2014, Companhia das Letras, Ficção, História, Resenha

O menino do pijama listrado

O menino do pijama listrado, de John Boyne

“O pai suspirou, mas indicou que ele deveria fazê-la [outra pergunta] e, então, seria o fim daquele assunto, sem mais discussões.
Bruno pensou sobre a pergunta, procurando formulá-la com precisão desta vez, para que não soasse mal-educada ou pouco colaborativa. ‘Quem são todas aquelas pessoas do lado de fora?’, disse ele finalmente.
O pai inclinou a cabeça para a esquerda, parecendo um pouco confuso por causa da pergunta. ‘São soldados, Bruno’, disse ele. ‘E secretários. Empregados do gabinete. Você já os viu antes, é claro.
‘Não estou falando deles’, disse Bruno. ‘Quero saber daquelas pessoas que eu vejo da minha janela. As que moram nas cabanas, lá longe. Estão todas com as mesmas roupas.’
‘Ah, aquelas pessoas’, disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. ‘Aquelas pessoas… Bem, na verdade elas não são pessoas, Bruno.’
Bruno franziu o cenho. ‘Não são?’, perguntou ele, sem saber o que o pai queria dizer com aquilo.
‘Bem, não são pessoas no sentido em que entendemos o termo’, prosseguiu o pai. ‘Mas você não deve se preocupar com elas agora. Elas não têm nada a ver com você. Não há nada em comum entre você e elas. Apenas adapte-se à nova casa e comporte-se bem, é tudo o que eu peço. Aceite a situação na qual você se encontra e tudo ficará muito mais fácil.’
‘Está bem, papai’, disse Bruno, insatisfeito com a resposta.
Ele abriu a porta e o pai o chamou de volta por mais um instante, levantando-se e erguendo uma sobrancelha como se o menino tivesse esquecido alguma coisa. Bruno lembrou-se assim que o pai fez o sinal, e disse a frase e o imitou com exatidão.
Ele juntou os pés e ergueu o braço direito no ar antes de bater um calcanhar no outro e dizer numa voz tão profunda e clara quanto possível – tão parecida com a do pai quando ele conseguia fazer – as palavras que dizia sempre que saía da presença de um soldado.
Heil Hitler’, disse, o que Bruno presumia ser outra forma de dizer: ‘Bem, até logo, tenha uma boa tarde’.” (p. 52 e 53)

O menino do pijama listrado ficou bastante famoso por conta do filme homônimo (de 2008, veja o trailer aqui). Assisti ao filme antes de ler o livro, e gostei bastante.

A história é basicamente a seguinte: havia uma família que morava em uma grande casa no centro de Berlim, até que o pai, militar, é transferido para algum lugar do interior. O personagem principal da história é o menino de nove anos, Bruno, o qual não aceita bem a mudança: acha a nova casa pequena, feia e extremamente tediosa.

O cenário, como já dito, é a Alemanha. Mas em que época se passa? Aos poucos, o narrador nos revela (como no trecho que coloquei no início da resenha): é um momento em que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) já está em curso (deve passar-se em 1943 mais ou menos). Vemos então que o pai de Bruno é um militar de alta patente e homem de confiança de Hitler (o Führer, ou “Fúria”, como diz o livro).

Ao chegar, o garoto Bruno vê de sua janela uma “fazenda” com várias pessoas, “gente de todo o tipo”. Algumas dessas pessoas, imundas, perambulavam enquanto soldados gritavam com elas. O que elas tinham em comum eram as roupas: “um conjunto de pijama cinza listrado com um boné cinza listrado na cabeça”. Logo Bruno e sua irmã, Gretel, descobrem não se tratar de uma fazenda (apesar de também não descobrirem o que é o tal lugar), com uma cerca muito alta de arame farpado à sua volta e o chão arenoso e estéril. “Um lugar tão assustador”, é como eles definem. Para quem conhece um pouco de história, fica óbvio que trata-se de um campo de concentração.

