Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Os versos satânicos

Os versos satânicos, de Salman Rushdie

Muita gente fica com um pé atrás quando digo que estou lendo Os Versos Satânicos. Calma. Não é um livro de bruxaria/magia negra.

Trata-se da história de dois atores indianos bastante diferentes que entram no mesmo avião para Londres, por motivos diversos. Esse avião é sequestrado por terroristas e explode no ar. As primeiras páginas da história contam justamente a queda dos dois do avião, que no ar, cantam, dançam e se provocam. Já em solo, os dois literalmente se transfiguram: um deles, Gibreel Farishta, em anjo (virá a possuir uma auréola num ponto logo atrás de sua cabeça). O outro, Saladin Chamcha, em demônio, com direito a chifres, cascos de bode e cheiro de enxofre.

São separados um do outro, e a maior parte do livro se desenrola contando a história dos dois paralelamente, cada qual tentando se ajustar à nova vida. Porém, percebemos que as “novas vidas” de Gibreel e Saladin em Londres não são tão novas assim: aos poucos, tomamos contato com partes de suas vidas antigas que ressurgem, já que os personagens são assombrados por fantasmas (vivos ou não), como a ex-amante de Farishta e o pai de Chamcha. Eles também reencontram suas respectivas mulheres na cidade de Londres, Alleluia e Pamela.

Algumas das partes mais interessantes da história são os sonhos de Gibreel, basicamente três: 1) um Imã exilado em Londres, extremamente radical em seus costumes e religião; 2) Ayesha, a “menina das borboletas”, uma garota órfã e extremamente misteriosa; 3) uma vista geral de Jahilia, a cidade de areia que cultua vários deuses no meio do deserto. É nesse trecho que é contada a história de Maomé (Mahound). Provavelmente foi justamente esse aspecto que fez com que o autor dos Versos fosse condenado à morte pelo aiatolá Khomeini – para a religião muçulmana, Maomé é o messias, enviado de Deus (assim como para as religiões cristãs, Jesus faz esse papel) e não deve ser representado (há não muito tempo houve uma polêmica envolvendo um cartunista que desenhou Maomé num jornal, o que também lhe rendeu grande perseguição por parte dos muçulmanos). Até que anjo e demônio se reencontrem em Londres, os sonhos de Gibreel foram o que mais me prenderam à história: misturando-se os curiosos costumes de Jahilia e a misteriosa e  assustadora menina Ayesha (ela possui um poder quase sobrenatural sobre as pessoas, como que as hipnotizando, tendo as borboletas multicoloridas como traje), temos ingredientes que mantêm a atenção do leitor e seu interesse total no enredo.

Este livro contém um pouco (muito?) de “realismo fantástico” – o que, para mim, faz com que seja um dos aspectos mais marcantes e intrigantes de uma obra -, porque é fácil nos perdermos, no sentido de não sabermos ao certo se estamos lidando com metáforas sobre o bem e o mal, ou com o Bem e o Mal em si; as visões do anjo Gabriel são dadas como sonhos, e não sabemos se Farishta (Gibreel) está sofrendo de delírios psíquicos e alucinações ou realmente vivendo na cidade de Jahilia, observando e falando com Mahound.

Na história, a própria cidade de Londres, além de cenário, às vezes aparece como personagem, seja amigável e receptiva (mais raramente), seja distante e fria, misteriosa e enevoada, não poucas vezes refletindo o estado de espírito dos personagens principais.

Apesar dos delírios salvacionistas de Gibreel, para mim o demônio Chamcha é quem desperta mais curiosidade e identificação, justamente por ser mais humano. Parece mais completo, torna-se vingativo, amargurado e invejoso, mas também compreende o poder do amor e do perdão.

A escrita de Rushdie é dinâmica e interessante, utiliza inclusive recursos orais que enriquecem muito a história (por exemplo, existe um personagem gago, e impressiona a simplicidade com que ele retrata essa peculiaridade).

Basicamente, a obra nos leva a pensar sobre humanidade, vingança e redenção. O final não deixa a desejar, traz toques de amor, dúvida, suspense e ternura.

+ info:
Os versos satânicos / Salman Rushdie ; tradução Misael Dursan.
– São Paulo: Companhia de Bolso, 2008.
600 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade: DIFICIL

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14 comentários sobre “Os versos satânicos

  1. Edmar disse:

    Como sempre Diva! Estou lendo no momento o Silêncio das montanhas do mesmo autor de Caçador de Pipas e assim que terminar de lê-lo vou ler esse. Você escreve muito bem! Isso não é adulação é sinceridade!

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