2014, Contexto, História, Não ficção, Resenha

1964: História do Regime Militar Brasileiro

1964: História do Regime Militar Brasileiro, de Marcos Napolitano

1964

“Hoje em dia, nenhum historiador, não importa suas simpatias ideológicas, duvida que o regime militar foi um regime conservador de direita. Mas o teor conservadorismo pode até ser discutido, pois ele se combinou com a tradição do reformismo autoritário da história republicana brasileira. Em linhas gerais, essa tradição de pensamento tinha uma vocação modernizadora que nem sempre se conciliava com outros grupos historicamente conservadores, como os católicos e as oligarquias liberais. Os militares de 1964 eram anticomunistas e contra o reformismo democratizante da esquerda trabalhista, mas tinham uma leitura própria do que deveriam ser as reformas modernizantes da sociedade brasileira, na direção de um capitalismo industrial desenvolvido e de uma democracia institucionalizada e sem conflitos, com as classes populares sob tutela. Os militares golpistas se apresentaram como ‘revolucionários’ ao mesmo tempo em que defendiam a ordem, pois pretendiam modernizar o capitalismo no país sem alterar sua estrutura social. Eram antirreformistas, mas falavam em reformas. Falavam na defesa da pátria, mas criticavam o nacionalismo econômico das esquerdas. Prometiam democracia, enquanto construíam uma ditadura. O viés conservador anticomunista era o único cimento da coalizão golpista de 1964 liderada pelos militares, que reunia desde grandes liberais hesitantes até reacionários assumidos, golpistas históricos e golpistas de ocasião, anticomunistas fanáticos e ‘antipopulistas’ pragmáticos, empresários modernizantes e latifundiários conservadores.” (p. 314)

politizado

O historiador Marcos Napolitano é professor de História do Brasil Independente no departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). Tive o prazer de tê-lo como professor durante a graduação e por pouco não fui pedir para ser orientanda dele. Faltou coragem. Especialista em cultura na época da ditadura militar no Brasil, Napolitano tem um jeito muito calmo de dar aula, e tenho boas lembranças de seu curso. Confesso que História do Brasil nunca foi meu assunto preferido (quanto mais República!!!), até começar a efetivamente a dar aula sobre o assunto. Foi quando atentei para detalhes que não dei importância antes e que fazem toda a diferença na análise presente do nosso país. Agora, passei a adorar História do Brasil República, e procuro passar esse entusiasmo para meus alunos.

Posso fazer outra confissão? Não gosto de livros técnicos. Acredito que historiadores são muito acadêmicos em sua escrita – são poucos os que escapam desse vício -, o que acaba tornando os livros de História muito maçantes, cheios de dados e análises com palavras difíceis. Por isso é que muito jornalista por aí vende (pra caramba!) livro de História. Eles escrevem de um jeito palatável para o público em geral e, neste sentido, nós historiadores temos muito a aprender. Porém, nada substitui um bom livro de História, com fontes primárias e análises metódicas. O problema desses livros de jornalistas que escrevem sobre História é que, por não terem estudado sobre isso, não possuem um método de análise de fontes, e tendem a ser muito anacrônicos. Ou seja, aplicam conceitos atuais em acontecimentos do passado, coisa que não pode ser feita (já que o conceito não existia, ou era diferente!). Ou então julgam o passado por esses conceitos. Por exemplo, há quem afirme que Hitler e o nazismo eram de esquerda (por conta da alta intervenção estatal e do nome “nacional-socialismo”, entre outras coisas). Mas Hitler queria manter o capitalismo e perseguia sistematicamente comunistas (quem quiser ler mais argumentos contra isso, veja este texto). O anacronismo é o primeiro pecado do historiador. De qualquer maneira, não é sobre isso que vim falar.

[Só mais dois adendos:
1) apontaram em um grupo do facebook e é verdade: a capa de 1964 é muito parecida com a capa de 1889, do jornalista Laurentino Gomes.