Cansado do isolamento e da solidão em que se encontrava em sua nova casa (seus amigos e avós haviam ficado para trás, em Berlim), Bruno decide explorar os arredores. É aí que encontra uma placa com os dizeres: “‘Entregue por ocasião da inauguração do Campo de Haja-Vista. Junho de 1940.’ “. O menino Bruno não consegue entender o significado de algumas palavras, e as pronuncia de maneira incorreta, como é o caso de “Fúria” (para Führer) e “Haja-Vista” (que, na realidade, é Auschwitz). Ele vai em frente e encontra a cerca que o separa das pessoas de pijama listrado, e é aí que conhece o magro e triste menino judeu chamado Shmuel, que se tornará seu melhor amigo.

De linguagem muito simples, é uma leitura bastante rápida. Achei super interessante o tom infantil que o autor dá à obra. Apesar de o narrador ser onisciente e em terceira pessoa, parece que estamos o tempo todo na cabeça de Bruno, por conta das expressões inocentes, das correntes lógicas de pensamentos típicas de crianças de 9 anos, e de um grande número de repetições no texto (que nem por isso o torna cansativo).

No início do livro, achei um pouco simples demais, maniqueísta talvez. Mas o autor vai lentamente relativizando a ideia de “bem” e “mal” que temos na história: por exemplo, apesar de sabermos da terrível profissão do pai de Bruno, que é administrar um campo de concentração, e ficarmos com raiva dele por conta de sua função e austeridade, descobrimos que ele foi generoso no passado e ajudou a empregada da casa em tempos difíceis (não fica claro, mas provavelmente na época da República de Weimar, em que muitos alemães passaram por dificuldades financeiras gravíssimas, consequência da derrota na Grande Guerra e das imposições do Tratado de Versalhes). Vemos que dentro da própria família existem divergências: o avô e o pai são claramente apoiadores do regime hitlerista, enquanto que a avó é veementemente contra. A mãe de Bruno é apreensiva em relação ao assunto (pessoalmente é contra, mas apoia o marido). Portanto, temos um cenário de grande diversidade de opiniões, como provavelmente acontecia na Alemanha à época, em que nem todos concordavam com o nazismo, alguns o questionavam, mas muitos o consideravam bom.

O clímax e o desfecho (fiquem tranquilos que não vou contar o que acontece!) são construídos nos três últimos capítulos, o que acelera ainda mais nossa leitura. Ao chegar nesses capítulos, já se monta em nossa cabeça o final, mas acho difícil imaginá-lo antes disso, o que torna o livro um tanto quanto surpreendente.

Como professora de História, penso que este é um ótimo livro introdutório à temática nazista, justamente por conta da linguagem simples (que um jovem de 13 anos em diante consegue entender bem) e da história que “prende” o leitor. Uma ficção baseada na dura realidade, e que pode trazer à tona boas discussões em sala de aula, especialmente sobre o Holocausto e o Nazismo, mas também sobre amizade, direitos humanos, diversidade.

+ info:
O menino do pijama listrado / John Boyne; tradução de Augusto Pacheco Calil.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
186 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pelos comentários! Para deixar o seu,é só clicar no ícone logo abaixo do título do texto. 🙂

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2014, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

Eu sou Malala

Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã, de Malala Yousafzai com Christina Lamb

“No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu parabéns a meu pai. […] O primeiro bebê de meus pais foi natimorto, mas eu vim ao mundo chorando e dando pontapés. Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás das cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar.” (p. 21)

A história de Malala já é bastante conhecida no mundo, e o próprio subtítulo já nos revela boa parte dela (clique aqui para ler a sinopse do livro e saber um pouco da história).

Um dos méritos do livro, e que gostaria de falar de cara, é que ele pode ser lido por pessoas de qualquer idade. A escrita é clara e direta, e como o livro foi redigido por uma menina de dezesseis anos e uma jornalista, traz um tom de inocência e objetividade. Outra coisa, trata-se de uma narração em primeira pessoa: Malala, “a garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã”, conta sua história, de maneira que temos a sensação de estarmos lendo um diário, ou mesmo ouvindo-a contar sua história, aproximando o leitor do narrador. Tudo isso torna a leitura extremamente leve e rápida.

