2014, Filme, História

Doze anos de escravidão (filme)

Doze anos de escravidão, filme, 2014

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Vou tentar fazer algo diferente… não sou a maior cinéfila do mundo – aliás, estou beeeeeeem longe disso -, mas essa semana fui ao cinema assistir ao filme ganhador do Oscar 2014, Doze anos de escravidão, baseado em livro homônimo, o qual pretendo ler em breve (ou talvez nem tão em breve assim, já que tenho vários na fila). Minha análise, como sempre, se focará em impressões pessoais e análises históricas, uma vez que não tenho o mínimo preparo ou sensibilidade para entender sobre coisas de cinema.

Em primeiro lugar, no início do filme lemos na tela: “baseado em uma história real”. Como disse uma colega minha, historiadora e professora de História, Thaís Siqueira, não é baseado em uma história real; é baseado em milhões de histórias reais! É que essa foi escrita pela vítima, e acredito que aí mora o diferencial.

O início do enredo conta a história de Solomon Northup (interpretado pelo ator Chiwetel Ejiofor), um homem negro liberto que mora em Nova Iorque com sua pacata família: esposa e dois filhos. Após ser ludibriado, Solomon é sequestrado e vendido como escravo para propriedades de plantations no sul dos Estados Unidos (1841), onde passa os próximos doze anos de sua vida.

O que há de mais marcante no filme é, além das cenas de violência (castigos corporais, estupros, abusos verbais), o grande dilema vivido pelo protagonista – e por todos os escravizados, em última análise -:

resistência + possibilidade grande de morrer
versus
submissão + sobrevivência.

Digo isso porque fui com uma amiga, e ao acabar o filme, ela confessou ter saído com raiva de Solomon por sua “falta de resistência”. Uma coisa que costumamos discutir em aulas de História é justamente as diversas possibilidades de resistência, pacíficas ou violentas. Acredito que ela tenha pensado nas violentas. O filme mostra, de certa maneira, alguns tipos de resistência: fuga, enfrentamento violento, música, suicídio.

Acho que a revolta de minha amiga foi no sentido de sentir falta de um “herói de cinema”, aquele forte, inquestionável – que sofre, sofre, sofre, e no final, se dá bem (e quiçá se vinga dos vilões). [Só pra constar, lá pelas tantas no filme, uma cena em que mostrava o rosto em close de Northup e durava alguns segundos – minutos? -, ela comentou baixinho: “Parece filme francês”. O que quero dizer com isso é que talvez ela esteja muito acostumada com filmes hollywoodianos, e por isso idealizou a imagem do herói]. Caímos num problema de julgamento: é difícil dizer o que nós mesmos faríamos numa situação de exploração extrema como é a escravidão. Lutar e morrer ou sobreviver calado? Não é uma escolha fácil. E como eu não me canso de dizer, personagens com defeitos são ótimos! Isso os torna humanos. Particularmente, não me afeiçoei muito a Solomon Northup (achei ele um cara frio), mas isso não tem problema. Você não tem que gostar de todos os personagens.

Talvez a personagem que mais tenha sintetizado esse dilema tenha sido Patsey (feita pela atriz Lupita Nyong’o, que venceu o Oscar 2014 de melhor atriz coadjuvante por este papel). Patsey é a escrava preferida de seu proprietário, não só porque trabalha muito e bem, mas também por sua beleza (o fazendeiro a procura à noite para estuprá-la). Como “prêmio” por sua submissão (sexo e trabalho forçados), ela obtém alguns benefícios, como dia de folga e permissão para visitar fazenda vizinha. Mas há um momento do filme (SPOILER!!!) em que ela pede a Solomon para matá-la, por não aguentar mais a situação.

Como eu disse, as cenas de violência são fortes, e acho importante mostrar isso ao público. Por estar mais distante no tempo (embora, em termos históricos, o século XIX tenha sido ontem), tendemos a achar que a escravidão foi superada. No Brasil, ainda temos seríssimos problemas de racismo e inserção social decorrentes da escravidão:

Negros morrem mais no Brasil do que brancos
Negros ganham menos no Brasil do que brancos
Negros estudam menos no Brasil do que brancos
Menino é impedido de se matricular em escola por causa de sua recusa em cortar o cabelo black-powerCarnaval exclui negros dos principais blocos (via Marco Aurélio Greco Nordhausen Domingues)

Etc., etc., etc. Esses são apenas alguns exemplos. Por que tudo isso acontece? Obviamente negros não são piores que brancos. O problema é social, e mais que isso, histórico. Por isso, o debate não pode parar. E não podemos viver na ilusão de que somos um país igual, misturado e tudo bem. O famoso mito da democracia racial.

Enfim, a resenha descambou para uma discussão mais ampla, mas absolutamente necessária. Voltemos ao filme.

É interessante também notar os personagens brancos no filme, com todas as suas nuances: temos o proprietário “bondoso” (?!), que protege e procura tratar bem seus escravos mas que, apesar disso, faz parte da engrenagem do sistema e os explora da mesma maneira (no ato da compra, ele inclusive separa uma mãe de seus filhos). [Dá pra perceber o quão bizarro e contraditório isso é?] Temos também o proprietário violento, beberrão e cínico (é dele que mais temos raiva no filme), os trabalhadores livres brancos (marceneiro arrogante, estrangeiro abolicionista), além dos escravizados.