1964

Claro que é uma jogada de marketing da editora do livro sobre o regime militar, já que os livros de Gomes vendem muito.

2) Amigos, por favor, se vocês não forem historiadores, não me deem livros de História de presente. É raro alguém acertar. Geralmente pegam livros que estão entre os mais vendidos e que têm um assunto histórico, mas essas tendem a não ser leituras de boa qualidade. Eu amo ganhar livros, podem continuar me presenteando com eles, mas escolham um que vocês gostaram de ler, de preferência algo mais literário. Nada de coisas técnicos. Mesmo assim, agradeço a todos os que já me deram livros de História até hoje, alguns foram bons!]

Pronto. Vamos ao livro?

O título remete ao ano do golpe civil-militar no país, provavelmente porque em 2014 completam-se 50 anos do evento. E ainda tem quem o chame de “contrarrevolução”.

Mas o recorte temporal do livro é do governo João Goulart (1961-64) até a reabertura política (1985, com a entrada de José Sarney na presidência). Por vezes, esse recorte é extrapolado e o autor recorre tanto a tempos prévios (governo Jânio Quadros, Getúlio Vargas) quanto a discussões extremamente atuais.

Como todo bom historiador, Napolitano parte de perguntas sobre o tema. Por exemplo: “Jango foi o responsável pela crise de 1964?”, “O golpe foi puramente militar ou civil-militar?”, “A ditadura para valer só começou com o AI-5, em 1968?”, “A esquerda armada foi a principal responsável pelo acirramento da violência de Estado?”, “As artes e a cultura de esquerda estavam inseridas na indústria cultural ou foram meras concessões episódicas por parte desta?”, “A sociedade, predominantemente, resistiu ou apoiou a ditadura?”, “A abertura do regime foi um movimento consciente dos militares, que preparavam a sua saída do poder sem hesitações?” (p.8-9), etc.

Vamos por capítulos (são doze no total):

Em “Utopia e agonia do governo Jango”, ele analisa rapidamente a figura desse político controverso (às vezes tido como vilão, às vezes como vítima do processo histórico) com grande lucidez, levando em conta o jogo político em que estava inserido e as forças de apoio e oposição a ele. Chama atenção a (des)organização das instituições e movimentos de direita e esquerda, e também o contexto da Guerra Fria, o qual não pode ser desprezado. Mesmo sem julgamento histórico, o autor não tem medo de expor sua visão (claramente de esquerda e com algumas ressalvas) – que é justamente o que me incomoda nos “jornalistas que escrevem sobre História”: eles inserem sua opinião no assunto, sem expô-la explicitamente, e acabam por condenar ou absolver fatos e personagens do passado. Para um leitor menos treinado, essa opinião implícita torna-se verdade, e é aí que mora o perigo.

No capítulo “O carnaval das direitas: o golpe civil-militar”, o papel da imprensa como veículo de propagação de um alarmismo crescente é bastante destacado, algo extremamente válido e atual. Por aí, podemos questionar a nossa própria grande imprensa, sempre comprometida com alguém (pessoas / países / governos / empresas). Ressalta-se que o golpe de 64 foi contra um projeto de sociedade (aquele calcado nas reformas, algumas de cunho notadamente social), e não apenas contra um homem (Jango) e seu governo.

“O mito da ‘ditabranda'” é um capítulo referente à ideia de que o início da ditadura foi algo “brando” (conforme sugerido por um colunista do jornal Folha de S. Paulo). Realmente, existem linhas que dizem que o governo de Castelo Branco foi “leve” em termos de repressão, ideia que o historiador não hesita em rechaçar. Napolitano mostra com números o autoritarismo no início da ditadura – autoritarismo que “blindou” o Estado e preparou-o para endurecer ainda mais a partir de 1968. Analisa, ainda os principais objetivos políticos dos militares no poder no início da ditadura e cita leis que corroboram suas palavras.