Segundo ponto interessante: é uma não-ficção. Não costumo ler muitos livros desse estilo, prefiro romances com pelo menos um toque ficcional (veja, por exemplo, os posts Uma introdução e a resenha de Os versos satânicos), mas é sempre bom variar o estilo de leitura, a diversidade nos faz pensar mais e, portanto, crescer. Como historiadora e professora, recomendo muitíssimo este livro (confesso que não tenho paciência para livros muito técnicos), além de trabalhar com acontecimentos extremamente atuais e importantes, é uma leitura deliciosa.

A vida de Malala contém uma quantidade incrível de problemas que enfrentamos atualmente em, arrisco dizer, todos os lugares do mundo: a mulher vista como inferior (sem direito à educação formal), trazendo à tona discussões do feminismo, a importância da escola e da educação formal em si (no Brasil, um tema fundamental), a intolerância religiosa com questões que teoricamente deveriam ser laicas e a liberdade de opinião e de expressão (afinal de contas, Malala foi baleada pelo Talibã, um governo religioso radical que discordou dos discursos da menina a favor da educação para meninas – não só discordou, mas ficou com medo a ponto de disparar três balas contra seu corpo, no ônibus escolar. De acordo com os talibãs, esse não foi o real motivo, mas sim o fato de Malala estar pregando uma “ocidentalização” dos costumes).

Por ser muito jovem, Malala recorre bastante à História que estudamos na escola: ela conta muito do passado político paquistanês, da independência da Índia, e cita inclusive acontecimentos como a Guerra Fria e o 11/9 (queda das Torres Gêmeas em NY).

Eu sou Malala é dividido em cinco partes, e cada um em um certo número de capítulos, totalizando 24.

Na parte I (“Antes do Talibã”), ela conta um pouco sobre sua família e sua vida no vale do Swat, norte do Paquistão. A aldeia de Malala é um cenário extremamente rural, bucólico e romantizado (afinal de contas, ela escreve sobre sua terra natal, da qual está distante por conta do exílio na Inglaterra. Sabem como é, “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”). Pela descrição, é um local lindo e calmo em tempos de paz, mas ao mesmo tempo, bastante atrasado: muitos locais (inclusive escolas) sem banheiro, água encanada, energia elétrica, hospitais, escolas, estradas. Para nós, seres urbanos por excelência, conectados e informados, às vezes soa como uma paisagem quase medieval. Por outro lado, a vida de Malala nos traz reflexões importantíssimas sobre nossa própria sociedade (afinal, a globalização não faz de nós uma “aldeia global”?): a discussão sobre a importância de um Estado laico, da necessidade da educação – para pessoas pobres também! -, da liberdade de expressão, do combate à corrupção na política e à pobreza. E é transparente a admiração que a garota sente por seu pai, o qual é igualmente apaixonado por educação e liberdade.

A parte II chama-se “O Vale da Morte” e conta sobre a instalação do regime Talibã em partes do Paquistão. A maneira como ela descreve esse processo é um pouco agoniante, pois mostra um líder religioso radical que passa a manipular os pensamentos de uma população simples (e, por vezes, ignorante) mais e mais. Vejam um trecho que descreve bem o horror que as famílias sentiam cotidianamente, o horror da guerra:

“Os corpos eram despejados na praça à noite, para que todos os vissem na manhã seguinte, a caminho do trabalho. […] Em algumas noites de matança [promovidas pelo Talibã] também havia tremores de terra, o que tornava as pessoas ainda mais apavoradas, pois ligávamos cada desastre natural aos desastres humanos. A dançarina Shabana foi assassinada em uma noite gélida de janeiro de 2009. Ela morava na Banr Bazaar, uma rua estreita e irregular de Minegora, famosa por suas dançarinas e músicos. O pai de Shabana disse que um grupo de homens batera à porta da casa da filha e pedira-lhe que se apresentasse para eles. A moça foi se vestir e quando voltou, com suas roupas de dança, os homens sacaram suas armas e avisaram que cortariam sua garganta. Isso aconteceu depois do toque de recolher das nove da noite, e as pessoas a ouviram gritar: ‘Prometo parar! Não vou mais cantar nem dançar! Me deixem, por favor! Sou mulher, uma muçulmana. Não me matem!’. Então tiros foram ouvidos, e seu corpo varado de balas foi arrastado até a praça Verde. Tantos corpos haviam sido deixados lá que as pessoas começaram a chamá-la de praça Sangrenta.” (p. 157-158)

Os nomes das demais partes são bastante explicativas: “Três meninas, três balas”, “Entre a vida e a morte” e “Uma segunda vida”.