Em suma, achei um filme de grande qualidade estética: cenários, figurino (o que ressalta ainda mais a questão do sofrimento humano, por contraditoriamente aproximar beleza e violência). Faltou dizer que Solomon é violinista. Talvez a arte tenha um quê de salvação e esperança na história dele, já que continua tocando após ser escravizado.

Também é um tema muito relevante e imprescindível. Inclusive, trata-se de um filme interessante para propor discussões em sala de aula, por ser atual e comercial (convenhamos que filmes cult demais tendem a entediar os alunos), pelo assunto, e mesmo pelas cenas de violência, para que não nos esqueçamos. Há algum tempo li este texto (aliás, recomendo muito), que defende a ideia de que a escravidão é o nosso Holocausto. Tendemos a ficar chocados com o Holocausto europeu (com razão!), mas não tanto com a escravidão, que matou, torturou, exilou, perseguiu, explorou, separou e fez sofrer muita gente.
Só devem ser feitas as ressalvas necessárias, afinal de contas, a situação é parecida mas se passa nos Estados Unidos em outra época. E é um filme.

Acho que vou voltar para os livros.

+ info:
Doze anos de escravidão / Direção: Steve McQueen.
– Estados Unidos, 2014.
Drama histórico.
2h13min.
Trailer (legendado)

classificação: 5 estrelas

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Obrigada pelos comentários! 🙂

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8 comentários sobre “Doze anos de escravidão (filme)

  1. Tatiana disse:

    Adorei a resenha! Parece uma conversa (é seu estilo), o que prende muito nossa atenção. Vou assistir o filme! Você chegou a ver Jango? Eu adorei o filme. Trata do mesmo tema, mas do jeito Tarantino de ser (exagerado e tal), mas com muitas discussões legais!

    Independentemente de ser filme ou livro, o importante é que são histórias contadas de jeitos diferentes (ler/ver). Por mim, o blog pode ser das duas coisas! 🙂

  2. Achei legal que vc resolveu fazer uma resenha de filme! Ainda não vi, mas já pretendia. Eu só acho que, de repente, virou uma espécie de “modinha” filmes sobre escravidão nos últimos anos. Assim como também já tivemos uma moda de filmes sobre holocausto. Não que isso seja ruim, só acho repetitivo

  3. Thais Siqueira disse:

    Natasha, tive exatamente as mesmas impressões que você. E também não entendo muito de linguagem cinematográfica, na verdade só o que aprendi no curso do Maurício Cardoso da faculdade. Mas achei o filme incrível! Penso que talvez tenha sido o filme mais necessário da minha vida, por tudo o que estudei e também pelos valores em que ainda acredito.
    Gostaria de dividir a minha experiência na sala do cinema: ao terminar o filme é comum as pessoas já comentarem algo, mas ninguém dizia uma palavra! Todos ficaram em silêncio, sem se levantar enquanto subiam os créditos. Depois as pessoas seguiram em silêncio, pagaram os tickets de estacionamento em silêncio… A sensação que eu tive é que havia um constrangimento geral de todos por serem parte de um sociedade que é herdeira da escravidão.
    Eu achei tudo muito forte e, insisto, absolutamente necessário.

    • Nossa, Thaís! Na sala de cinema que fui, foi diferente. As pessoas saíram falando, embora no filme tenham ficado bem silenciosas. Teve até uma senhora atrás de mim que falou: “Ah, ele deve voltar pra buscar ela” (referindo-se à Patsey), acho que nesse caso, ela também estava querendo um final Hollywoodiano, de herói salvando a mocinha, o que é uma pena…

  4. Primeiro, parabéns pela iniciativa de escrever sobre o filme. Acho que não precisa ter “o mínimo preparo ou sensibilidade para entender sobre coisas de cinema” para escrever sobre o filme. Segundo, parabéns pelo texto. Li e reli sem pestanejar. Gostei bastante. Sobre o filme eu tenho um pouco para dizer. Gosto muito do Steve McQueen como diretor (recomendo os outros dois filmes que o tornaram famoso: Hunger e Shame) e achei esse um filme tão bonito quanto importante. Principalmente por que foi o ponto de vista de um diretor negro sobre a escravidão norte americana. Muito diferente dos filmes sobre o tema nos últimos anos. Nada contra o Spielberg e o Tarantino. Pelo contrário. Só que o McQueen, além de ser um diretor que sabe dar tempo à lente da câmera (aquela cena do rosto do Solomon parece ter durado 12 anos e ficou perfeita) soube escolher uma história que não acaba depois que você sai da sala, paga o estacionamento do shopping e vai pra casa. Filmes assim ficam. Tanto é que, se não me engano, os Estados Unidos tornaram o filme obrigatório nas escolas americanas. O filme e o livro. Um prêmio muito maior que qualquer Oscar.

  5. Estava torcendo para que vc falasse sobre este filme. Ainda nao assisti, mas ouvi um comentario de que as cenas de violencia eram excessivas (em termos de quantidade). Agora tenho a impressao que, mesmo que sejam muitas, foi proposital…Vou conferir.

  6. Nat…confesso..não vi o filme e nem tinha pretensões…mas…depois de suas colocações irei vê-lo com gosto…eu o tinha como mais uma destas produções hollywoodianas com final feliz e heroísmo “prendo e arrebento”…muito agradecida por palavras tão esclarecedoras…e tb. a todos que comentaram o seu texto antes de mim…

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