No quarto capítulo, “No entanto é preciso cantar: a cultura entre 1964 e 1968”, tratando ainda sobre o início do período do regime militar, o autor conta como neste começo, a cultura não sofria censura (o que certamente reforça o mito da “ditabranda”) – seja porque reprimir essa cultura questionadora ceifaria grande parte de um mercado lucrativo (produzido e consumido pela classe média brasileira), seja porque as atenções do governo estavam mais voltadas neste momento para a desestruturação de movimentos sociais, sindicais e mais institucionalizados em detrimento de indivíduos (no caso, artistas). O limite desta “tolerância” dos militares foi o encontro da cultura engajada de esquerda com as guerrilhas, as quais não podiam ser ignoradas por seu grau de ameaça para o regime.

“‘O martelo de matar moscas’: os anos de chumbo” é o capítulo que conta a história dos movimentos armados de esquerda e da máquina repressiva montada pelo Estado para acabar com eles, máquina esta baseada num tripé: vigilância, censura e repressão, cada um dos pontos minuciosamente analisado (desaparecimentos, torturas, DOI-CODI). Neste capítulo, algo muito interessante acontece: Napolitano fala sobre as raízes da Polícia Militar de hoje, claramente herança dos tempos ditatoriais, onde qualquer um era (é!) considerado suspeito até que se provasse o contrário.

“Nunca fomos tão felizes: o milagre econômico e seus limites” desmente muitos dos mitos que existem por aí sobre o “milagre econômico”, porque relativiza essas conquistas econômicas (trazendo dados como a explosão da dívida externa, usada para financiar o “milagre”; o agravamento da má distribuição de renda; a inflação decorrente disso, cujos efeitos muitos de nós nos lembramos). É um capítulo que versa muito sobre economia mesmo (tema que não me agrada particularmente, então me ative às linhas gerais). Aqui, é duramente criticada a ideia de que a ditadura foi “civil-militar”, da mesma maneira como foi o golpe de 1964 para o autor; ele defende que, estando sob a tutela militar, a ditadura no Brasil foi qualitativamente “militar”.

“‘A primavera nos dentes’: a vida cultural sob o AI-5” e “Letras em rebeldia: intelectuais, jornalistas e escritores de oposição”, respectivamente o sétimo e o oitavo capítulos do livro, procuram esclarecer as questões cultural e intelectual no auge da repressão (cerca de 1968). Eles perpassam a convivência entre a arte engajada de esquerda e o entretenimento em florescimento (possibilitado pela difusão de produtos como a música popular e a televisão), as várias correntes musicais que faziam sucesso na época (em especial o samba, a MPB e o rock), teatro e cinema. Marcos Napolitano enfatiza a contradição que havia no regime: ao mesmo tempo em que impunha a censura prévia aos meios de comunicação (estabelecido pelo AI-5), também possuía uma política de incentivo à cultura. Quanto aos intelectuais, fala-se mais do jornalismo e da literatura nacionais, e também do papel que esses intelectuais assumiam no regime: tanto como base do regime quanto como diversos matizes de oposição a ele. Ao tratar de temas culturais, especialidade do autor, o texto fica mais detalhado e, por isso, mais lento. Obviamente que os detalhes são importantes, mas a leitura me pareceu menos fluida nesse ponto da obra.

Em “‘A democracia relativa’: os anos Geisel”, mais um mito é duramente questionado: o de que Geisel era um “liberal”, alguém que retomou o caminho da “linha branda” da ditadura (quase como se ele fosse “bondoso”). Essa imagem é muito comum de se ver, assim como a de que Castelo Branco seguia também esta linha. O historiador mostra-nos como o jogo de “abertura” e “distensão” do regime foi altamente estratégico, procurando não isolar o governo de sua cada vez mais frágil base de apoio “popular” (setores da classe média e empresariado, entre outros). Tal base estava frágil por conta do fim do “milagre econômico”, insustentável por um longo período de tempo, que levou os setores anteriormente coniventes com o regime a criticá-lo cada vez mais. Em suma, a estratégia de “distensão” política do governo Geisel é descrita:

“[…] abrindo espaços institucionais e canais de diálogo com vozes seletivas e autorizadas, sem necessariamente abrandar a repressão à esquerda e aos movimentos sociais como um todo.” (p. 251-252)

(Calma, está acabando!!!)

