Ficção, Novo Conceito, Resenha

A agenda

A agenda: o acaso tem suas próprias regras, de João Varella

“- Então vamos marcar. Sem ser nessa, na próxima semana, a gente se reúne e discute mais a fundo a questão – afirmou Sandra enquanto tirava o delicado elástico vermelho que cerrava sua agenda. Felipe teve tempo de fitar o caderno de Sandra detidamente pela primeira vez. Páginas com cantos arredondados, feitas de papel grosso e seladas com capa dura.
Depois de anotar, voltou vagarosamente para a data daquele dia, olhando tudo o que tinha de fazer. Felipe não pôde evitar perceber que as páginas estavam cheias, escritas sempre com caneta negra em um papel levemente amarelado.

[…]

– Parabéns pela organização – rebateu Felipe, enquanto pescava com uma colher de chá o chantilly no topo da xícara.
– Sem minha agenda não sou ninguém, esqueço tudo e deixo de fazer coisas importantes. Funciona até nas coisas mais triviais. Quando estou de dieta, anoto tudo o que é pra comer. Mas minha próxima dieta está programada para a primavera. Até lá, vou tomar meus cafés sossegada – riu.
Felipe achou que fosse só figura de linguagem, porém Sandra realmente tem anotada em sua agenda uma dieta a começar em setembro.” (p. 72, 73 e 74)

“Depois da terceira chamada, a voz de Sandra cessou de repente. Era perceptível que algo estava errado. Seus olhos iam de um lado para o outro, os músculos faciais todos retesados.
– Edilene – chamou Sandra, com a respiração pesada -, pegue minha chave e veja se eu deixei minha agenda em casa.
Edilene parecia mais apavorada do que Sandra. Sem comentar nada, agarrou a chave, pegou dinheiro na bolsa da chefa e saiu do departamento de marketing. Sandra abria e fechava gavetas incessantemente.” (p. 89)

Finalmente um autor nacional aqui no blog. Não conhecia João Varella e ganhei o livro de aniversário do meu primo. O texto é bem rápido e fácil de ser lido, por sua diagramação e, é claro, linguagem clara e direta. O autor não se utiliza de firulas literárias: descreve o que tem que descrever e pronto (sem frescura). Um exemplo disso é que ele usa travessões para os diálogos, recurso não mais tão comum.

A agenda conta a história de Sandra, alta executiva de marketing de uma empresa. Extremamente competente em sua vida profissional (forte, decidida, ousada), lida em sua vida pessoal com decepções relativamente comuns: um cara que não liga de volta, uma filha quase ausente, um amante adolescente (ok, esta última não é tão comum assim). Precisa de sua agenda para organizar a rotina (daí, o título do livro. Veja o trecho que coloquei na abertura da resenha). Paralelamente, conhecemos o estagiário da mesma empresa, Felipe, estudante ambicioso e trabalhador; e também Carrano, um poeta andarilho e maltrapilho (frequentemente confundido por mendigo).

A princípio, as histórias dos três personagens pouco se entrelaçam.

A conexão entre Sandra e Felipe é mais óbvia: ela, a chefa dele na empresa. Ele, o estagiário enérgico que quer mostrar serviço e aplicar seus conhecimentos na prática.

“[Sandra e Felipe] passaram o resto da tarde falando de amenidades. Felipe sempre com um sorriso no rosto e excitação pela novidade de poder debater assuntos sérios de forma descontraída com uma pessoa bem-sucedida. Sandra percebeu como o garoto estava elétrico e reagia também com sorrisos, por mais que suas ideias mirabolantes fossem pífias, típicas de quem ainda não tem cancha ou experiência. Ele não entendia que os valores da marca GT pediam sobriedade, que geralmente resulta em pouca ousadia. Mesmo assim, via um potencial tremendo no garotinho viajandão e cheio de vontade de impressionar.” (p. 65)

A impressão que tive é uma vibe meio “Eduardo e Mônica”. Aos poucos, ele vai ganhando a confiança de Sandra e passa a ser mais próximo dela – próximo demais.

