2014, Companhia das Letras, Ficção, História, Resenha

O menino do pijama listrado

O menino do pijama listrado, de John Boyne

“O pai suspirou, mas indicou que ele deveria fazê-la [outra pergunta] e, então, seria o fim daquele assunto, sem mais discussões.
Bruno pensou sobre a pergunta, procurando formulá-la com precisão desta vez, para que não soasse mal-educada ou pouco colaborativa. ‘Quem são todas aquelas pessoas do lado de fora?’, disse ele finalmente.
O pai inclinou a cabeça para a esquerda, parecendo um pouco confuso por causa da pergunta. ‘São soldados, Bruno’, disse ele. ‘E secretários. Empregados do gabinete. Você já os viu antes, é claro.
‘Não estou falando deles’, disse Bruno. ‘Quero saber daquelas pessoas que eu vejo da minha janela. As que moram nas cabanas, lá longe. Estão todas com as mesmas roupas.’
‘Ah, aquelas pessoas’, disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. ‘Aquelas pessoas… Bem, na verdade elas não são pessoas, Bruno.’
Bruno franziu o cenho. ‘Não são?’, perguntou ele, sem saber o que o pai queria dizer com aquilo.
‘Bem, não são pessoas no sentido em que entendemos o termo’, prosseguiu o pai. ‘Mas você não deve se preocupar com elas agora. Elas não têm nada a ver com você. Não há nada em comum entre você e elas. Apenas adapte-se à nova casa e comporte-se bem, é tudo o que eu peço. Aceite a situação na qual você se encontra e tudo ficará muito mais fácil.’
‘Está bem, papai’, disse Bruno, insatisfeito com a resposta.
Ele abriu a porta e o pai o chamou de volta por mais um instante, levantando-se e erguendo uma sobrancelha como se o menino tivesse esquecido alguma coisa. Bruno lembrou-se assim que o pai fez o sinal, e disse a frase e o imitou com exatidão.
Ele juntou os pés e ergueu o braço direito no ar antes de bater um calcanhar no outro e dizer numa voz tão profunda e clara quanto possível – tão parecida com a do pai quando ele conseguia fazer – as palavras que dizia sempre que saía da presença de um soldado.
Heil Hitler’, disse, o que Bruno presumia ser outra forma de dizer: ‘Bem, até logo, tenha uma boa tarde’.” (p. 52 e 53)

O menino do pijama listrado ficou bastante famoso por conta do filme homônimo (de 2008, veja o trailer aqui). Assisti ao filme antes de ler o livro, e gostei bastante.

A história é basicamente a seguinte: havia uma família que morava em uma grande casa no centro de Berlim, até que o pai, militar, é transferido para algum lugar do interior. O personagem principal da história é o menino de nove anos, Bruno, o qual não aceita bem a mudança: acha a nova casa pequena, feia e extremamente tediosa.

O cenário, como já dito, é a Alemanha. Mas em que época se passa? Aos poucos, o narrador nos revela (como no trecho que coloquei no início da resenha): é um momento em que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) já está em curso (deve passar-se em 1943 mais ou menos). Vemos então que o pai de Bruno é um militar de alta patente e homem de confiança de Hitler (o Führer, ou “Fúria”, como diz o livro).

Ao chegar, o garoto Bruno vê de sua janela uma “fazenda” com várias pessoas, “gente de todo o tipo”. Algumas dessas pessoas, imundas, perambulavam enquanto soldados gritavam com elas. O que elas tinham em comum eram as roupas: “um conjunto de pijama cinza listrado com um boné cinza listrado na cabeça”. Logo Bruno e sua irmã, Gretel, descobrem não se tratar de uma fazenda (apesar de também não descobrirem o que é o tal lugar), com uma cerca muito alta de arame farpado à sua volta e o chão arenoso e estéril. “Um lugar tão assustador”, é como eles definem. Para quem conhece um pouco de história, fica óbvio que trata-se de um campo de concentração.

Cansado do isolamento e da solidão em que se encontrava em sua nova casa (seus amigos e avós haviam ficado para trás, em Berlim), Bruno decide explorar os arredores. É aí que encontra uma placa com os dizeres: “‘Entregue por ocasião da inauguração do Campo de Haja-Vista. Junho de 1940.’ “. O menino Bruno não consegue entender o significado de algumas palavras, e as pronuncia de maneira incorreta, como é o caso de “Fúria” (para Führer) e “Haja-Vista” (que, na realidade, é Auschwitz). Ele vai em frente e encontra a cerca que o separa das pessoas de pijama listrado, e é aí que conhece o magro e triste menino judeu chamado Shmuel, que se tornará seu melhor amigo.