O livro, portanto, é uma leitura agradável, e nem por isso, superficial. Toca em pontos fundamentais atualmente, seja para o Paquistão ou para o Brasil. Além de tudo, é uma história inspiradora e que nos coloca em contato com um mundo diferente. Recomendadíssimo.

+ info:
Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã / Malala Yousafzai com Christina Lamb.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
342 páginas.

classificação: 4 estrelas
(Reservarei a classificação de 5 estrelas somente para livros que considere excepcionais.)

grau de dificuldade: FACIL

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Gostaria de agradecer a todos os que estão visitando, curtindo e compartilhando meu blog, e eu AMO os comentários que vocês deixam!!! Fiquem à vontade para deixar mais!
Um último agradecimento ao meu primo, Mauricio, que me deu este belo livro (o qual eu já estava de olho, aliás) de Natal!

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2014, Companhia das Letras, Sem categoria

Vejam que coincidência! Lendo o livro Eu sou Malala, o segundo que resenhei para o blog, encontrei um comentário dela sobre Os versos satânicos [Salman Rushdie], o primeiro livro que resenhei aqui! Lembrando que Malala nasceu no Paquistão, um país de grande maioria muçulmana, e Os Versos trazem uma versão da história de Maomé (Mahound), profeta do islamismo. Como já foi comentado no post Os versos satânicos, para os muçulmanos radicais, o Profeta não deve ser retratado, o que fez com que Rushdie fosse bastante perseguido (ele inclusive recebeu uma sentença de morte proclamada pelo aiatolá Khomeini do Irã). Aí vai o trecho que fala sobre o livro:

“Um dos debates mais acalorados naquele primeiro ano foi sobre um romance, Os versos satânicos, escrito por Salman Rushdie, que alguns consideraram uma paródia do Profeta passada em Bombaim. Os muçulmanos consideraram o livro blasfemo, e ele provocou tanta indignação que, parecia, ninguém falava em outra coisa. O curioso foi que, no início, ninguém deu atenção à publicação – na verdade, o livro nem sequer estava à venda no Paquistão. Mas então um mulá próximo do serviço de inteligência escreveu uma série de artigos para os jornais em urdo, classificando o romance como ofensivo ao Profeta e dizendo que os bons muçulmanos tinham o dever de protestar contra ele. Logo os mulás de todo o país denunciaram o livro, pedindo seu banimento. Demonstrações furiosas foram realizadas. A mais violenta delas aconteceu em Islamabad, a 12 de fevereiro de 1989, quando bandeiras americanas foram incendiadas em frente ao Centro Norte-Americano (embora Rushdie e seus editores fossem britânicos). A polícia disparou contra a multidão, e cinco pessoas foram mortas. A raiva não se espalhou apenas pelo Paquistão. Dois dias depois, o aiatolá Khomeini, líder supremo do Irã, emitiu uma fátua, ou decreto islâmico, pedindo o assassinato de Rushdie.
A faculdade onde meu pai estudava organizou uma discussão exaltada em uma sala lotada. Para alguns, o livro deveria ser banido e queimado, e a fátua precisava ser mantida. Meu pai também via o livro como ofensivo ao Islã, mas, como defensor ferrenho da liberdade de expressão, argumentou que a resposta precisava ser intelectual. ‘Primeiro, vamos ler o livro. Então, por que não responder com outro livro, nosso?’, sugeriu. ‘Será que o Islã é uma religião tão fraca que não pode tolerar que escrevam um livro que lhe seja contrário?’, vociferou no debate. ‘Não o MEU Islã!'” (pág. 54/55)

Nota sobre Os versos satânicos

Nota
Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Os versos satânicos

Os versos satânicos, de Salman Rushdie

Muita gente fica com um pé atrás quando digo que estou lendo Os Versos Satânicos. Calma. Não é um livro de bruxaria/magia negra.