Mas e o tal Carrano? É um homem pobre, barbudo, um pouco sujo, que vive com seu sobrinho, um garoto esforçado e estudioso.

Certo dia, Sandra pega um táxi para ir ao trabalho. Em seguida à sua saída, Carrano sobe no táxi. Após uma confusão, ele é jogado para fora do carro com todas as suas “tralhas”, principalmente cadernos de poesias próprias, os quais ele vendia em bares e ruas. Sandra dá por falta de sua agenda que, saberemos mais tarde, foi esquecida no táxi e misturou-se aos papéis do poeta.

A agenda é devolvida depois de alguns dias, mas com amassados, rabiscos e muitos versos nas páginas já cheias de compromissos. Sandra passa a ficar intrigada com os poemas, os quais considera bastante familiares – estranhamente familiares, encaixando-se em alguns momentos de sua vida. E vai atrás do poeta misterioso. Este é o nó narrativo que levará a algumas reviravoltas na história de Sandra, tanto no campo profissional quanto no particular – estes, não posso contar.

Me chamou atenção de cara o fato de a protagonista ser mulher, mesmo o autor sendo homem (e o narrador, onisciente em terceira pessoa). Isso é raro de acontecer. Pense em quantos autores homens você conhece e que fazem de uma mulher o centro da história. Na verdade, não consigo pensar em nenhum agora – além de Varella. Outro ponto positivo para Varella é que ele mostra a personagem Sandra (não só ela, mas todos eles) como pessoas comuns, com qualidades e defeitos, coisa que acho fundamental num texto literário. Gosto de personagens complexos e próximos da realidade, com os quais podemos nos identificar ou nos quais podemos reconhecer a humanidade. Estou preparando a resenha de um outro livro em que isso não acontece e é absolutamente frustrante.

Um pouco diferente da maioria dos livros que costumo ler, mas não sei explicar exatamente o porquê. A agenda mostrou-se uma leitura rápida e prazerosa. Me manteve curiosa em várias partes, e o final é bem surpreendente. “Uma avalanche”, como bem definiu meu primo – o mesmo que me presenteou com o livro. Várias coisas acontecem em pouco tempo, e a sensação que fica é a de que levamos uma tijolada, sem saber o que nos atingiu.

+ info:

A agenda / João Varella.

– Ribeirão Preto, SP: Novo Conceito Editora, 2013.

234 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pelos comentários! Para deixar o seu,é só clicar no ícone logo abaixo do título do texto. 🙂

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9 comentários sobre “A agenda

    • Sei que parece comum demais o enredo, mas no final, tem uma reviravolta interessante!
      Bem, de qualquer maneira, é mesmo um livro um pouco diferente dos que estamos acostumados a ler, eu gostei de variar, valeu a pena!

      • Sabe, acho que fica essa sensação por causa das personagens, gente normal, humana. Mas acho que um dos acertos do autor foi justamente conseguir criar uma história interessante em cima delas. O enredo é despretensioso, mas vai pegando forma e tamanho, uma bola de neve que vira uma avalanche. =)

  1. PS: Consegui pensar em alguns livros de autores masculinos e protagonistas femininas: A Bússola Dourada (aliás, Fronteiras do Universo como um todo); Coraline; A Cidade do Sol; Fortaleza Digital; O Primo Basílio; Trilogia Millenium (livros 2 e 3); Carrie, a Estranha; Alice no país das maravilhas (aliás, vários contos de fadas); O Mágico de Oz; A menina que roubava livros…

    • Hahahaha também sabia, Tati!
      Menchikos, concordo com: “A bússola dourada”, “O primo Basílio”, “Alice no País das Maravilhas” e “A menina que roubava livros”. “Trilogia Millenium” também. “Coraline”, “A cidade do sol”, “Fortaleza digital”, “Carrie, a estranha” e “O mágico de Oz”, eu não li e, ou não sabia que tinham protagonistas femininas, ou não sabia que os autores eram homens.
      Agora, os contos de fadas tradicionais são considerados criações coletivas, sem autor definido, por serem tradições orais.

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