com a tragédia que o país enfrentou nesses 21 anos de ditadura militar. Tudo bem que a política atual está loooooooooooooooonge de ser maravilhosa, ninguém está satisfeito com a impunidade e a corrupção geral, mas NADA justifica um pedido de intervenção armada nos moldes de 1964. Sejamos inteligentes e proponhamos uma solução inovadora, e não voltemos às trevas medievais para repetirmos um erro que, já sabemos, provou-se cruel e infrutífero.

OBS.: Aproveitando o assunto, deixo um link para a reportagem “Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto“, apenas mais um exemplo de barbárie, para que ninguém se esqueça do absurdo que foi.

+ info:
1964: História do Regime Militar Brasileiro / Marcos Napolitano.
– São Paulo: Contexto, 2014.
365 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade: MEDIO
(É interessante ter algum conhecimento prévio sobre história da ditadura militar no Brasil para ler a obra, por isso a classificação de dificuldade “média”.)

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12 comentários sobre “1964: História do Regime Militar Brasileiro

  1. É impressionante como eu, e provavelmente grande parte da minha geracao, excetuando-se os que sofreram na propia pele com a perseguicao de pais e familiares, tinhamos apenas vaga nocao do que realmente aconteceu no golpe e regime militares, fomos alienados politicos. Precisou que nossos filhos nos escancarassem esta verdade…obrigada!

  2. Carol Amgarten disse:

    Oi Nate! A resenha está fantástica! Muito bem escrita mesmo! E valeu para eu aprender algo: nunca mais te darei um livro de história heheheehehehehe =) Bjs.

  3. Primeiramente, agradeço pela menção e ainda mais por considerar o meu comentário como algo relevante, Natoca.
    Seu convite ao mesmo tempo em que me deixou realizada, fez com que eu sentisse uma certa apreensão e por 2 motivos bastantes simples. 1) Também fui aluna do Napolitano e por incrível que pareça, dos temas tratados por ele em aula, o que eu menos guardei informações foi o da Ditadura Militar (eu fiquei abismada quando percebi isso, aliás, sempre fico quando relembro tal coisa e tendo considerar as minhas opiniões um tanto quanto vagas sobre esse assunto); 2) Infelizmente (ou felizmente… rs), Brasil República não figura no meu hall de interesses de estudos favoritos (juro que não é por falta de esforço e empenho, contudo é mais forte do que eu…).

    Sua resenha fez com que empreendesse uma busca s/ fim nas minhas contas do twitter e do facebook atrás de alguns artigos que eu li a respeito do 50 anos da Ditadura no Brasil e dos vários lançamentos de livros que estão e irão acontecer ao longo desse ano devido a esse marco.E isso explica em parte a minha demora para postar o comentário. Esses artigos não só dialogam com o que você escreveu, mas também pontuam de um modo bastante interessante algumas ideias (que na minha humilde opinião merecem ser destacadas e alvo de apreciações).

    Sim, também partilho da opinião de que é importante entendermos a respeito da Ditadura para conseguirmos fazer uma análise consistente e perspicaz da atual sociedade brasileira. Todavia, alguns problemas são anteriores ao período da Ditadura e essa só serviu para intensificar certos aspectos super negativos, como por exemplo, a marginalização, ou melhor, a falta e a precariedade do debate intelectual existente em nosso país. Algo que o Luiz Costa Lima pontua muitíssimo bem em uma entrevista que ele forneceu ao jornal “O Globo”- http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/11/09/luiz-costa-lima-critica-como-gesto-de-resistencia-514610.asp#.UzBU_0FbLC4

    No que diz respeito às críticas que o Napolitano faz ao pessoal que compactua com a ideia de que houve uma participação da sociedade civil tanto no golpe quanto no cenário político, eu lembrei em especial de uma entrevista dada pelo Daniel Aarão (professor da UFF) sobre isso- http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2014/02/15/daniel-aarao-reis-as-conexoes-civis-da-ditadura-brasileira-524443.asp#.UzBSCepX5lk.

    Ele também lançou um livro esse ano e uma das questões chaves de sua obra é chamar atenção para a relação que existia entre os civis e os militares. Eu achei a argumentação dele significativa e de algum modo, ela serve de contraponto as alegações do Napolitano. Não vou discorrer a respeito de ambas, porque eu precisaria ler ambos os livros para conseguir fazer um debate mais aprofundado e preciso em torno disso.