Trata-se da história de dois atores indianos bastante diferentes que entram no mesmo avião para Londres, por motivos diversos. Esse avião é sequestrado por terroristas e explode no ar. As primeiras páginas da história contam justamente a queda dos dois do avião, que no ar, cantam, dançam e se provocam. Já em solo, os dois literalmente se transfiguram: um deles, Gibreel Farishta, em anjo (virá a possuir uma auréola num ponto logo atrás de sua cabeça). O outro, Saladin Chamcha, em demônio, com direito a chifres, cascos de bode e cheiro de enxofre.

São separados um do outro, e a maior parte do livro se desenrola contando a história dos dois paralelamente, cada qual tentando se ajustar à nova vida. Porém, percebemos que as “novas vidas” de Gibreel e Saladin em Londres não são tão novas assim: aos poucos, tomamos contato com partes de suas vidas antigas que ressurgem, já que os personagens são assombrados por fantasmas (vivos ou não), como a ex-amante de Farishta e o pai de Chamcha. Eles também reencontram suas respectivas mulheres na cidade de Londres, Alleluia e Pamela.

Algumas das partes mais interessantes da história são os sonhos de Gibreel, basicamente três: 1) um Imã exilado em Londres, extremamente radical em seus costumes e religião; 2) Ayesha, a “menina das borboletas”, uma garota órfã e extremamente misteriosa; 3) uma vista geral de Jahilia, a cidade de areia que cultua vários deuses no meio do deserto. É nesse trecho que é contada a história de Maomé (Mahound). Provavelmente foi justamente esse aspecto que fez com que o autor dos Versos fosse condenado à morte pelo aiatolá Khomeini – para a religião muçulmana, Maomé é o messias, enviado de Deus (assim como para as religiões cristãs, Jesus faz esse papel) e não deve ser representado (há não muito tempo houve uma polêmica envolvendo um cartunista que desenhou Maomé num jornal, o que também lhe rendeu grande perseguição por parte dos muçulmanos). Até que anjo e demônio se reencontrem em Londres, os sonhos de Gibreel foram o que mais me prenderam à história: misturando-se os curiosos costumes de Jahilia e a misteriosa e  assustadora menina Ayesha (ela possui um poder quase sobrenatural sobre as pessoas, como que as hipnotizando, tendo as borboletas multicoloridas como traje), temos ingredientes que mantêm a atenção do leitor e seu interesse total no enredo.

Este livro contém um pouco (muito?) de “realismo fantástico” – o que, para mim, faz com que seja um dos aspectos mais marcantes e intrigantes de uma obra -, porque é fácil nos perdermos, no sentido de não sabermos ao certo se estamos lidando com metáforas sobre o bem e o mal, ou com o Bem e o Mal em si; as visões do anjo Gabriel são dadas como sonhos, e não sabemos se Farishta (Gibreel) está sofrendo de delírios psíquicos e alucinações ou realmente vivendo na cidade de Jahilia, observando e falando com Mahound.

Na história, a própria cidade de Londres, além de cenário, às vezes aparece como personagem, seja amigável e receptiva (mais raramente), seja distante e fria, misteriosa e enevoada, não poucas vezes refletindo o estado de espírito dos personagens principais.

Apesar dos delírios salvacionistas de Gibreel, para mim o demônio Chamcha é quem desperta mais curiosidade e identificação, justamente por ser mais humano. Parece mais completo, torna-se vingativo, amargurado e invejoso, mas também compreende o poder do amor e do perdão.

A escrita de Rushdie é dinâmica e interessante, utiliza inclusive recursos orais que enriquecem muito a história (por exemplo, existe um personagem gago, e impressiona a simplicidade com que ele retrata essa peculiaridade).

Basicamente, a obra nos leva a pensar sobre humanidade, vingança e redenção. O final não deixa a desejar, traz toques de amor, dúvida, suspense e ternura.

+ info:
Os versos satânicos / Salman Rushdie ; tradução Misael Dursan.
– São Paulo: Companhia de Bolso, 2008.
600 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade: DIFICIL

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Pessoal, Sem categoria

Uma introdução

Olá!

Sou uma apaixonada por livros. Na verdade, comecei a ler porque achava muito bonito ver as pessoas lendo. Portanto, não fui atraída para a leitura por uma obra especificamente, mas sim pelos livros e pela leitura em si.