O décimo capítulo chama-se “A sociedade contra o Estado”, e trata do aumento da mobilização pública da sociedade civil, dando destaque à reorganização do movimento estudantil e seu retorno às ruas (além de outras organizações, como CNBB, ABI, OAB, MDB, movimento operário, Movimento do Custo de Vida, pequenos movimentos iniciados nas periferias das grandes cidades, etc.).

“Tempos de caos e esperança” é o momento final do recorte temporal do livro: fala das greves no ABC paulista (emergência de Lula como líder sindical), da fragmentação das esquerdas no momento em que perdem a “bandeira única” da democracia (novamente, a fragmentação das esquerdas, bastante falada ao longo do livro), a campanha das Diretas Já! e, finalmente, a eleição de Tancredo Neves para a presidência da República em 1985.

O último capítulo, “A ditadura entre a memória e a História” retoma alguns pontos importantes, resumindo-os (como o trecho no início da resenha), em especial as contradições maiores do regime. Além disso, discute a questão da memória e da verdade, da solução para desaparecimentos políticos e da escrita de uma história oficial para a ditadura, temas extremamente atuais, ainda mais se levarmos em consideração o momento de lembrança dos 50 anos do golpe.

Acho que deu para perceber o quão embasada a pesquisa deste historiador é. Com uma linguagem muito tranquila, Napolitano trata de analisar conjunturas e expor dados para ratificar suas posições, sempre claras. Trata-se de um manual sobre a ditadura militar – o qual sublinhei exaustivamente para futuras consultas para elaboração de aulas – altamente recomendável, em especial para quem se interessa pelo tema e para quem dá aula sobre isso. E conta com interessantíssimas discussões sobre o cenário atual do Brasil, o que, afinal de contas, é uma das funções da História. O livro é muito bom em apontar nuances difíceis de serem enxergadas, tais como as diferenças dentro de um pensamento de direita ou de esquerda, e também contradições e ambiguidades inerentes a esse período histórico (tanto do regime militar quanto das oposições).

Em tempos de refundação da Arena e reencenação da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, quem tem um mínimo de consciência histórica e espírito crítico sai na frente. A ignorância não pode vencer a memória. Espero que tenhamos aprendido alguma coisa com a tragédia que o país enfrentou nesses 21 anos de ditadura militar. Tudo bem que a política atual está loooooooooooooooonge de ser maravilhosa, ninguém está satisfeito com a impunidade e a corrupção geral, mas NADA justifica um pedido de intervenção armada nos moldes de 1964. Sejamos inteligentes e proponhamos uma solução inovadora, e não voltemos às trevas medievais para repetirmos um erro que, já sabemos, provou-se cruel e infrutífero.

OBS.: Aproveitando o assunto, deixo um link para a reportagem “Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto“, apenas mais um exemplo de barbárie, para que ninguém se esqueça do absurdo que foi.

+ info:
1964: História do Regime Militar Brasileiro / Marcos Napolitano.
– São Paulo: Contexto, 2014.
365 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade: MEDIO
(É interessante ter algum conhecimento prévio sobre história da ditadura militar no Brasil para ler a obra, por isso a classificação de dificuldade “média”.)

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Ficção, Resenha

Morte súbita

Morte súbita, de J. K. Rowling

morte-subita-jkrowling-capa

“- Já soube?
Maureen o encarou, franzindo as sobrancelhas, com um ar inquiridor.
– Barry Fairbrother morreu.
A mulher ficou de boca aberta.
– Não! – exclamou ela. – Como?
– Alguma coisa arrebentou – disse o seu sócio, dando um tapinha na lateral da cabeça. – Por aqui. Miles estava lá. Viu tudo. Foi no estacionamento do clube de golfe.
– Não! – repetiu Maureen.
– Mortinho – disse Howard, como se houvesse graus diferentes de morte e Barry Fairbrother tivesse sido vítima de um particularmente sórdido.

