2014, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

Eu sou Malala

Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã, de Malala Yousafzai com Christina Lamb

“No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu parabéns a meu pai. […] O primeiro bebê de meus pais foi natimorto, mas eu vim ao mundo chorando e dando pontapés. Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás das cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar.” (p. 21)

A história de Malala já é bastante conhecida no mundo, e o próprio subtítulo já nos revela boa parte dela (clique aqui para ler a sinopse do livro e saber um pouco da história).

Um dos méritos do livro, e que gostaria de falar de cara, é que ele pode ser lido por pessoas de qualquer idade. A escrita é clara e direta, e como o livro foi redigido por uma menina de dezesseis anos e uma jornalista, traz um tom de inocência e objetividade. Outra coisa, trata-se de uma narração em primeira pessoa: Malala, “a garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã”, conta sua história, de maneira que temos a sensação de estarmos lendo um diário, ou mesmo ouvindo-a contar sua história, aproximando o leitor do narrador. Tudo isso torna a leitura extremamente leve e rápida.

Segundo ponto interessante: é uma não-ficção. Não costumo ler muitos livros desse estilo, prefiro romances com pelo menos um toque ficcional (veja, por exemplo, os posts Uma introdução e a resenha de Os versos satânicos), mas é sempre bom variar o estilo de leitura, a diversidade nos faz pensar mais e, portanto, crescer. Como historiadora e professora, recomendo muitíssimo este livro (confesso que não tenho paciência para livros muito técnicos), além de trabalhar com acontecimentos extremamente atuais e importantes, é uma leitura deliciosa.

A vida de Malala contém uma quantidade incrível de problemas que enfrentamos atualmente em, arrisco dizer, todos os lugares do mundo: a mulher vista como inferior (sem direito à educação formal), trazendo à tona discussões do feminismo, a importância da escola e da educação formal em si (no Brasil, um tema fundamental), a intolerância religiosa com questões que teoricamente deveriam ser laicas e a liberdade de opinião e de expressão (afinal de contas, Malala foi baleada pelo Talibã, um governo religioso radical que discordou dos discursos da menina a favor da educação para meninas – não só discordou, mas ficou com medo a ponto de disparar três balas contra seu corpo, no ônibus escolar. De acordo com os talibãs, esse não foi o real motivo, mas sim o fato de Malala estar pregando uma “ocidentalização” dos costumes).

Por ser muito jovem, Malala recorre bastante à História que estudamos na escola: ela conta muito do passado político paquistanês, da independência da Índia, e cita inclusive acontecimentos como a Guerra Fria e o 11/9 (queda das Torres Gêmeas em NY).

Eu sou Malala é dividido em cinco partes, e cada um em um certo número de capítulos, totalizando 24.

Na parte I (“Antes do Talibã”), ela conta um pouco sobre sua família e sua vida no vale do Swat, norte do Paquistão. A aldeia de Malala é um cenário extremamente rural, bucólico e romantizado (afinal de contas, ela escreve sobre sua terra natal, da qual está distante por conta do exílio na Inglaterra. Sabem como é, “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”). Pela descrição, é um local lindo e calmo em tempos de paz, mas ao mesmo tempo, bastante atrasado: muitos locais (inclusive escolas) sem banheiro, água encanada, energia elétrica, hospitais, escolas, estradas. Para nós, seres urbanos por excelência, conectados e informados, às vezes soa como uma paisagem quase medieval. Por outro lado, a vida de Malala nos traz reflexões importantíssimas sobre nossa própria sociedade (afinal, a globalização não faz de nós uma “aldeia global”?): a discussão sobre a importância de um Estado laico, da necessidade da educação – para pessoas pobres também! -, da liberdade de expressão, do combate à corrupção na política e à pobreza. E é transparente a admiração que a garota sente por seu pai, o qual é igualmente apaixonado por educação e liberdade.

A parte II chama-se “O Vale da Morte” e conta sobre a instalação do regime Talibã em partes do Paquistão. A maneira como ela descreve esse processo é um pouco agoniante, pois mostra um líder religioso radical que passa a manipular os pensamentos de uma população simples (e, por vezes, ignorante) mais e mais. Vejam um trecho que descreve bem o horror que as famílias sentiam cotidianamente, o horror da guerra:

“Os corpos eram despejados na praça à noite, para que todos os vissem na manhã seguinte, a caminho do trabalho. […] Em algumas noites de matança [promovidas pelo Talibã] também havia tremores de terra, o que tornava as pessoas ainda mais apavoradas, pois ligávamos cada desastre natural aos desastres humanos. A dançarina Shabana foi assassinada em uma noite gélida de janeiro de 2009. Ela morava na Banr Bazaar, uma rua estreita e irregular de Minegora, famosa por suas dançarinas e músicos. O pai de Shabana disse que um grupo de homens batera à porta da casa da filha e pedira-lhe que se apresentasse para eles. A moça foi se vestir e quando voltou, com suas roupas de dança, os homens sacaram suas armas e avisaram que cortariam sua garganta. Isso aconteceu depois do toque de recolher das nove da noite, e as pessoas a ouviram gritar: ‘Prometo parar! Não vou mais cantar nem dançar! Me deixem, por favor! Sou mulher, uma muçulmana. Não me matem!’. Então tiros foram ouvidos, e seu corpo varado de balas foi arrastado até a praça Verde. Tantos corpos haviam sido deixados lá que as pessoas começaram a chamá-la de praça Sangrenta.” (p. 157-158)

Os nomes das demais partes são bastante explicativas: “Três meninas, três balas”, “Entre a vida e a morte” e “Uma segunda vida”.

O livro, portanto, é uma leitura agradável, e nem por isso, superficial. Toca em pontos fundamentais atualmente, seja para o Paquistão ou para o Brasil. Além de tudo, é uma história inspiradora e que nos coloca em contato com um mundo diferente. Recomendadíssimo.

+ info:
Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã / Malala Yousafzai com Christina Lamb.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
342 páginas.

classificação: 4 estrelas
(Reservarei a classificação de 5 estrelas somente para livros que considere excepcionais.)

grau de dificuldade: FACIL

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Gostaria de agradecer a todos os que estão visitando, curtindo e compartilhando meu blog, e eu AMO os comentários que vocês deixam!!! Fiquem à vontade para deixar mais!
Um último agradecimento ao meu primo, Mauricio, que me deu este belo livro (o qual eu já estava de olho, aliás) de Natal!

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15 comentários sobre “Eu sou Malala

  1. Gus disse:

    Se no Brasil a luta pela emancipação e igualdade ainda é árdua para muitos, e notadamente maior para as mulheres, histórias como da Malala com certeza não poderiam passar despercebidas. Fico impressionado com a consciência e com a coragem que pessoas tão jovens possuem para se posicionar em um sistema opressor como o do Paquistão. Paquerei esse livro nessas férias e, definitivamente, tenho que ler!!!

  2. Itamara Tripoli disse:

    Adorei Malala. E gostei muito da forma com que vc pontuou o romance. Acho importante tb ressaltar que ha homens que valorizam as filhas como o pai da Malala. Vc gosta de Adeus China ( o ultimo bailarino de Mao) Li Cunxin? . Estou adorando o blog.

  3. Beatriz Vieira dos Santos. disse:

    Prof, adorei sua resenha! O livro parece ser realmente muito bom! Fiquei com muita vontade de lê-lo. Acho que será uma boa leitura e saberei mais sobre o regime Talibã. Beijos!

  4. Carlos Conde de Almeida disse:

    Que legal Nati,adorei seu blog e a sua competente forma de “redemunhar”, A sua paixão pelo ensino e pela leitura, já começa a deixar um crescente rastro de seguidores…. precisamos disso, gente que lê, gente que pensa, gente capaz de agir transformadoramente um pouquinho todos os dias. Beijão

  5. Tatiana disse:

    Naná, gostei muito deste post. É o tipo de livro que tenho vontade de ler, mas fico adiando por achar que a leitura vai ser chata. Me animei muito depois de ler sua opinião! Está na lista (se quiser me emprestar eu aceito! hahahah). E o blog está muito bom! Ao invés de “estragar” o final do livro só dá mais vontade de ler. Mas meu ritmo é muito inferior. ahahha Vamos ver se acompanho!!!

  6. Victor disse:

    Muito boa a resenha! A história da Malala já havia me chamado muito a atenção, muito por tudo que saiu no noticiário! Já a considerava uma pessoa de espírito muito forte por lutar por aquilo que acredita e o livro (na verdade a resenha, pois ainda não o li) mostra a força que um ser humano pode ter e seu impacto no mundo, pena que muito desses casos ocorrem em situações extremas, de opressão, luta e sofrimento. Ainda acredito que todos nós temos o potencial de ajudar e impactar positivamente as pessoas (vide o que uma menina foi capaz em um regime tão rígido como ao que ela enfrentava) sem necessariamente passar por situações extremas (como levar um tiro para aparecer ao mundo), mas a tendência à comodidade e ao conforto prevalecem e muito coisa deixa de ser feita ou e muita gente deixa de ser ajudada.

    Parabéns Naná! Muito bom todo o blog, do título às resenhas!!

  7. err, saiu cortado:
    Então, eu também não sou muito fã de não-ficção (principalmente biografias), mas estava bastante curioso com esse livro da Malala. Sua resenha me deu vontade de dar uma chance para essa leitura.

  8. Nai disse:

    Natoka.
    Já estive muitas vezes com esse livro nas mãos, pronta para comprar, mas acabei desistindo por achar que seria chato. Você me convenceu! Beijocas!

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