Ficção, Resenha

Morte súbita

Morte súbita, de J. K. Rowling

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“- Já soube?
Maureen o encarou, franzindo as sobrancelhas, com um ar inquiridor.
– Barry Fairbrother morreu.
A mulher ficou de boca aberta.
– Não! – exclamou ela. – Como?
– Alguma coisa arrebentou – disse o seu sócio, dando um tapinha na lateral da cabeça. – Por aqui. Miles estava lá. Viu tudo. Foi no estacionamento do clube de golfe.
– Não! – repetiu Maureen.
– Mortinho – disse Howard, como se houvesse graus diferentes de morte e Barry Fairbrother tivesse sido vítima de um particularmente sórdido.

[…]

Os dois então sentaram juntos, atrás do balcão, nos bancos altos de madeira que Howard havia posto ali para as horas de menos movimento, e Maureen apanhou um punhado de raspas de gelo da bandeja das azeitonas para aliviar a queimadura. Juntos, desfiaram todos os aspectos convencionais da tragédia: a viúva (‘vai ficar perdida; ela vivia para Barry’); os filhos (‘quatro adolescentes; não vai ser fácil criá-los sem um pai’); a relativa juventude do morto (‘ele não era muito mais velho que Miles, não é mesmo?’); e, por fim, chegaram ao verdadeiro ponto de partida, com relação ao qual tudo o mais não passava de vagos rodeios.

– E agora? – indagou Maureen num tom ávido.
– Ah – replicou Howard. – Bom, e agora? Aí é que está! Temos uma vacância, Mo, e isso pode fazer toda a diferença.
– Temos uma o quê? – perguntou a mulher, temendo ter deixado passar algo absolutamente crucial.
– Vacância – repetiu Howard. – É o que acontece quando uma cadeira do Conselho fica vaga por morte do seu titular. É o termo legal – acrescentou ele, didaticamente.” (p. 37 e 38)

Sim, vou começar falando de Harry Potter. Sou fã da série desde os 11 anos. Meu amigo Pedoro me emprestou o primeiro livro – no qual, confesso, não botei muita fé – e eu, inevitavelmente, me viciei. O mesmo aconteceu com este livro que vos resenho: fui um pouco cética ler Morte súbita. A curiosidade venceu (e, também, seguindo recomendações de amigos, como a super confiável AnaC) e me rendi ao livro de capa amarela e vermelha. Não me decepcionei.

J. K. Rowling tem uma escrita deliciosa. Não tenho outra palavra para definir. A história começa com a morte (súbita) de Barry Fairbrother, um quarentão pai de família do vilarejo de Pagford. O início da história é justamente a notícia da morte se espalhando pela vila, à maneira das cidades pequenas: um contando para o outro, via telefone ou pessoalmente. E é desta maneira, quase imperceptível (porque misturada com a história), que passamos a conhecer os personagens e suas conexões, além das inevitáveis peculiaridades de cada um. Me surpreendeu a avidez com que todos queriam dar a notícia da morte de Fairbrother para seus conhecidos, numa espécie de prazer mórbido – detalhe que me deixou curiosa para conhecer mais e mais sobre Pagford e suas figuras.

Os personagens são muito interessantes: cheios de ganâncias, inveja, fofoca, interesses privados, defeitos em geral. Tudo isso numa cidade aparentemente pacata, pequena (que nem cidade é, corrijo: uma vila). E apesar de não conter um crime principal (como um assassinato, já que a morte de Fairbrother foi por causas naturais), o clima da história é um pouco policial, cada hora mostrando um personagem como principal, e todos com suas razões para puxar os tapetes uns dos outros.