[…]

Os dois então sentaram juntos, atrás do balcão, nos bancos altos de madeira que Howard havia posto ali para as horas de menos movimento, e Maureen apanhou um punhado de raspas de gelo da bandeja das azeitonas para aliviar a queimadura. Juntos, desfiaram todos os aspectos convencionais da tragédia: a viúva (‘vai ficar perdida; ela vivia para Barry’); os filhos (‘quatro adolescentes; não vai ser fácil criá-los sem um pai’); a relativa juventude do morto (‘ele não era muito mais velho que Miles, não é mesmo?’); e, por fim, chegaram ao verdadeiro ponto de partida, com relação ao qual tudo o mais não passava de vagos rodeios.

– E agora? – indagou Maureen num tom ávido.
– Ah – replicou Howard. – Bom, e agora? Aí é que está! Temos uma vacância, Mo, e isso pode fazer toda a diferença.
– Temos uma o quê? – perguntou a mulher, temendo ter deixado passar algo absolutamente crucial.
– Vacância – repetiu Howard. – É o que acontece quando uma cadeira do Conselho fica vaga por morte do seu titular. É o termo legal – acrescentou ele, didaticamente.” (p. 37 e 38)

Sim, vou começar falando de Harry Potter. Sou fã da série desde os 11 anos. Meu amigo Pedoro me emprestou o primeiro livro – no qual, confesso, não botei muita fé – e eu, inevitavelmente, me viciei. O mesmo aconteceu com este livro que vos resenho: fui um pouco cética ler Morte súbita. A curiosidade venceu (e, também, seguindo recomendações de amigos, como a super confiável AnaC) e me rendi ao livro de capa amarela e vermelha. Não me decepcionei.

J. K. Rowling tem uma escrita deliciosa. Não tenho outra palavra para definir. A história começa com a morte (súbita) de Barry Fairbrother, um quarentão pai de família do vilarejo de Pagford. O início da história é justamente a notícia da morte se espalhando pela vila, à maneira das cidades pequenas: um contando para o outro, via telefone ou pessoalmente. E é desta maneira, quase imperceptível (porque misturada com a história), que passamos a conhecer os personagens e suas conexões, além das inevitáveis peculiaridades de cada um. Me surpreendeu a avidez com que todos queriam dar a notícia da morte de Fairbrother para seus conhecidos, numa espécie de prazer mórbido – detalhe que me deixou curiosa para conhecer mais e mais sobre Pagford e suas figuras.

Os personagens são muito interessantes: cheios de ganâncias, inveja, fofoca, interesses privados, defeitos em geral. Tudo isso numa cidade aparentemente pacata, pequena (que nem cidade é, corrijo: uma vila). E apesar de não conter um crime principal (como um assassinato, já que a morte de Fairbrother foi por causas naturais), o clima da história é um pouco policial, cada hora mostrando um personagem como principal, e todos com suas razões para puxar os tapetes uns dos outros.

Ouso dizer que o enredo são os personagens, se isso é possível. Ou talvez seja a velha Pagford. Porque acho difícil dizer “sobre o quê é o livro”, como dá pra fazer com O abrigo de pedra ou O menino do pijama listrado. Tem gente que diz que é uma trama política, com pagfornianos (?) se degladiando – com muita classe, como se espera de um hooligan britânico – pela vaga no Conselho do vilarejo. E é. Mas ao invés de dizer “política”, que é uma palavra que assusta demais, porque não sabemos direito o que é política, trata-se de uma trama sobre convivência entre vizinhos, alguns que se gostam, outros que não se suportam, e de uma disputa por um cargo de poder (a qual envolve também valores morais e ética). Por isso é uma trama política. Esta disputa a que me referi como sendo “com classe” não significa que seja uma disputa “limpa”, de maneira alguma. Segredos, amargura e ódio se mesclam para criar vários nós na narrativa.