    Gostei da sua resenha. Ela estimula a leitura do livro e traçou paralelos com certos desdobramentos estarrecedores e, sobretudo, preocupante do cenário político e social do Brasil nos últimos tempos. Além de ter ressaltado de maneira exemplar a razão de nós (historiadores) surtarmos com os livros que os jornalistas escrevem acerca de assuntos históricos.
    Também partilho da ideia de que parte da culpa é nossa. Nós não buscamos escrever de um modo acessível (tudo bem que a preguiça alheia é outro fator determinante nesse aspecto. As pessoas tendem a preferir as leituras mais “fáceis”, pois essas, na maioria das vezes, não as fazem pensar- para que pensar?! Lidar com coisas prontas é muito mais divertido, não?!); além do que, nossa finalidade é problematizar e fazer uso de conceitos e isso acaba por comprometer a fluidez e a articulação de nossas narrativas. Entretanto, o maior problema é como você já bem disse é a apropriação que as pessoas fazem do discurso jornalístico. Esse acaba contribuindo para a banalização das discussões e para a consolidação de inúmeros argumentos discrepantes, contraditórios e, acima de tudo, vazios para justificar as ações e trajetórias presentes. Algo extremamente problemático e que vem bem a calhar para uma sociedade que praticamente despreza e negligencia as análises críticas, uma vez que essas não só demandam esforço, mas também anos de aprendizado- algo que para muitos brasileiros é visto não só como desnecessário, mas também como tempo perdido.

  4. Carol Amgarten disse:

    Carol, adorei seu comentário. A leitura jornalística seduz por ela ser mais fácil. No entanto, por ausência de educação e formação para o espírito crítico, as pessoas tendem a se apropriar de opiniões jornalísticas com muita facilidade e acabam interpretando o curso da história conforme visões alheias. Bjs.

    • Carol, querida, muitíssimo obrigada!
      Então… é uma somatória bem grande de fatores que acaba contribuindo para que isso aconteça,. Que vai desde a falta de preparação do leitor (que tende a fazer uma leitura partindo do princípio de que a verdade é algo absoluto) até a postura adotada pelo próprio jornalista, que poderia ao menos explicitar os intuitos e as finalidades que o moveram a realizar tal abordagem (uma vez que ao escrever um livro, ele não tá operando dentro de uma lógica voltada para a redação de um jornal ou uma revista, por exemplo).

  5. Nossa, eu sei como é importante saber se informar melhor sobre a ditadura militar brasileira, mas infelizmente eu não consigo gostar de história do Brasil, não tem jeito…
    Ainda assim, interessante a resenha. Só deixou passar um “milagre econômicos”, mas de resto tudo OK 🙂

  6. Apolo Junior disse:

    Excelente resenha, o livro que li hoje: 50 anos de Golpe: A ditadura Militar no Brasil é uma seleção de matérias jornalísticas, fico feliz que tudo que vc contou nesta resenha bateu com o que li no livro… Comentário bem detalhado o seu, gostei bastante, tentar adquirir !!! com essa capa, deve ter vendido muito kkkk
    Abração 😉

    • Obrigada, Apolo! Não pude me controlar e tive que detalhar. Faço o blog também para mim, então aqui já fica registrado um resumo do que eu posso usar em sala de aula a respeito de cada capítulo… Vou procurar esse livro que vc me indicou, pois o tema me interessa bastante! (Havia me esquecido da sua maratona temática!)
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  7. papodehistoriadora disse:

    Olá, Nati! Que resenha rica em detalhes!
    Gostei das suas considerações antes de iniciar, propriamente, a resenha. Com certeza vou ler o livro!
    Obrigada pela indicação e pela gentileza em me enviar o link.
    Um beijo!!

    • Lari hahaha me empolguei pra fazer a resenha!
      É que nesse caso, fiz mais pensando em deixar um “resuminho” para mim mesma dos pontos mais interessantes do livro do que para todo o público do blog. Sei que pode ter ficado cansativo, mas deixei como um registro de leitura mesmo.
      O livro é excelente, faz esse panorama crítico muito legal!
      Beijos, obrigada pelo comentário!

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