Ouso dizer que o enredo são os personagens, se isso é possível. Ou talvez seja a velha Pagford. Porque acho difícil dizer “sobre o quê é o livro”, como dá pra fazer com O abrigo de pedra ou O menino do pijama listrado. Tem gente que diz que é uma trama política, com pagfornianos (?) se degladiando – com muita classe, como se espera de um hooligan britânico – pela vaga no Conselho do vilarejo. E é. Mas ao invés de dizer “política”, que é uma palavra que assusta demais, porque não sabemos direito o que é política, trata-se de uma trama sobre convivência entre vizinhos, alguns que se gostam, outros que não se suportam, e de uma disputa por um cargo de poder (a qual envolve também valores morais e ética). Por isso é uma trama política. Esta disputa a que me referi como sendo “com classe” não significa que seja uma disputa “limpa”, de maneira alguma. Segredos, amargura e ódio se mesclam para criar vários nós na narrativa.

Já na metade do livro senti que ia ficar com saudade de lê-lo todos os dias, aquela velha saudade pós-livro bom. E estava certa.

No final, há um entrelaçamento de histórias, e o clímax é intenso e veloz; digno de ser chamado “clímax”. Apesar da – perdoem o termo – escrotidão dos personagens, você se apega a alguns deles – justamente por serem tão reais e possíveis (diferentes de Ayla!). O desfecho é mais calmo, mas na minha opinião, não tira o brilho do clímax, e sim é um complemento dele.

Vi gente que odiou e se decepcionou com Morte súbita, e gente que o adorou. Eu definitivamente me encaixo no segundo grupo. Só, por favor, não me venham compará-lo com Harry Potter, porque não é. São completamente diferentes, acho bastante difícil ver um em relação ao outro. O que têm em comum é a autora. E a trouxidão (pensando bem, a história de Pagford é a materialização absoluta do mundo trouxa, com toda a sua praticidade, seus defeitos e complicações).

+ info:
Morte súbita / J. K. Rowling.
– Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
501 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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7 comentários sobre “Morte súbita

  1. Julie disse:

    Faço das minhas palavras do Menchik Nate! Acabei não comprando na semana passada, justamente por ter ouvido uma única crítica, que foi negativa.
    Mas depois de ler aqui sua resenha, fiquei curiosa pra ler!
    E como eu disse, to adorando ler seu blog, “tem uma escrita deliciosa”! 😉

  2. Mãe, eu sou apaixonado pela a minha rainha J.K.Rowling. E, sim!, “Morte Súbita” é um livro esplêndido e incrível! Senti um leve sabor de um tempero tênue e diferente nas palavras deliciosas (como a senhora bem expressou, mãee) e no desenrolar da história de Rowling. Despertou-me uma avidez de lê-lo, à medida que cada página era devorada. Eu simplesmente o adorei. Achei um livro envolto em um romance e em pessoas mascaradas; possui um humor negro de reverenciar. Evidencia-nos uma humanidade o quão divergente e obscura, tão transparente, que não sabemos o que há de acontecer ao redor dessa, coberta de uma colisão de personalidades, tanto boas quanto ruins, as quais acabam se convergindo. Muito maravilhoso. A J.K. Rowling é muito perfeita. (Adorei a sua resenha, mããeee, saudadesssssss)

  3. Luana disse:

    Nate finalmente terminei de ler morte súbita. O começo do livro não foi muito animador, demorei um pouco para me adaptar com a troca dos vários personagens. Devo confessar que as vezes parecia que eu estava lendo uma novela, e assim comecei a torcer para alguns persogens e me interessar mais sobre o que ia acontecer em suas vidas.
    O clímax do livro me surpreendeu bastante, mesmo sentindo que a própria autora não tinha esperança para o futuro de alguns deles eu me sentia como o Barry Fairbrother sempre com esperança de que algo melhor ia acontecer no futuro de alguns deles. Minha personagem favorita é a Krystal e foi o que me fez ler o livro até o final. E deve confessar que adorei odiar alguns dos personagens como Howard, Shirley, Samantha e Gavin (Argh para esse principalmente).

    • Luuu, que bom que vc leu!!! A Krystal também é minha personagem favorita do livro, é realmente a história dela a que mais prende! O clímax é bom mesmo (surpreendente), só achei que o desfecho se prolongou mais do que devia (mas a JK Rowling faz isso, se pegarmos o HP como parâmetro: aquele epílogo ninguém merece!).
      Obrigada pelo comentário!!!!!! Beijos!

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