Já na metade do livro senti que ia ficar com saudade de lê-lo todos os dias, aquela velha saudade pós-livro bom. E estava certa.

No final, há um entrelaçamento de histórias, e o clímax é intenso e veloz; digno de ser chamado “clímax”. Apesar da – perdoem o termo – escrotidão dos personagens, você se apega a alguns deles – justamente por serem tão reais e possíveis (diferentes de Ayla!). O desfecho é mais calmo, mas na minha opinião, não tira o brilho do clímax, e sim é um complemento dele.

Vi gente que odiou e se decepcionou com Morte súbita, e gente que o adorou. Eu definitivamente me encaixo no segundo grupo. Só, por favor, não me venham compará-lo com Harry Potter, porque não é. São completamente diferentes, acho bastante difícil ver um em relação ao outro. O que têm em comum é a autora. E a trouxidão (pensando bem, a história de Pagford é a materialização absoluta do mundo trouxa, com toda a sua praticidade, seus defeitos e complicações).

+ info:
Morte súbita / J. K. Rowling.
– Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
501 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2014, Filme, História

Doze anos de escravidão (filme)

Doze anos de escravidão, filme, 2014

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Vou tentar fazer algo diferente… não sou a maior cinéfila do mundo – aliás, estou beeeeeeem longe disso -, mas essa semana fui ao cinema assistir ao filme ganhador do Oscar 2014, Doze anos de escravidão, baseado em livro homônimo, o qual pretendo ler em breve (ou talvez nem tão em breve assim, já que tenho vários na fila). Minha análise, como sempre, se focará em impressões pessoais e análises históricas, uma vez que não tenho o mínimo preparo ou sensibilidade para entender sobre coisas de cinema.

Em primeiro lugar, no início do filme lemos na tela: “baseado em uma história real”. Como disse uma colega minha, historiadora e professora de História, Thaís Siqueira, não é baseado em uma história real; é baseado em milhões de histórias reais! É que essa foi escrita pela vítima, e acredito que aí mora o diferencial.

O início do enredo conta a história de Solomon Northup (interpretado pelo ator Chiwetel Ejiofor), um homem negro liberto que mora em Nova Iorque com sua pacata família: esposa e dois filhos. Após ser ludibriado, Solomon é sequestrado e vendido como escravo para propriedades de plantations no sul dos Estados Unidos (1841), onde passa os próximos doze anos de sua vida.

O que há de mais marcante no filme é, além das cenas de violência (castigos corporais, estupros, abusos verbais), o grande dilema vivido pelo protagonista – e por todos os escravizados, em última análise -:

resistência + possibilidade grande de morrer
versus
submissão + sobrevivência.

Digo isso porque fui com uma amiga, e ao acabar o filme, ela confessou ter saído com raiva de Solomon por sua “falta de resistência”. Uma coisa que costumamos discutir em aulas de História é justamente as diversas possibilidades de resistência, pacíficas ou violentas. Acredito que ela tenha pensado nas violentas. O filme mostra, de certa maneira, alguns tipos de resistência: fuga, enfrentamento violento, música, suicídio.

Acho que a revolta de minha amiga foi no sentido de sentir falta de um “herói de cinema”, aquele forte, inquestionável – que sofre, sofre, sofre, e no final, se dá bem (e quiçá se vinga dos vilões). [Só pra constar, lá pelas tantas no filme, uma cena em que mostrava o rosto em close de Northup e durava alguns segundos – minutos? -, ela comentou baixinho: “Parece filme francês”. O que quero dizer com isso é que talvez ela esteja muito acostumada com filmes hollywoodianos, e por isso idealizou a imagem do herói]. Caímos num problema de julgamento: é difícil dizer o que nós mesmos faríamos numa situação de exploração extrema como é a escravidão. Lutar e morrer ou sobreviver calado? Não é uma escolha fácil. E como eu não me canso de dizer, personagens com defeitos são ótimos! Isso os torna humanos. Particularmente, não me afeiçoei muito a Solomon Northup (achei ele um cara frio), mas isso não tem problema. Você não tem que gostar de todos os personagens.