É claro que agora tenho meus livros e autores favoritos: indiscutivelmente Guimarães Rosa (de onde tirei o nome do blog – “redemunhando” é uma derivação de “redemunho”) e Saramago.

Sou muito fã de alguns “clássicos juvenis”, como Pedro Bandeira (os Karas) e Harry Potter – afinal de contas, foram eles quem me ensinaram a ler, no sentido mais amplo da palavra – mas meus livros preferidos são Frankenstein (Mary Shelley), Primeiras Estórias e Sagarana (João Guimarães Rosa), Ensaio Sobre a Cegueira e O Homem Duplicado (José Saramago), 1984 (George Orwell), O Navio Negreiro (Markus Rediker) e Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marques).

O que estou lendo atualmente provavelmente entrará na lista dos melhores também, mas a resenha virá num próximo post.

Todos os meus livros preferidos têm alguma coisa em comum e que eu não sei explicar.

Apesar de historiadora, minha preferência é por romances e literatura. Principalmente os que têm um quê de existencialismo, os que mergulham fundo no pensamento humano e cutucam nossas feridas e almas. Por isso gosto tanto de Saramago e Guimarães Rosa. Aliás, outro aspecto que em ambos é parecido – apesar de extremamente diferente -, é a forma de contar histórias, a linguagem e as escolhas textuais que cada um deles faz. Saramago é conhecido como o “cara que não usa pontuação ou parágrafos”, e é justamente este um dos aspectos encantadores de sua obra: o dinamismo, a fluidez do texto que te engole a cada momento. A linguagem de Rosa é mais que conhecida e estudada, é academicamente venerada: seus neologismos, regionalismos, sua poesia em forma de prosa e sua reflexão sertaneja, a qual nos assusta pois se encaixa perfeitamente em nós mesmos, na maioria seres urbanos do século XXI e que nos achamos tão diferente desses riobaldos.

De vez em quando, me aventuro por algumas ficções (na realidade, gosto de livros que não são puramente “reais” – se fossem, seriam compilações de notícias, e não romances, não é mesmo?), mas os que têm partes de realidade e partes de fantasia, tais como Cem Anos de Solidão [Gabriel Garcia Marques] e Ensaio Sobre a Cegueira [José Saramago] (este, devo dizer, apenas considerado uma ficção porque ainda não aconteceu). Nossas vidas muitas vezes têm algo de irreal, e acho que o “fantástico” colocado magistralmente nesses livros funcionam como metáforas (e outras figuras de linguagem) para coisas que muitas vezes não sabemos explicar.

E é óbvio que a história tem que ser bem escrita, mas tenho uma queda por bons finais. Acho que o final pode enriquecer enormemente um texto, bem como enfraquecê-lo. Cito exemplos: para mim, Grande Sertão: Veredas [João Guimarães Rosa] foi uma belíssima história, mas eu esperava mais do final (provavelmente porque eu já sabia o que aconteceria, e tal expectativa tirou o impacto que o final teria para mim – SE VOCÊ NÃO SABE O FINAL DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS, NÃO DEIXE QUE NINGUÉM TE CONTE!!!). Por outro lado, O Homem Duplicado [José Saramago], foi uma boa surpresa para mim por conta do final. O livro é um pouco lento, mas seu final o fez com que se tornasse um livro interessantíssimo para mim.

Aqui no blog, pretendo postar algumas impressões e críticas dos livros que lerei ao longo do ano. Procurarei ao máximo em meus textos não colocar spoilers, mas sempre deixarei um aviso no início, pois às vezes, algum detalhe importante e surpreendente da história “escapa”.

Este é um blog de resenhas literárias feito por uma historiadora que ama tango. E minha meta deste ano é adquirir uma estante para orgulhosamente guardar meus tão estimados livros!

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A classificação dos livros, por critérios pessoais que serão explicitados no próprio post, será feita através de estrelas:

1estrela Ruim

2estrelas Regular

3estrelas Bom

4estrelas Ótimo

5estrelas Excelente

Também classificarei cada livro de acordo com o grau de dificuldade da leitura (que pode ser por conta da linguagem, do tema, da abordagem do assunto, ou de qualquer outra coisa):

FACIL

MEDIO

DIFICIL

Padrão