De linguagem muito simples, é uma leitura bastante rápida. Achei super interessante o tom infantil que o autor dá à obra. Apesar de o narrador ser onisciente e em terceira pessoa, parece que estamos o tempo todo na cabeça de Bruno, por conta das expressões inocentes, das correntes lógicas de pensamentos típicas de crianças de 9 anos, e de um grande número de repetições no texto (que nem por isso o torna cansativo).

No início do livro, achei um pouco simples demais, maniqueísta talvez. Mas o autor vai lentamente relativizando a ideia de “bem” e “mal” que temos na história: por exemplo, apesar de sabermos da terrível profissão do pai de Bruno, que é administrar um campo de concentração, e ficarmos com raiva dele por conta de sua função e austeridade, descobrimos que ele foi generoso no passado e ajudou a empregada da casa em tempos difíceis (não fica claro, mas provavelmente na época da República de Weimar, em que muitos alemães passaram por dificuldades financeiras gravíssimas, consequência da derrota na Grande Guerra e das imposições do Tratado de Versalhes). Vemos que dentro da própria família existem divergências: o avô e o pai são claramente apoiadores do regime hitlerista, enquanto que a avó é veementemente contra. A mãe de Bruno é apreensiva em relação ao assunto (pessoalmente é contra, mas apoia o marido). Portanto, temos um cenário de grande diversidade de opiniões, como provavelmente acontecia na Alemanha à época, em que nem todos concordavam com o nazismo, alguns o questionavam, mas muitos o consideravam bom.

O clímax e o desfecho (fiquem tranquilos que não vou contar o que acontece!) são construídos nos três últimos capítulos, o que acelera ainda mais nossa leitura. Ao chegar nesses capítulos, já se monta em nossa cabeça o final, mas acho difícil imaginá-lo antes disso, o que torna o livro um tanto quanto surpreendente.

Como professora de História, penso que este é um ótimo livro introdutório à temática nazista, justamente por conta da linguagem simples (que um jovem de 13 anos em diante consegue entender bem) e da história que “prende” o leitor. Uma ficção baseada na dura realidade, e que pode trazer à tona boas discussões em sala de aula, especialmente sobre o Holocausto e o Nazismo, mas também sobre amizade, direitos humanos, diversidade.

+ info:
O menino do pijama listrado / John Boyne; tradução de Augusto Pacheco Calil.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
186 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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9 comentários sobre “O menino do pijama listrado

  1. Zípora disse:

    Ainda não li a obra, mas, por causa do filme, olho com reservas para o livro. Acho perigoso apresentar de uma maneira tão simplória e atenuada o que foi inquestionavelmente cruel e atroz, é perigoso também defender uma pretensa ignorância do povo alemão a respeito dos horrores do holocausto.

    Mas preciso mesmo ler o livro pra conferir hehehe

    • Oiiii Zípora!
      Eu estava achando um pouco isso no início do livro, mas não achei que ele “defendeu” o povo alemão, como se ele não soubesse o que se passava debaixo de seus narizes. O que ocorre na história é justamente a perspectiva de uma criança que não entende nada do que está acontecendo (ele não reconhece a palavra “judeu”, por exemplo), mas vê-se claramente a posição dos soldados e dos familiares dele. O sofrimento também me parece bastante claro. Leia para podermos debater! 😀
      Beijos!

  2. Tatiana disse:

    Também fiquei instigada! Quero ler, pois sabia no início, mas o final (acelerado) deve ser muito bom. Normalmente filmes e livros deste tema são muito fortes e necessários. Adorei o começo falando que ali dentro “não era gente”.

  3. Camila disse:

    Eu estava esperando muito do livro e acabei me decepcionando. Achei simplista ao entremo. Não sei se na tradução muito foi perdido (como a tradução de Führer para Fúria), mas aabei me decepcionando. Entendo que a ideia era relatar a estória a partir do ponto de vista de uma criança, mas a complexidade dos personagens foi subjugada. Esse livro é um dos poucos que a versão cinematógrafica é melhor que a obra original.

    • Oi, Camila! Apesar de ter gostado do livro, também preferi a adaptação cinematográfica, a que assisti antes de ler. Entendo sua crítica e concordo – e, realmente, a tradução de Führer pra Fúria é de matar!!!!
      Beijos, obrigada pela visita e pelo comentário! 😀
      Nati

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