Talvez a personagem que mais tenha sintetizado esse dilema tenha sido Patsey (feita pela atriz Lupita Nyong’o, que venceu o Oscar 2014 de melhor atriz coadjuvante por este papel). Patsey é a escrava preferida de seu proprietário, não só porque trabalha muito e bem, mas também por sua beleza (o fazendeiro a procura à noite para estuprá-la). Como “prêmio” por sua submissão (sexo e trabalho forçados), ela obtém alguns benefícios, como dia de folga e permissão para visitar fazenda vizinha. Mas há um momento do filme (SPOILER!!!) em que ela pede a Solomon para matá-la, por não aguentar mais a situação.

Como eu disse, as cenas de violência são fortes, e acho importante mostrar isso ao público. Por estar mais distante no tempo (embora, em termos históricos, o século XIX tenha sido ontem), tendemos a achar que a escravidão foi superada. No Brasil, ainda temos seríssimos problemas de racismo e inserção social decorrentes da escravidão:

Negros morrem mais no Brasil do que brancos
Negros ganham menos no Brasil do que brancos
Negros estudam menos no Brasil do que brancos
Menino é impedido de se matricular em escola por causa de sua recusa em cortar o cabelo black-powerCarnaval exclui negros dos principais blocos (via Marco Aurélio Greco Nordhausen Domingues)

Etc., etc., etc. Esses são apenas alguns exemplos. Por que tudo isso acontece? Obviamente negros não são piores que brancos. O problema é social, e mais que isso, histórico. Por isso, o debate não pode parar. E não podemos viver na ilusão de que somos um país igual, misturado e tudo bem. O famoso mito da democracia racial.

Enfim, a resenha descambou para uma discussão mais ampla, mas absolutamente necessária. Voltemos ao filme.

É interessante também notar os personagens brancos no filme, com todas as suas nuances: temos o proprietário “bondoso” (?!), que protege e procura tratar bem seus escravos mas que, apesar disso, faz parte da engrenagem do sistema e os explora da mesma maneira (no ato da compra, ele inclusive separa uma mãe de seus filhos). [Dá pra perceber o quão bizarro e contraditório isso é?] Temos também o proprietário violento, beberrão e cínico (é dele que mais temos raiva no filme), os trabalhadores livres brancos (marceneiro arrogante, estrangeiro abolicionista), além dos escravizados.

Em suma, achei um filme de grande qualidade estética: cenários, figurino (o que ressalta ainda mais a questão do sofrimento humano, por contraditoriamente aproximar beleza e violência). Faltou dizer que Solomon é violinista. Talvez a arte tenha um quê de salvação e esperança na história dele, já que continua tocando após ser escravizado.

Também é um tema muito relevante e imprescindível. Inclusive, trata-se de um filme interessante para propor discussões em sala de aula, por ser atual e comercial (convenhamos que filmes cult demais tendem a entediar os alunos), pelo assunto, e mesmo pelas cenas de violência, para que não nos esqueçamos. Há algum tempo li este texto (aliás, recomendo muito), que defende a ideia de que a escravidão é o nosso Holocausto. Tendemos a ficar chocados com o Holocausto europeu (com razão!), mas não tanto com a escravidão, que matou, torturou, exilou, perseguiu, explorou, separou e fez sofrer muita gente.
Só devem ser feitas as ressalvas necessárias, afinal de contas, a situação é parecida mas se passa nos Estados Unidos em outra época. E é um filme.

Acho que vou voltar para os livros.

+ info:
Doze anos de escravidão / Direção: Steve McQueen.
– Estados Unidos, 2014.
Drama histórico.
2h13min.
Trailer (legendado)

classificação: 5 estrelas

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